entrevista

Infraestruturas radiantes e seus imaginários: entrevista com Rahul Mukherjee

Ele relaciona infraestruturas digitais, plataformas e materialidades a partir de exemplos da Índia Digital

Rahul Mukherjee, professor de estudos de cinema na University of Pennsylvania, pesquisa sobre o papel das mídias em relação a futuros alternativos para política e a tecnologia, com destaque para as infraestruturas digitais.

Ele acabou de lançar o livro Radiant Infrastructures: Media, Environment, and Cultures of Uncertainty sobre controvérsias relacionadas às tecnologias emissoras de radiação, como antenas celulares e reatores nucleares. Mukherjee agora prepara uma obra sobre práticas digitais móveis na Índia.

Um de seus artigos mais recentes, publicado na Media, Culture & Society, é sobre imaginários infraestruturais e ecossistemas de plataformas na Índia digital.

DIGILABOUR: O que são imaginários de infraestruturas, especialmente em um contexto não eurocêntrico?

RAHUL MUKHERJEE: Os imaginários de infraestruturas, em uma dimensão, referem-se aos encontros cotidianos dos cidadãos com as infraestruturas. A pesquisadora Lisa Parks escreveu muito sobre isso. Pode ser sobre pessoas tentando descobrir infraestruturas, como elas funcionam, como podem ser levemente ajustadas, e assim por diante. Uma visão comum nas cidades indianas é a de centenas de cabos elétricos emaranhados precariamente que pairam sobre as ruas. Algumas famílias de baixa renda (que não podem pagar contas de luz ou que foram deixadas de fora do sistema de rede elétrica) criaram soluções informais para conseguir eletricidade de forma barata, trocando ou estendendo os fios de eletricidade e ajustando as leituras do medidor de eletricidade. Esses encontros bastante comuns com as infraestruturas podem ser muito diferentes a depender do contexto. Por exemplo, algumas pessoas podem apenas perceber infraestruturas como torres de celular ou fios de eletricidade quando experimentam quedas de conexão ou falta de energia. Dito isto, as pessoas que vivem em condições estruturais em que têm apenas duas horas de eletricidade por dia terão uma relação muito diferente com os fios elétricos e, portanto, diferentes imaginários em relação às infraestruturas. Nesse contexto, as infraestruturas que não funcionam são mais uma norma do que uma disrupção. Os imaginários de infraestruturas também operam no nível da nação e estão relacionados a sentidos mais amplos e compartilhados sobre sociedade e nação, que são “imaginários sociais’ (para usar um termo concebido por Charles Taylor) e imaginários nacionais. A noção de desenvolvimento teve uma enorme influência no período pós-colonial das antigas nações colonizadas e agora independentes do Sul Global (embora seja preciso ter cuidado para não pensar no Sul Global como uma construção geográfica). Infraestruturas como torres de celular na Índia contemporânea, assim como ferrovias e represas hidrelétricas no passado, estão sendo projetadas para ter um sentido amplamente compartilhado na vida dos cidadãos indianos e representam o desenvolvimento da nação e o futuro de uma conectividade onisciente.

DIGILABOUR: E o que você chama de infraestruturas radiantes?

MUKHERJEE: Metáforas e manifestações de luz, brilho, calor, faísca ou propagação costumam acompanhar a expressão infraestruturas radiantes. Eu escrevi sobre reatores nucleares e torres de células como infraestruturas radiantes no livro Radiant Infrastructures. Costuma-se dizer que as torres celulares finalmente tornarão possível a “Índia Digital” e que os reatores nucleares levaram eletricidade para todas os bairros mais remotas da Índia. As torres de celulares e os reatores nucleares, assim como ferrovias e barragens hidrelétricas, têm sido frequentemente associadas ao brilho simbólico do desenvolvimento e do progresso. Este é um tipo de coisa “radiante” que é associada a muitas infraestruturas. O que diferencia torres de células e reatores nucleares de outras infraestruturas é a sua capacidade de emitir energias radiantes. Quando tentei conceituar infraestruturas radiantes no livro, também foquei nos campos eletromagnéticos e nas partículas radioativas que essas infraestruturas emitem. As infraestruturas radiantes são, portanto, uma faca de dois gumes: são ao mesmo tempo precursoras do desenvolvimento e emissores de radiações (invisíveis) potencialmente cancerígenas. O papel das mídias (incluindo programas de televisão, detectores de radiação, jornais, mapas de hotspots de radiação e documentários) é essencial para ambos os aspectos das infraestruturas radiantes. A radiação mediada das infraestruturas radiantes como objetos brilhantes do desenvolvimento de uma nação é contaminada pelas incertezas mediadas em relação aos efeitos materiais das radiações impalpáveis sobre os corpos humanos e o bem-estar dos cidadãos.

DIGILABOUR: Como conectar a perspectiva das infraestruturas com estudos de plataformas e materialidades midiáticas?

MUKHERJEE: As perspectivas teóricas das infraestruturas podem ser conectadas às materialidades midiáticas de várias maneiras. Uma é, obviamente, como o estudo de infraestruturas midiáticas ou infraestruturas radiantes exige que a apreensão de um local específico com a finalidade de aprender sobre os aspectos físicos e materiais das infraestruturas. Dito isto, as infraestruturas e o materialismo das mídias não devem se restringir ao hardware ou ao aspecto físico tangível das materialidades das infraestruturas. As infraestruturas radiantes, como antenas celulares, não se limitam ao exterior metálico imediato. Ao contrário, sua influência material se estende aos sinais sem fio que emitem. Portanto, devemos prestar atenção às materialidades das energias radiantes onduladas e fluidas (sinais sem fio ou campos eletromagnéticos) se tivermos que pensar nas materialidades midiáticas de uma torre de celular. Existe então uma dimensão ecológica no pensamento da materialidade das infraestruturas, o que também pode estar relacionar-se a pesquisas sobre os efeitos ambientais das infraestruturas midiáticas, como torres de celular e data centers (e também computação em nuvem). Além disso, outra dimensão das materialidades midiáticas concentra-se no afeto e nas experiências corporais de seres humanos e animais que vivem nas proximidades das infraestruturas. Já em relação aos estudos de plataformas, em algum nível, tanto as infraestruturas quanto as plataformas podem ter metáforas como “base” e “fundação” associadas a elas. Embora as infraestruturas possam ser hardwares, as plataformas parecem envolver camadas de hardware e software. Pesquisadores como Jean-Christophe Plantin sugerem que as fronteiras entre plataformas e infraestruturas estão ficando cada vez mais borradas: existe uma “infraestruturalização das plataformas” (um exemplo é que as empresas de plataformas estão investindo em infraestruturas para garantir que seus serviços de plataforma possam ser distribuídos de maneiras mais eficazes entre os clientes) e “plataformização das infraestruturas” (empresas baseadas em infraestruturas, como empresas de telecomunicações, estão desenvolvendo aplicativos para que pareçam não estar mais associadas apenas trabalhos de bastidores ou infraestruturas). Além desse emaranhado de plataformas e infraestruturas, eu também vejo outras trajetórias possíveis de pesquisa em que infraestruturas e plataformas são consideradas coisas diferentes e envolvem epistemologias distintas. Por exemplo, Marc Steinberg escreveu de forma convincente sobre as plataformas serem modelos de negócios, concentrando-se especialmente em plataformas que não apenas vendem, distribuem e regulam o “conteúdo”, mas também facilitam as transações. Em seu livro The Platform Economy: How Japan Transformed the Consumer Society, Steinberg demonstra muito bem como a as teorias contemporâneas sobre plataformas digitais relacionam-se aos modelos de negócios de plataformas dos celulares japoneses do final dos anos 1990.

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