Nick Couldry: “O capitalismo precisa extrair todos os aspectos da vida humana, processando e gerando valor a partir de variadas formas de trabalho”

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Nick Couldry, professor da London School of Economics, lançará em agosto o livro The Costs of Connection: How Data Is Colonizing Human Life and Appropriating It for Capitalism, em coautoria com Ulises Mejias.

Em entrevista exclusiva à newsletter DigiLabour, Couldry conta que a dataficação da sociedade afeta não só o mundo do trabalho, mas a exploração de recursos de toda a vida humana. Os dados não são o novo petróleo, pois eles precisam ser produzidos e apropriados. Em sua visão, há uma forma distintiva de colonização atualmente: o colonialismo de dados, combinando práticas extrativas predatórias do colonialismo histórico com métodos de coleta e extração de dados.

DigiLabour: Como o colonialismo de dados tem afetado o Sul global, considerando a colonização histórica?

Nick Couldry: Nós não dizemos que o colonialismo histórico acabou. Com certeza não. Ele continua em novas formas coloniais de poder. É algo contínuo. Isso certamente é possível entender a partir do exemplo do que o Facebook faz na África ou na Índia como um poder neocolonial. São as continuidades do velho poder. No livro [The Costs of Connection], nós argumentamos que este é um momento especial na História, porque os dias de Colônia começam em um ponto da História com uma ideia de levar esses recursos para a Europa e controlá-los de lá. Agora é possível que seja um novo momento em que a América do Norte e a China estão interessadas em tomar um tipo diferente de recurso, que é a vida humana, para apropriar-se dela. E essa nova forma de colonialismo está começando agora a se colocar sobre o colonialismo histórico, mas é claro que muito do velho poder da América do Norte ainda se beneficia do velho colonialismo. Então, essas coisas estão emaranhadas, mas é importante ver o colonialismo de dados como uma nova espécie. Então, quando você me questiona como o novo tipo de colonialismo afeta o Sul global, a resposta ainda não está completa. Se você olhar para o Norte global, verá uma desvantagem de negros e negras da classe trabalhadora, como nos Estados Unidos da América. Eles são rastreados por mecanismos de vigilância tanto das empresas como do Estado. As informações recebidas são rastreadas e categorizadas por algoritmos. A desvantagem é que o colonialismo é distribuído muito injustamente. Os países que possuem estrutura de internet e empresas como Facebook e Google podem negociar e receber informações de grande impacto. Sabemos que o Facebook tenta desesperadamente aumentar os seus usuários fora da América do Norte e da Europa, porque nesses lugares as pessoas estão se afastando do Facebook Portanto, temos que esperar e ver como isso se desenvolve, mas porque as pessoas em países pobres também estão online e tendem a ter os seus dados desprotegidos. Em países como Quênia, Índia ou China, as relações entre Estado e empresas de dados são muito próximas. Então, novamente, os cidadãos estão desprotegidos. Justamente por isso, há desigualdades do período colonial e também novos tipos de desigualdade. As desigualdades globais são, então, reforçadas por meio do colonialismo de dados.

DigiLabour: Você tem dito que a dataficação da sociedade não pode ser reduzida à questão do trabalho. Mas como o colonialismo de dados afeta o mundo do trabalho?

Couldry: Primeiramente, é importante dizer por quais motivos o colonialismo de dados e o novo capitalismo, que Shoshana Zuboff chama de “capitalismo de vigilância”, não são apenas relacionados à questão do trabalho. Muitos críticos dizem que o que está acontecendo com a nossas relações online é uma forma de exploração de trabalho. Por exemplo, na Amazon Mechanical Turk. E o tempo em que fico online também pode ser também às vezes uma forma de trabalho, um trabalho explorado. Isso é verdade. Contudo, em nosso livro, mostramos uma exploração maior. Ela transforma os seres humanos em fluxos de dados e anexa isso ao processo econômico de valor. Esta é uma forma muito maior de exploração, pois envolve todos os aspectos da vida. Mesmo quando sabemos que não estamos trabalhando, quando estamos relaxando com os amigos, na piscina ou dirigindo. Ou seja, não estamos trabalhando No momento em que enviamos uma foto para nossos amigos e eles recebem, isso é uma fonte para o capital com um grande valor. Você pode dizer que isso é trabalho também. Mas, assim, ignora o fato de que o objetivo do capital é conquistar todos os aspectos da vida. É uma necessidade de captura pela infraestrutura de dados porque nós estamos online. Isso é para dizer que não se trata somente de trabalho, mas é claro que ele é importante. Primeiro, porque há pessoas que realizam “pequenas” atividades de trabalho porque estão muito desesperadas por renda, como na Mechanical Turk, com salários muito baixos. Mary Gray, da Microsoft, acaba de escrever um livro sobre “trabalho fantasma” e fala sobre essa forma de exploração. Uma exploração direta do trabalho envolvendo tarefas mal pagas. Há um segundo tipo de exploração com base no poder das plataformas em escala global por meio de softwares e gerenciamento de dados e metadados, onde o controle do trabalho se dá em uma escala muito grande. O trabalho pode ser facilmente realizado de outras maneiras, como o caso dos motoristas de táxi. A Über não tem necessidade de ter motoristas de táxi em Londres ou São Paulo. Isso era necessário há um século. Agora, há outra maneira de gerenciar as demandas econômicas por meio das plataformas globais. Isso está criando um novo tipo de exploração e não criando oportunidades econômicas, é claro. Onde há uma plataforma como Über, há uma forma de capitalismo sem qualquer suporte institucional. Você não tem poder sobre a estrutura institucional. Você não conhece as pessoas que tomam as decisões sobre você. Isso não quer dizer que as companhias de táxi tradicionais sejam empresas cool. Geralmente não são. Mas pelo menos há instituições com quem você pode negociar. Über é um tipo diferente de organização. Um puro capitalismo baseado em extração econômica sem relações humanas. Isso é muito perigoso para o desenvolvimento. A terceira área, que nós descrevemos como o colonialismo de dados, é a ideia de que o capitalismo atual precisa extrair todos os aspectos da vida humana, processando e gerando valor a partir de variadas formas de trabalho. Veja o exemplo da Amazon. Você sabe que eles rastreiam qualquer trabalho que seja feito, em qualquer lugar, segundo a segundo. E o trabalhador pode ser punido a partir das vigilâncias constantes. Isso é o que realmente acontece em diversas áreas do trabalho. Trabalho mal pago acrescido de vigilância o tempo todo. É o que a infraestrutura faz para controlar e ficar de olho em sua vida o tempo todo. A ideia de como funciona o capitalismo por meio dessa colonização de dados é muito perturbadora para todas as condições do mundo do trabalho. Mas não se esqueça que o trabalho não é tudo, mas parte importante de algo maior.

DigiLabour: E como nós podemos descolonizar a Internet em um contexto de capitalismo de plataforma?

Couldry: Ah, essa questão é ainda mais difícil. Nós não damos respostas definitivas em nosso livro. Mas, se isso é verdade, de que vivemos em uma era histórica fundamental com mudanças na organização do capitalismo e da sociedade, o futuro não é tão fácil de prever. Em nosso livro, dizemos que a coisa mais prática que podemos fazer é usar a nossa imaginação. Lembre-se como as coisas eram diferentes há dez anos, por exemplo. Nós precisamos lembrar isso. Essas coisas são muito novas e nós não conseguimos imaginar como podem ser diferentes. Todas as possibilidades estão em nossa imaginação. Soluções parciais não são suficientes. Não é suficiente que eu saia do Facebook amanhã. Há uma forma massiva de poder. E também não é suficiente construir uma nova plataforma que dependa dos recursos de Facebook ou Google. O que precisamos, como cidadãos, é agir a partir de outras maneiras que possam mudar e causar um grande impacto na construção das informações. Então, talvez nós tenhamos que repensar todo o propósito e as ferramentas que usamos em sociedade. E precisamos pensar em outros propósitos, um outro mundo. Então, como nós renegociamos os termos a partir dos quais estamos conectados? Nós trabalhamos para estar conectados e há um custo em estar conectado. Um custo muito alto. Isso é muito sério. Nós não queremos pagar esse custo. Nós queremos estar conectados em diferentes sentidos. Talvez isso, inicialmente, seja inconveniente. Mas, a longo prazo, podemos pensar em liberdade e achar novas possibilidades. Milhões de pessoas trabalhando e pensando juntas sobre outras opções. Nós escrevemos no livro que precisamos de uma luta coletiva de ajudar um ao outro a lidar com os custos da conexão e sobre o que devemos fazer. Isso é o que devemos fazer. Uma ação coletiva em massa. Renegociar os termos da conexão. Nós até amamos a conexão, como o Skype. Isso não era possível há vinte anos. Mas temos que renegociar os termos. O central é separar os custos do potencial benefício a longo prazo. E usar a imaginação para fazer coisas juntos, conversar juntos, ajudar um ao outro como uma maneira de enfrentar essa grande luta.

Você pode também ouvir os áudios da entrevista aqui. 

Além disso, leia um artigo de Nick Couldry e ouça um podcast publicados pela revista Television & New Media, além de uma palestra ministrada na Alemanha.

Nick Couldry é professor da London School of Economics e autor/coautor de livros como The Mediated Construction of RealityWhy Voice Matters e Media, Society, World. Seu próximo livro, The Costs of Connection, em coautoria com Ulises Mejias, será lançado em agosto de 2019.

Entrevista realizada por Rafael Grohmann em 12 de fevereiro de 2019.

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