entrevista

O que vem depois da gig economy: entrevista com Juliet Schor

Ela fala sobre seu novo livro After the Gig e aponta o cooperativismo de plataforma como uma saída

Juliet Schor, economista e professora de sociologia no Boston College, autora de best sellers como Born to Buy, lançará em setembro seu novo livro, After the Gig: how the sharing economy got hijacked and how to win it back. O diferencial da obra em relação a outras sobre o mesmo tema, segundo Schor, é a pesquisa empírica. Foram sete anos pesquisando o trabalho em plataformas, de 2011 a 2017, com 309 entrevistas e 278 respondentes, incluindo trabalhadores e fundadores das plataformas, além de horas de observação etnográfica em plataformas com e sem fins lucrativos. Tudo focado principalmente na região de Boston, cujas implicações metodológicas são discutidas logo na introdução do livro.

After the Gig busca responder o que deu errado na gig economy e aponta alguns fatores como exclusão de classe, discriminação racial e discriminação. Além disso, questiona quais as possibilidades democráticas que as plataformas ainda podem oferecer. Schor aponta duas alternativas: reformas na questão da regulação – o que afirma ser o tema dominante na literatura – e a construção de plataformas alternativas tendo como base o comum e o cooperativismo, tendo como base principalmente estudo de caso com a cooperativa de fotógrafos Stocksy. Para Schor, esses movimentos evidenciam ainda ser possível uma economia verdadeiramente justa e compartilhada.

Em entrevista exclusiva à DigiLabour, Juliet Schor indica caminhos que podemos seguir “after the gig”.

DIGILABOUR: Como reimaginar o trabalho depois da gig economy?

JULIET SCHOR: Há três caminhos possíveis para o trabalho na gig economy. O primeiro é o business as usual, em que as plataformas se tornam empregadoras predadoras, diminuindo salários, transferindo riscos aos trabalhadores e diminuindo a flexibilidade. O segundo é a regulamentação convencional do tipo que começamos a ver em algumas metrópoles – salários mínimos para motoristas e entregadores, reclassificação dos trabalhadores como empregados e descomercialização do Airbnb. O terceiro é o caminho pelo qual os trabalhadores estão formando cooperativas de plataformas das quais são proprietários e exercem governança. Eu acho que essa é a melhor opção em muitos casos. Os trabalhadores obterão muito mais do valor que produzem e os imperativos do lucro desaparecem. As cooperativas de plataforma estão começando a se formar e parecem ser uma alternativa economicamente viável ao trabalho explorado na gig economy.

DIGILABOUR: Você escreveu que há uma escassez de pesquisas sobre quem trabalha como programador, arquiteto ou nos setores de tecnologia das plataformas. O que sua pesquisa permite descobrir sobre?

SCHOR: Realmente não há muita coisa. Há um artigo interessante de Daniel Cockayne, que descobriu que os primeiros funcionários das plataformas replicavam o discurso da economia do compartilhamento mesmo quando as empresas instituíam políticas neoliberais, mas, curiosamente, muitos deles eram cínicos quanto a isso. Uma fala comum era: “bom, pelo menos não somos tão ruins quanto a Uber”.

DIGILABOUR: Você pesquisou plataformas com e sem fins lucrativos. O que você pode nos dizer sobre os perfis dos trabalhadores?

SCHOR: Não temos bons dados sobre essas questões. Da minha pesquisa, eu diria que os trabalhadores das plataformas com fins lucrativos são menos instruídos, menos brancos e com menor renda. As empresas sem fins lucrativos tendem a ser muito brancas, com níveis de educação muito altos e “capital cultural” também muito alto. Embora essas pessoas também possam ser encontradas nas plataformas com fins lucrativos, tendem a estar em aplicativos que proporcionam remunerações mais altas, como AirBnB.

DIGILABOUR: Estamos em um momento em que muita gente está falando sobre cooperativas de plataformas, especialmente de entregadores. Para você, qual é o potencial real de cooperativas e plataformas baseadas no comum para a economia de plataformas?

SCHOR:  Ainda não existem muitas cooperativas, mas acho que o potencial delas é muito bom. Geralmente elas têm uma economia sólida, no sentido de que a gestão atualmente está tendo muita receita, mas também que os algoritmos estão funcionando bem. É por isso que as cooperativas podem ser uma boa opção para os trabalhadores. Com boas políticas e algoritmos que operam a favor de seus interesses, as cooperativas podem funcionar com relativamente pouco trabalho de gestão por humanos. As grandes barreiras são o financiamento e a geração de demanda, o que exige dinheiro. Há algumas que parecem estar indo muito bem. Stocksy, a cooperativa de fotógrafos que estudei é um grande sucesso. Up and Go, uma cooperativa de limpeza para mulheres imigrantes está crescendo rapidamente e indo bem. As cooperativas de motoristas e entregadores estão proliferando por toda a parte. Elas são pequenas, mas parecem ter sucesso. A SMart, uma cooperativa de freelancers na Europa, está crescendo rapidamente. Estou muito esperançosa com as cooperativas de plataforma.

Enquanto o livro ainda não chega às lojas, indicamos o texto What do platforms do?, em parceria com Steven Vallas.

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