Trabalho nas Indústrias Culturais entre Independência e Precariedade

David Hesmondhalgh, professor da Universidade de Leeds, tem pesquisado o trabalho nas indústrias culturais/midiáticas/criativas – expressões com suas particularidades – especialmente na área de música. Ele conversou com DigiLabour sobre as mudanças no trabalho na indústria musical, o alcance da categoria de exploração para compreensão do trabalho na área da comunicação, a noção de criatividade no trabalho, e as representações midiáticas da classe trabalhadora. Em linhas gerais, Hesmondhalgh fala na complexidade de compreender o trabalho entre independência e precariedade e questiona os usos neoliberais da palavra “criatividade”.

 

 

DIGILABOUR: O que as mudanças na indústria da música têm a nos dizer sobre o trabalho nas indústrias midiáticas/ culturais/ criativas?

DAVID HESMONDHALGH: Uma coisa que nos dizem é que a digitalização não tem nada a ver com a força prometida pela digitalização há um tempo. Isso foi apresentado com grande certeza por muitos anos e ainda podem ser ouvidas, reconhecidamente de uma maneira mais qualificada, agora que a maioria das pessoas reconhece, mesmo que de maneiras confusas e variadas, as limitações das mídias digitais e sociais. É importante que os críticos do otimismo digital não cometam o erro de afirmar que nada mudou ou que não há potencial emancipatório nas mídias digitais. Eu acho que é plausível afirmar que agora, em parte como resultado das tecnologias digitais de comunicação, mais pessoas podem viver da música, como resultado de várias mudanças que ocorreram na produção e no consumo musical. Os custos de fazer música têm sido bastante baixos ao longo da História, em comparação com outros tipos de produção. Mas houve várias mudanças importantes nos últimos 30 ou 40 anos. Primeiro, as tecnologias digitais permitem que mesmo pessoas comuns gravem músicas com um nível bastante alto de sofisticação, embora isso obviamente esteja confinado principalmente à metade mais rica do planeta. Em segundo lugar, os meios de distribuição também se tornaram muito mais baratos. Terceiro, existem novos mecanismos de financiamento e marketing, como crowdfunding, e a promoção de shows ao vivo via mídias sociais. No entanto, existem muitas desvantagens. Primeiro, muitos desses desenvolvimentos agora ocorrem geralmente moldados pelas empresas de tecnologia dos Estados Unidos que dominam as mídias digitais e sociais, uma influência que é muito mais difundida na vida cotidiana em relação à maneira pela qual as empresas de eletrônicos dominaram a produção e o consumo musical no século XX, como disse em um artigo recente, escrito com Leslie Meier. Segundo, para ganhar a vida, os músicos e outros trabalhadores relacionados à música geralmente precisam  trabalhar muito, por exemplo, a fim de criar e sustentar uma reputação, formar uma audiência etc. Como vários críticos do trabalho cultural e do trabalho digital apontaram, isso também leva a uma erosão da solidariedade em favor de um ethos de autopromoção. Também requer que muitas pessoas gastem muita energia, geralmente com pouca esperança realista de recompensa. Assim, o número de pessoas atraídas para o mercado de trabalho aumentou, mas em muitos aspectos as condições de trabalho se deterioraram ainda mais. Embora exista alguma novidade nessa situação, também há muita continuidade, porque os músicos são, há muito tempo, um exemplo arquetípico de trabalho supostamente independente, mas altamente precário. Como muitos comentaristas já apontaram, essas características históricas do trabalho musical e mesmo cultural (independência e precariedade) agora se generalizaram para muitos outros setores da economia, à medida que as empresas buscam cada vez mais se libertar das obrigações básicas de emprego que foram cumpridas por, pelo menos, algumas empresas no período histórico anterior (que alguns ainda podem chamar de “fordismo”), como resultado de lutas trabalhistas.

 

 

DIGILABOUR: Para você, qual é o alcance da categoria de exploração para entender o trabalho na área da comunicação?

HESMONDHALGH: A exploração é um conceito necessário, mas não suficiente, para analisar o trabalho na área de comunicação. O termo precisa ser usado com mais cuidado e precisão do que costuma ser para que o termo seja criticamente útil. Parte do problema é que existe um modo muito especializado, quase técnico, pelo qual o termo é usado por alguns marxistas, que coexiste com um significado mais geral do termo, para significar algo como “tirar vantagem injustamente”. Ao ler contribuições de alguns debates críticos, parece que os autores geralmente não são claros em que sentido estão usando o termo, se no sentido específico marxista ou no seu uso cotidiano. Para alguns autores, praticamente todo esforço na vida de alguém fora do 1% mais rico, seja usuário do Facebook ou músico, parece ser entendido como exploração. Em tal situação, o termo corre o risco de perder sentido. Os melhores escritores marxistas, como Erik Olin Wright, foram extremamente úteis para refinar nossa noção de exploração, mas mesmo eles não conseguem abordar a questão dos graus de exploração. Então, acho que precisamos entender a exploração como centrada na vantagem injusta que é sistêmica e nos graus de sofrimento. Os trabalhadores chineses que cometeram suicídio me parecem um nível de exploração muito diferente do que acontece com usuários do Facebook ou recém-formados em busca de emprego na televisão. Há muitas razões para se preocupar com os últimos, mas se é exploração por si só é outra questão.

 

 

DIGILABOUR: Em sua visão, o que faz um trabalho ser criativo?

HESMONDHALGH: Todo trabalho tem elementos criativos, em maior ou menor grau. Meu interesse pessoal está na criatividade exercida por trabalhadores das indústrias culturais e criativas, que entendo como centradas no uso criativo e na manipulação de símbolos – linguísticos, visuais, auditivos etc. Alguns trabalhadores estão envolvidos no fornecimento de informação e conhecimento, geralmente com ênfase nas habilidades de explicação e avaliação. Outros estão envolvidos em atividades mais imaginativas e artísticas, criando objetos e eventos que procuram invocar prazer estético, choque, humor, e assim por diante. Existe uma divisão complexa do trabalho, com alguns trabalhadores envolvidos mais centralmente no conteúdo e nas performances reais, e outros assumindo papéis (que podem de fato ser tanto ou mais criativos, de forma geral), como trabalhadores de apoio aos primeiros. O que importa para mim é o grau em que as condições econômicas, políticas, culturais e tecnológicas permitem que as pessoas exerçam essa criatividade simbólica (ou apoiem essa criatividade) de maneiras que promovam ou inibam seu crescimento e o de outras pessoas. No livro que co-escrevi com Sarah Baker, Creative Labour, tentei fazer um esquema para considerar o que poderia constituir o que chamamos, por uma questão de simplicidade e lucidez, “bom trabalho” e “mau trabalho”, e nós procuramos aplicar isso a uma série de situações relacionadas ao trabalho nas indústrias culturais. Em nossa pesquisa, que envolveu etnografia e entrevistas, encontramos muitos exemplos de pessoas que encontraram elementos de crescimento e autorrealização em seus trabalhos nas indústrias culturais, mas também uma enorme quantidade de frustração, isolamento, precariedade e desespero. Agora, pode ser óbvio que ambos coexistem, mas o que realmente queríamos era abrir uma maneira de pensar sobre elementos positivos e negativos nos tipos de trabalhos que as pessoas realizam nas indústrias culturais, de modo a enriquecer debates críticos. Talvez seja desnecessário dizer que termos como “criatividade” e “inovação’ fazem parte do jargão neoliberal banal de um centrismo conformista que é surpreendentemente resiliente mesmo agora que populistas autoritários assumiram vários governos nacionais, incluindo Brasil e Reino Unido. Apesar da maneira como o termo criatividade foi apropriado, por exemplo, nos conceitos de indústrias criativas, cidades criativas, economia criativa e assim por diante, ad nauseum, precisamos nos apegar a uma noção positiva de criatividade como componente essencial de emancipação e conquista humanas. Não podemos prescindir do termo, mas ele deve ser reivindicado daqueles que incorporariam a criatividade artística e científica dentro das agendas de negócios. Os populistas autoritários não pretendem ter interesse ou respeito pela criatividade, e obviamente também precisam ser confrontados.

 

 

DIGILABOUR: Como lutar contra o trabalho não pago e o trabalho mal pago no setor cultural?

HESMONDHALGH: Precisamos encontrar maneiras de lutar para minimizar e impedir o trabalho não pago e o mal pago. Por exemplo, é necessário introduzir medidas que proíbam estágios não remunerados, exceto em circunstâncias excepcionai. Isso começou a acontecer em algumas jurisdições. Eu acho que há um terreno fértil no momento para um movimento que confronte os fundamentos ideológicos do individualismo possessivo que explora a si próprio, e que leva tantas pessoas a trabalharem muito na esperança de recompensas futuras, especialmente no setor cultural, embora seja difícil imaginar que esse aspecto do trabalho poderia ser eliminado e muitos de nós não desejaríamos isso. Essa fertilidade decorre do fato de que muitos jovens, aqueles que entendem a necessidade de solidariedade social, apreendem que algo está profundamente errado com as atitudes em relação ao trabalho moderno em geral, e que o setor cultural é particularmente problemático. Em tal situação, não há nada radical ou inovador nos pesquisadores que apontam a natureza precária do trabalho cultural contemporâneo. Precisamos avançar na agenda, apoiando-nos nas organizações dos trabalhadores culturais, incluindo sindicatos, para argumentar com confiança que os trabalhadores culturais merecem melhores salários e um melhor tratamento. A principal tarefa dos pesquisadores críticos, parece-me, é minar a base ideológica que sustenta as más condições de trabalho, ou seja, as ideologias do individualismo competitivo e da autopromoção, sem culpar as vítimas (por exemplo, castigando moralmente os millennials) e sem celebrar os influenciadores simplesmente porque são jovens e “inovadores”. Também existem medidas muito radicais, como a renda básica incondicional, que eu apoio. É uma aspiração a longo prazo, talvez, mas o fato disso estar sendo amplamente discutido em muitas áreas é encorajador.

 

 

DIGILABOUR: Você escreveu sobre o fracasso da mídia em representar a classe trabalhadora. Como enfrentar isso?

HESMONDHALGH: Sim, minha opinião é que na Europa e na América do Norte, pelo menos e possivelmente também em outros lugares (por favor, digam-me!), a mídia contribuiu para a pauperização da classe trabalhadora ao não representar adequadamente a complexidade, diversidade e riqueza de seus interesses, vidas e valores. Isso às vezes envolve sub-representação, às vezes má representação. Atribuir isso ao fato de a mídia ser dominada por pessoas relativamente privilegiadas é só o primeiro passo. A mídia na Grã-Bretanha há muito é dominada pelos privilegiados, mas o fracasso da representação midiática da classe trabalhadora se tornou substancialmente pior. Eu acho que um fator importante é o aumento do comercialismo. Além disso, os lugares em que os privilegiados às vezes são menos dominantes, como os jornais locais na Grã-Bretanha, não se saíram melhor em termos de representação das pessoas da classe trabalhadora. Grande parte do problema deriva dos sistemas educacionais ocidentais. O trabalho midiático geralmente depende da facilidade com símbolos (palavras, imagens, sons). Ao ensinar habilidades de criação de símbolos, os sistemas educacionais acabam desenraizando as pessoas da classe trabalhadora de suas comunidades. As pessoas da classe trabalhadora precisam receber as habilidades e a educação necessárias para se representar, sem esses efeitos de desenraizamento. Obviamente, isso requer uma profunda transformação da educação, e também depende de uma mudança de atitudes em relação à classe trabalhadora – que a mídia já fez tanto para prejudicar. De modo geral, as mudanças políticas minaram enormemente a crença da classe trabalhadora na produção cultural da própria classe trabalhadora. Voltamos novamente à necessidade de combinar uma reforma pragmática com o questionamento do sistema em um nível bastante profundo, mas sem recorrer aos dogmas da extrema esquerda.

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