entrevista

Os Brasileiros da Amazon Mechanical Turk

Pesquisa inédita em andamento mostra perfil dos trabalhadores da AMT no Brasil

O trabalho na Amazon Mechanical Turk (AMT) – plataforma de microtrabalho da gigante de Jeff Bezos cujo slogan é “inteligência artificial artificial” – já é alvo de muitas pesquisas no Norte Global, como já tratamos na DigiLabour (por exemplo, aquiaqui e aqui). Mas ainda há poucas investigações que tratem desse trabalho humano que alimenta a inteligência artificial em contexto latino-americano.

Já mostramos aqui a tese de doutorado de Renan Kalil sobre motoristas de Uber e trabalhadores da Mechanical Turk. Hoje mostramos uma pesquisa em andamento e inédita exclusivamente sobre os brasileiros que trabalham na plataforma de microtrabalho. Quem são eles? Como vivem?

A pesquisa é coordenada pelo Grupo de Experiências Críticas em Infraestruturas Digitais, localizado na Comunidade de Arte e Inteligência Artificial (CAIA) do Inova USP, criado em março deste ano, e tem se dedicado a propor outras visões sobre IA, inclusive artísticas, colocando responsabilidade e justiça social em primeiro lugar, a partir de um olhar do Sul Global.

Conversamos com os pesquisadores Bruno Moreschi, Gabriel Pereira e Fabio Cozman sobre o perfil dos turkers brasileiros, suas condições de trabalho, o papel da comunicação na organização dos trabalhadores e os detalhes metodológicos da investigação.

Apenas trabalhadores dos Estados Unidos e Índia da AMT podem receber os pagamentos diretamente em suas contas bancárias. As pessoas de outros países apenas ganham créditos que só podem ser usados em compras na Amazon dos EUA. Como, então, sobrevivem? Aí é que a plataformização do trabalho encontra a viração histórica em território brasileiro. Acompanhe a entrevista:

DIGILABOUR: Em geral, qual o perfil do turker brasileiro – envolvendo questões como idade, demografia, emoticons mais usados até o contexto de vida dessas pessoas?

BRUNO MORESCHI: Nossa pesquisa abrangeu 149 turkers brasileiros e grande parte deles são homens (66,4%), com idade média de 29 anos. A maioria se declarou de cor branca (64%), em seguida parda (21,5%) e preta (12,7%), diferindo da proporção da população brasileira segundo o IBGE (2010) que é de 47,7% Branca, 43,1% Parda e 7,6% Preta. Um total de 57% deles possui algum outro trabalho além do AMT – desse total, 28,9% possuem carteira assinada e 23,5%, autônomos. Mesmo que o AMT exista desde 2005, é preciso pontuar que para grande parte dos brasileiros ouvidos a plataforma é uma realidade recente – 13,4% está há menos de 1 mês e 65,1%, de 1 a 6 meses. O questionário respondido por eles foi publicado como mais um trabalho para eles no AMT (seguindo pârametros justos de pagamento, segundo a comunidade TurkerNation). Mas para evitar que turkers de outras nacionalidades se passassem por brasileiros, entramos em um grupo de  WhatsApp de turkers brasileiros, convidamos eles para responderem à pesquisa publicada no AMT e, em seguida, a enviarem uma mensagem privada no WhatsApp informando seus IDs workers alfanuméricos. Ter acesso a esse grupo no WhatsApp nos ofereceu dados para além do questionário. Por exemplo, 22% dos stickers (figuras no estilo de emoticons que é sucesso entre brasileiros) enviados por eles no grupo estão associados às sensações de stress ou indignação no contexto laboral do AMT.

GABRIEL PEREIRA: Descobrir que parte dos brasileiros no AMT se reúne e troca mensagens diárias em um grupo no WhatsApp é também se aproximar de umas das especificidades de uma pesquisa que almeja entender os turkers a partir de um contexto específico – no caso, o Brasil. Nada parece mais típico do que brasileiros com algo em comum (aqui, o trabalho) se reunirem num grupo desse aplicativo de mensagens que possui uma substancial comunidade no País. O MTurker é um grupo bastante movimentado – com cerca de 1500 mensagens trocadas diariamente, incluindo não só textos, mas mensagens de áudio (algo também muito comum entre brasileiros no WhatsApp) e imagens diversas.

DIGILABOUR: Quais as especificidades das condições de trabalho dos turkers brasileiros – por exemplo, em relação aos americanos e indianos? Como se entrecruzam elementos do “capitalismo de plataforma” (ou quaisquer outras denominações) com a economia informal de características brasileiras?

BRUNO MORESCHI: De acordo com as normas da Amazon, apenas trabalhadores residentes nos Estados Unidos e Índia podem receber o dinheiro de seus trabalhos diretamente nas suas contas bancárias, via processos de transferências on line. Para todos os outros turkers, incluindo os brasileiros, o pagamento na verdade se transforma em créditos que devem ser obrigatoriamente utilizados no website de compra da Amazon estadunidense. Para driblar isso, de forma geral, o que os brasileiros fazem de fato é trocar os créditos da Amazon por outros créditos, esses do GooglePlay, Nintendo e PlayStation, em uma espécie de leilões que ocorrem com frequência na internet. Por ali, o vendedor pode colocar o preço que quiser nesses créditos, o que faz com que essa seja uma forma que contribui ainda mais para a volatilidade e diminuição do dinheiro recebido pelos turkers. Em relação isso, complemento que não é raro que brasileiros sejam bloqueados nesses leilões e, quando isso acontece com alguém do grupo do WhatsApp, a tensão por ali aumenta. Por mensagem de áudio, um deles nos explicou também que esse caminho de várias etapas para de fato receber o dinheiro em suas contas significa não só uma situação tensa e de espera, mas também de redução dos valores já baixos que recebem no AMT. Quando eles compram o gift card por 10 dólares, precisam vender por cerca de 8,50 dólares, muitas vezes até menos que isso. Como se não bastasse, depois de vendido, eles recebem o dinheiro via Paypal que desconta mais 8% do valor. Quando o dólar cai, fica tudo ainda mais difícil para eles.

GABRIEL PEREIRA: Isso nos faz pensar que o AMT, por operar como uma plataforma, não assume a responsabilidade pelos trabalhadores ali envolvidos, o que leva a condições ainda piores para os trabalhadores do Sul Global. Cerca de 31% dos turkers brasileiros que participaram de nossa pesquisa indicaram que em maior ou menor grau dependem dessa plataforma para sua subsistência, um número similar aos turkers da Índia e muito maior que dos Estados Unidos (de acordo com Ross et al, 2010).

DIGILABOUR: Vocês salientam a riqueza do material coletado, envolvendo não só a parte quantitativa, mas a aproximação individual com turkers específicos. Como foi essa aproximação? 

BRUNO MORESCHI: Foi uma etapa muito rica da pesquisa, pois nesses momentos tivemos acesso ao lado de fato humano dessas pessoas, não só informações factuais sobre esse grupo de trabalhadores. Quando nos interessávamos em saber mais ou não entendíamos muito bem alguma resposta específica no questionário, entrávamos em contato com o brasileiro em questão por e-mail ou WhatsApp em uma aproximação mais intimista, digamos assim. Fiquei responsável por essas aproximações e a sensação é de que há muitas singularidades, não podemos simplesmente reduzi-los ao amplo termo turkers brasileiros. Foi a partir de uma dessas aproximações, por exemplo, que conheci a história de um deles que está há dois meses trabalhando como turker, pois precisa cuidar de um parente doente em casa e, por isso, não pode mais ser motorista do Uber. Ele está desempregado há 3 anos e me contou que desde que começou a trabalhar no AMT dorme cada vez pior, acordando várias vezes durante a noite para trabalhar um pouco mais na plataforma, com medo de perder algum serviço que pague melhor. Um outro trabalhador até hoje está incomodado com um serviço no AMT que realizou e que consistia em ver imagens de pessoas ensanguentadas em um cenário de guerra de um país que até hoje não sabe qual é. Em quase todas as aproximações individuais com os turkers brasileiros, senti que eles tinham uma vontade muito grande de conversarem, dois deles até me expressaram a alegria de finalmente estarem sendo ouvido. Isso me fez pensar que essas pessoas estão em um processo de imenso desamparo material e psicológico.

DIGILABOUR: O que a inserção nos grupos de WhatsApp dos turkers permitiu descobrir sobre seus modos de organização e comunicação?

BRUNO MORESCHI: Vejo o grupo de WhatsApp dos turkers brasileiros como uma forma de driblar a impossibilidade dos turkers de conversarem entre si na plataforma da Amazon. Isso não é pouco, já que esse movimento pode ser entendido como uma forma de mobilização de trabalhadores em um contexto laboral extremamente avesso a agremiações. Em outras palavras, essa peculiaridade dos brasileiros se unindo demonstra que mesmo que o trabalho no Amazon Mechanical Turk seja de baixo pertencimento por parte de quem os realiza ainda há ali uma rede em potencial para organização dos trabalhadores. Em outras palavras, há uma espécie de força latente de mobilização que pode eventualmente provocar certas mudanças na plataforma da Amazon. No grupo, por exemplo, é nítido notar que os brasileiros estão pensando em maneiras de tentar pressionar a Amazon a pagá-los de forma mais direta – eles já começam a se organizar para mandarem grande quantidade de e-mails para a empresa.

GABRIEL PEREIRA: Importante pontuar que os brasileiros não estão sozinhos nessa busca por mobilizações coletivas. De acordo com Yin et al (2016) os turkers mundialmente operam mais como redes do que como trabalhadores isolados, usando especialmente fóruns. Já existe mobilização. O TurkerNation é um espaço de avisos on-line no Reddit onde os turkers de todas as nacionalidades publicam informações diariamente e trocam dicas de HITs disponíveis, e este é só um dos muitos exemplos dessas comunidades. Como escreve Mason & Siddharth (2011): “Esses sites externos podem ter um forte efeito sobre a taxa de aceitação de HITs e, portanto, servem efetivamente como uma vigilância para solicitantes abusivos”.

DIGILABOUR: O que as pesquisas do grupo GECID no CAIA tem permitido analisar sobre alternativas (artísticas) à inteligência artificial aí colocada?

BRUNO MORESCHI: O Grupo de Experiências Crítica em Infraestruturas Digitais, localizado na Comunidade de Arte e Inteligência Artificial (CAIA) do Inova USP, começou em março deste ano, portanto ainda estamos no início. Todos os projetos em andamento (cerca de dez) possuem em comum a ideia de que é urgente a união de pesquisadoras e pesquisadores de diferentes áreas de conhecimento no campo das infraestruturas digitais. Estamos em um momento em que o que importa não é mais só a eficiência das máquinas, mas sim seus múltiplos efeitos na sociedade. A arte aparece no grupo nesse sentido, o de ampliar a discussão.

Também é importante termos aproximações mais artísticas no campo das IAs, porque só assim poderemos chegar em dois pontos importantes. O primeiro é, a partir de metodologias mais experimentais, entender e reagir a sistemas fechados que utilizam IAs de forma pouco transparente e responsável. Também a arte é bem vinda ao campo da tecnologia, porque tanto a arte quanto a criação de experiências digitais estão intimamente relacionadas a prática de especular o futuro, criar novos modos de compreensão e de nos organizarmos no mundo. Há muita significativa similaridade entre um artista e um programador criando.

GABRIEL PEREIRA: Acredito que existe muito potencial em tentarmos sair da maneira “padrão” de se pensar sobre Inteligência Artificial. Como dito por Genevieve Bell (2017), toda essa conversa sobre IA que estamos vendo vem com uma série de pressupostos culturais tácitos e implícitos que demarcam o que é possível, o que é aceitável, e até o que é imaginável. A realidade é que essas ideias, em sua maioria, vêm do Vale do Silício, do Google, da Amazon, dos Estados Unidos, de uma visão capitalista etc. Acredito que o nosso papel é de tentar quebrar com essas visões e tentar, por mais difícil que seja, gerar outras alternativas que tenham mais a ver com o contexto do Sul Global, com visões de mundo criativas e artísticas, e que coloquem responsabilidade e justiça social em primeiro lugar.

FABIO COZMAN: Como o grupo está diretamente relacionado com o Centro de Inteligência Artificial (C4AI) em instalação na Universidade de São Paulo (com financiamento também da FAPESP e da IBM), além de um apoio essencial do colecionador Pedro Barbosa, existe a perspectiva de congregar mais pesquisadores das mais diversas áreas da Universidade. Espero que esse grupo possa traduzir em reflexões e resultados as propostas que várias áreas trazem para nosso ambiente digital, em particular aquelas relacionadas às Inteligências Artificiais.

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