entrevista

Trabalho e cultura da fofura no Japão: entrevista com Gabriella Lukács

Gabriella Lukács fala sobre o livro Invisibility by Design: Women and Labor in Japan’s Digital Economy

Gabriella Lukács é professora do departamento de Antropologia da University of Pittsburgh. Pesquisa trabalho digital e trabalho criativo, com foco no Japão e na Hungria, mesclando perspectivas da economia política e das materialidades e infraestruturas. Seu primeiro livro, Scripted Affects, Branded Selves, fala sobre a televisão japonesa nos anos 1990.

Em janeiro deste ano, lançou o livro Invisibility by Design: Women and Labor in Japan’s Digital Economy (dá para ler a introdução aqui), sobre a cultura e o trabalho da “fofura” e do “fofo” em contexto japonês a partir de pesquisa com mulheres que trabalham na cultura digital, como blogueiras e influencers.

Atualmente, Lukács está terminando um livro sobre populismo estatal autoritário e ativismo midiático na Hungria, mesclando lógicas analógicas e digitais. Também está em um projeto sobre indústria da fofura e inteligência artificial no Japão.

 

DIGILABOUR: Quais são as especificidades do trabalho digital e das relações de gênero no Japão?

GABRIELLA LUKACS: No Japão do pós-guerra, o gênero serviu como um critério prontamente disponível, a partir do qual uma reserva de mão de obra não qualificada poderia ser mantida ou não à medida que os ciclos comerciais flutuavam. A longa recessão do Japão durante os anos 1990 e 2000 ajudou a exacerbar essa situação. Entre os países capitalistas mais avançados, o Japão tem a pior disparidade salarial em relação a gênero. As mulheres representam 70% dos trabalhadores “irregulares” e representam apenas 67,1% dos salários dos homens. À medida que o desenvolvimento da economia digital se acelerava no final dos anos 1990, muitas mulheres jovens se voltaram para essa economia para desenvolver carreiras baseadas no “faça você mesmo”, que consideravam tão mais significativas quanto o emprego disponível no mercado de trabalho convencional. Eu argumento no livro que, de maneira frequente, essa economia não permitiu que as mulheres desenvolvessem carreiras viáveis. Em vez disso, foi usado o trabalho não pago das mulheres como motor de próprio desenvolvimento do país.

DIGILABOUR: O que é trabalho afetivo (feminizado) e trabalho emocional? E como essas noções aparecem em suas pesquisas?

LUKACS: Com base no trabalho de Maurizio Lazzarrato, os autores Michael Hardt e Antonio Negri definem trabalho imaterial como “trabalho que cria produtos imateriais, tais como conhecimento, informação, comunicação, relacionamento ou resposta emocional”. Eles identificam o trabalho intelectual e afetivo como as principais formas de trabalho imaterial e define trabalho afetivo como “trabalho que produz ou manipula afetos, como sensação de conforto, bem-estar, satisfação, excitação ou paixão”. Com base nas minhas observações de que as figuras do trabalhador criativo e da dona de casa estão integradas em novas identidades ocupacionais, como a fotógrafa “feminina”, a blogueira, a comerciante on-line e a romancista de celulares, ressalto que, nas últimas duas décadas, a economia digital desestabilizou a fronteira entre trabalho afetivo e trabalho intelectual. De fato, o reconhecimento estratégico ou não desse limite emergiu como a principal estratégia para os proprietários de plataformas gerarem lucros. Os regimes de trabalho afetivo são sempre incorporados em sistemas de desigualdades localmente específicos, cujo principal princípio estruturante é o gênero. Para enfatizar esse ponto, uso o termo trabalho afetivo feminizado quando me refiro ao que Hardt e Negri chamam de trabalho afetivo. Prefiro “trabalho afetivo feminizado” a “trabalho reprodutivo”, porque este último ajuda a explicar apenas como os proprietários de plataformas on-line geram lucros com a sociabilidade, não com o fornecimento de conteúdo. Eu proponho que distinguir várias formas de trabalho relacionadas a gênero ajuda a tornar visível o trabalho invisível. Por exemplo, eu uso o conceito de trabalho emocional – que Arlie Hochschild define como a expectativa do empregador de que seus trabalhadores ofereçam um serviço com um sorriso, ou seja, personalizar uma relação que não é pessoal – quando discuto especificamente o trabalho nas indústrias de serviços. E eu preservo o conceito de trabalho afetivo para discutir o trabalho que integra trabalhos afetivos intelectuais e feminizados. Ao conceituar trabalho afetivo como sinônimo de trabalho criativo, cognitivo e intelectual, enfatizo que esse gênero de trabalho quase sempre contém um componente do trabalho afetivo feminizado, e o contrário não é verdadeiro.

DIGILABOUR: O que é o trabalho de “fofura”?

LUKACS: No livro, exploro como a economia digital transformou o investimento dos ídolos da internet na construção de uma base de fãs em busca de novas fontes de lucro. A produção de “fofura” era indispensável para o desenvolvimento de uma carreira como um ídolo da internet. Originalmente uma subcultura desenvolvida por jovens no final da década de 1970, a cultura “fofa” havia crescido em um negócio de vários bilhões de ienes na década de 1990. Os pesquisadores interpretaram a participação das jovens na produção de bonecas como uma forma de resistência a uma sociedade adulta orientada para o trabalho e como um refúgio para um espaço no qual as mulheres jovens encontravam redenção ao se divertir com brincadeiras infantis e comportamento passivo. Em vez disso, proponho que consideremos a produção do “fofo” no campo do trabalho, e não no lazer. O “fofo” designa não apenas visões particulares, mas também comportamentos particulares, cuja performance requer trabalho afetivo feminizado. Os comentários publicados nos sites de ídolos da internet testemunham que foram os comportamentos “fofos” os que os fãs acharam mais atraentes sobre seus ídolos. Os empresários da Internet, por sua vez, aproveitaram as comunidades on-line que surgiram das interações entre os ídolos da rede e seus fãs para desenvolver publicidade. Em outras palavras, uso o exemplo de ídolos de internet (e o trabalho que eles investiram na produção de comportamento e cultura de “fofura”) para ilustrar como a economia digital no Japão mobilizou as mulheres para um regime de trabalho afetivo não remunerado e feminizado.

DIGILABOUR:  Como o trabalho e a cultura da “fofura” estão presentes no Ocidente?

LUKACS: O trabalho da “fofura” é o trabalho afetivo feminizado que jovens mulheres japonesas investiram na produção de culturas e disposições “fofas”. Como tal, também argumento que as mulheres jovens foram fundamentais para o desenvolvimento de um dos itens de exportação mais lucrativos do Japão, a marca “fofa” do país. O japonês fofo é uma marca específica da cultura fofa, cada vez mais popular em todo o mundo, que se espalha por todos os estilos. Além do anime, a marca japonesa de “fofura” também circula globalmente como mercadoria, como Hello Kitty, Pokemon, modas Lolita. Ao mesmo tempo, grupos de ídolos japoneses como AKB48 são reproduzidos em versões locais em Taiwan (TPE48), China (SNH48), Indonésia (JKT48) e Tailândia (BNK48). Além disso, os estilos fofos japoneses são adotados não apenas na cultura pop global, mas também nas artes plásticas. O papel das jovens na produção de uma mercadoria altamente lucrativa ressoa com o papel das jovens na construção da economia digital do Japão. As mulheres jovens foram essenciais para o desenvolvimento da marca fofa do Japão, mas elas não são as principais beneficiárias dos enormes lucros que a indústria de bonecas está produzindo globalmente.

DIGILABOUR: Você entrevistou blogueiras, garotas que são ídolos na internet, mulheres com carreiras “faça você mesmo”. Quais são os principais achados da sua pesquisa empírica?

LUKACS: Em primeiro lugar, no Japão, o compartilhamento de conteúdo on-line e as plataformas de redes sociais (desenvolvidas quase exclusivamente por empresários homens) prometeram às mulheres oportunidades de desenvolver carreiras na base do “faça você mesmo”. Essas plataformas, no entanto, tornaram invisíveis as atividades de trabalho das mulheres e as utilizaram como mecanismo de seu próprio desenvolvimento. Em segundo lugar, a busca individual por trabalho que seja cheio de sentido é tão importante quanto os avanços tecnológicos que impulsionam inovações na acumulação capitalista. Em terceiro lugar, na economia digital, a vida produtiva das carreiras na base do “faça você mesmo” está ancorada nos ciclos de vida lucrativos das tecnologias digitais que os indivíduos usam para construir suas carreiras. O tempo de vida dessas carreiras do it yourself, assim como os ciclos de vida das tecnologias nas quais elas são construídas, seguem a lógica de curto prazo do capitalismo contemporâneo.

DIGILABOUR: Como relacionar trabalho afetivo e inteligência artificial?

LUKACS: O trabalho afetivo é uma fronteira-chave para a inteligência artificial. A questão é como o trabalho afetivo pode ser tecnologicamente simulado ou transformado em algoritmos. Estou pensando no Aibo, o animal de estimação robô da Sony, capaz de desenvolver diferentes relacionamentos com distintos membros da família (com base em suas interações com eles) e é capaz de distinguir entre uma ampla gama de estados emocionais. Os proprietários ficaram tão apegados a seus pets robóticos que, quando a Sony decidiu interromper a produção do Aibo, os proprietários se esforçaram para adquirir peças de reposição para salvar seus animais de estimação robôs. Também lemos sobre casamentos com personagens fictícios e sobre empresas de tecnologia que oferecem benefícios para esses casamentos no Japão. A personagem fofa da Gatebox, Azuma Hikari, é uma assistente de casa que não é apenas programada para operar dispositivos domésticos inteligentes, mas também envia mensagens de texto para seu “mestre” ao longo do dia, dizendo-lhe para voltar para casa mais cedo porque está sozinha em casa. Em um novo projeto de pesquisa, explorarei como a cultura do fofo e a performance da fofura são essenciais para codificar o trabalho afetivo feminizado em inteligência artificial no Japão.

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