Tempo e Tecnologia como Práticas Sociomateriais: entrevista com Judy Wajcman

 

Judy Wajcman é professora da London School of Economics e tem se dedicado a investigar questões de tecnologia, tempo, gênero e trabalho. Entre seus livros mais famosos, estão TechnoFeminism (2004 – em espanhol aqui) e Pressed for Time: the acceleration of life in digital capitalism (2015). Wajcman considera a tecnologia como prática sociomaterial, resultado de uma série de decisões concretas tomadas por grupos em tempos e espaços concretos. Da mesma forma, as práticas temporais também são sociomateriais, e a organização social do tempo depende de questões de gênero e classe. Assim, as práticas tecnológicas e temporais afetam a vida de trabalhadoras e trabalhadores.

Recentemente, Judy Wajcman escreveu uma ácida resenha sobre três livros ligados ao futuro do trabalho. Diz que eles estão aparecendo aos montes, e sempre da mesma maneira. Alguns pontos da resenha:

  • Há evidência de que os algoritmos de machine learning, assim como outras tecnologias, têm a marca de seus designers e de sua cultura, reforçando desigualdades de gênero, raça e classe;
  • Antes de pensar no “futuro do trabalho”, é preciso encarar a questão real e presente da distribuição desigual de trabalho, tempo e dinheiro;
  • É preciso insistir que os futuros são sempre sociais, de maneiras que órgãos públicos e a sociedade civil tomem esse tema também para si, não deixando-o somente na mão de “futuristas” e “empreendedores”.

Em sua pesquisa mais recente, a partir de entrevistas com engenheiros, Wajcman trata dos calendários digitais como parte de uma racionalidade mais ampla do Vale do Silício de “gestão eficiente do tempo”, procurando otimizar a “produtividade” e minimizar o desperdício de tempo” (você pode conferir os textos aqui e aqui).

Conversei por Skype com Judy Wajcman sobre esta última investigação e também sobre tópicos que marcaram sua trajetória: tecnologia, aceleração, tempo e trabalho, e como essas questões são atravessadas por relações de gênero. Confira abaixo em texto e áudio:

 

DIGILABOUR: Conte-nos um pouco sobre sua pesquisa mais recente envolvendo os calendários digitais e o projeto do Vale do Silício em relação à tecnologia e ao trabalho.

JUDY WAJCMAN: Há algo na cultura do Vale do Silício que valoriza hiperprodutividade e jornadas de trabalho muito extensas. Os valores primários do Vale do Silício se relaciona, de alguma forma, ao uso eficiente e produtivo do tempo, para maximizar todo o tempo de trabalho no próprio ambiente de trabalho. E os calendários digitais são projetados para otimizar o tempo e agendar as coisas, assim as reuniões podem ser organizadas da maneira mais eficiente possível. Uma das minhas preocupações é que, de alguma maneira, isso exacerba esse tipo de ideologia de produtividade, eficiência e cultura workaholic, e não incentiva que o tempo seja gasto com outras coisas. Eu presumo, quase completamente, que as pessoas que trabalham nessas empresas do Vale do silício são basicamente jovens e principalmente do sexo masculino, e certamente sem filhos, podendo dedicar-se muito a longas horas de trabalho. E os calendários e algoritmos são projetados para maximizar a eficiência tanto do trabalho quanto do lazer. Eu tenho tentado apreender o que chamo de ethos do Vale do Silício. Por um lado, é a ideia de que a coisa mais importante na vida é trabalhar e trabalhar duro, e isso é realmente uma crença incrível no progresso tecnológico e no uso das tarefas automatizadas. Por outro lado, muita energia é gasta na automação em vez de pensar na qualidade do trabalho ou de empregar pessoas. A outra coisa que eu pensei é o fato de que, em certa medida, todos esses locais de trabalho presumem que muitos trabalhadores de serviço estarão a seu dispor. O que é raro de ler sobre as grandes empresas são sobre limpadores, cozinheiros, motoristas da Uber, todo esse trabalho massivo que é muito mal pago.

DIGILABOUR: Em seu livro mais recente, Pressed for Time, você relaciona tecnologia e tempo a partir de uma perspectiva sociomaterial. O que isso quer dizer exatamente?

WAJCMAN: Antes que tivéssemos relógios com pêndulos, as pessoas viveram a maior parte da História da humanidade sem sequer ter uma ideia do que era um “segundo”, ou o que era um “minuto”. Depois, muito foi escrito sobre Modernidade e o papel crucial dos relógios, sobre ferrovias, telégrafo, fábricas, inclusive teorias marxistas sobre tempo de trabalho. Quero dizer que tudo depende de máquinas serem máquinas precisas de cronometragem. E é isso o que eu quero dizer com materialidade social. Se vivêssemos em um mundo sem máquinas de tempo precisas, o mundo seria um lugar diferente. Nós meio que assumimos que o modo como pensamos sobre o tempo em termos de minutos e segundos é algo natural, mas, na verdade, isso tem apenas algumas centenas de anos. Essa noção de tempo é uma construção histórica de tempo. Essa forma suave e progressiva de tempo que nós temos é uma noção da Modernidade. Isso não está no livro, mas um dia desses um colega turco veio me visitar no trabalho e me contou sobre um romance turco que eu nunca tinha ouvido falar, chamado Instituto para a Regulação do Tempo [The Time Regulation Institute, de Ahmet Hamdi Tanpınar]. É sobre como a Turquia adotou a cronometragem ocidental e sobre o quão emblemático isso era para todo o projeto de modernidade. Uma parte do processo de tornar-se moderno era adotar o horário ocidental e as práticas ocidentais de cronometragem. Isso é muito interessante porque é uma espécie de noção cultural do tempo que é, então, imposta ao mundo inteiro. Se você não adotar o tempo ocidental, você não está “sendo moderno”, não entra no “mundo moderno”. Isso é pensar de forma sociomaterial. As máquinas ditam o tempo. Nós contamos o tempo a partir de máquinas.

DIGILABOUR: E esse tipo de perspectiva nos ajuda a desconstruir a ideia de uma aceleração do tempo diretamente ligada às tecnologias…

WAJCMAN: Quando eu estava escrevendo o livro, queria desmistificar essa noção de aceleração. Parece-me que muitas das teorias sobre aceleração são deterministas tecnologicamente. Elas assumem que a aceleração é simplesmente impulsionada pelas próprias tecnologias. E o que eu estava tentando dizer é que nós vivemos em uma cultura que valoriza a produtividade, os negócios, que desvaloriza o lazer e o desperdício de tempo. É a cultura em que estamos e é a partir dessa cultura que desenvolvemos tecnologias. As tecnologias que desenvolvemos tanto refletem quanto impulsionam a sociedade. O fato de termos muitas tecnologias voltadas para eficiência relaciona-se à valorização da eficiência na sociedade. Estamos, de maneira infinita, projetando tecnologias para tornar as coisas mais rápidas porque valorizamos muito a velocidade. Então, não são as tecnologias em si, mas o modo como valorizamos essas coisas. Por exemplo, se você pensar nas operações do mercado financeiro. Isso poderia ser operado de forma mais lenta, e não é a tecnologia que está deixando isso mais rápido. É que os operadores mais rápidos são os que obtêm mais lucros, e todos estão competindo para lucrar mais que o outro.

DIGILABOUR: Você tem uma trajetória de pesquisa relacionando questões de gênero aos temas do mundo do trabalho e da tecnologia. Como as relações de gênero têm aparecido em suas pesquisas mais recentes?

WAJCMAN: Se você olhar para quem trabalha nas empresas de tecnologia do Vale do Silício, são, em sua maioria, empresas masculinas. Há muito sexismo e exclusão das mulheres em trabalhos na área de tecnologia. Assim como os negros são muito sub-representados em termos da força de trabalho na área de tecnologia no Vale do Silício. Encontramos muitas mulheres e, claro, muitos hispânicos e negros no trabalho de serviços, nos empregos mal remunerados. Então, você poderia dizer que há uma divisão de trabalho nesses lugares. A outra coisa é que muitas pessoas agora tem falado sobre como muitos robôs acabam assumindo uma forma feminina. Muitas das máquinas da internet das coisas que agora estão em casa têm vozes femininas. E vozes femininas muito agradáveis para torná-las mais aceitáveis em casa. Isso faz parecer tudo confortável, que as máquinas estão te ajudando, fazendo com que você se esqueça de todas as tecnologias de vigilância, que estão coletando seus dados para venda. As pessoas deveriam estar muito mais conscientes da coleta de dados quando elas possuem coisas que ecoam em suas salas de estar, mas, de alguma forma, a voz feminina ajuda a suavizar essa coleta de dados.

Calendários Digitais e Projeto do Vale do Silício

Tecnologia como Prática Sociomaterial

Desmistificando a “Sociedade da Aceleração”

Gênero, Trabalho e Tecnologia

 

Confira também palestras de Judy Wajcman aquiaqui, e aqui.

 

 

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