Referências

Bibliografia sobre organização de trabalhadores de aplicativos

Quer começar a pesquisar sobre uberização do trabalho e não sabe por onde começar?

O mês de julho foi marcado pelas maiores greves de entregadores de aplicativos no Brasil, #BrequeDosApps. Em meio aos debates sobre uberização e plataformização do trabalho, muita gente quer começar a pesquisar o tema e não sabe por onde. Já indicamos referências de artigos e pesquisadores que investigam o trabalho de entregadores. Agora confira algumas indicações de bibliografia sobre organização coletiva de trabalhadores de plataformas:

  • Operaismo Digital: artigo de Sai Englert, Jamie Woodcock e Callum Cant a partir de estudo de caso da Uber mostra que as lutas e a organização dos trabalhadores das plataformas digitais não é algo recente, iniciando em 2013 a partir de motoristas em grupos de WhatsApp discutindo problemas com o trabalho para a Uber. Os autores destacam a importância da circulação das lutas dos trabalhadores e de pesquisas que efetivamente apoiem e se articulem ao ponto de vista e à ação dos trabalhadores;
  • Entregando para a Deliveroo: o livro de Callum Cant aborda as condições de trabalho e a organização dos trabalhadores da Deliveroo na Inglaterra a partir de investigação que envolveu a própria participação do autor como entregador. Ele relata que não caiu no mito de que todo mundo fica isolado e que existem solidariedades embrionárias a partir das experiências de greve. Para Cant, o fato de os entregadores trazerem diferentes contextos e experiências de vida contribuem para uma circulação de lutas e conhecimentos que é orgânica: “das redes de trabalhadores e da experiência do trabalho, a resistência surge novamente”. Como exemplo, ele cita que os entregadores brasileiros tinham muito conhecimento de táticas de greve e foram os primeiros a organizar piquetes. O Brasil aparece em outros dois momentos da obra: 1) o fato de o grupo de WhatsApp dos brasileiros ser o ponto de origem para a ação de greve; 2) as contradições dos brasileiros entregadores que votaram em Bolsonaro;
  • Estruturas Organizacionais para Agência Coletiva de Trabalhadores: relatório da Organização Internacional do Trabalho coordenado por Hannah Johnston e Chris Land-Kazlauskas analisa, a partir de pesquisa realizada em 2016 e 2017, os desafios institucionais e estruturais que os trabalhadores de plataformas estão tendo rumo à construção de uma agência coletiva. O texto apresenta as principais estratégias dos trabalhadores em relação à formação de organizações, entendidas em sentido amplo como um lugar para aglomerar recursos econômicos, políticos e culturais necessários para provocar mudanças enquanto trabalhadores. Os autores exploram quatro estruturas organizacionais: estratégias de renovação de sindicato e novas iniciativas organizativas, fóruns de trabalhadores, centros de trabalhadores e cooperativas;
  • Turkopticon: trabalhadores da Amazon Mechanical Turk também se organizam coletivamente e não é de hoje. O projeto de Lilly Irani e Six Silberman, de 2013, criou um plugin de software que possibilita aos trabalhadores classificarem os empregadores que solicitam tarefas pela plataforma e possibilitam maneiras de os Turkers discutirem sobre o próprio trabalho. No Brasil, Bruno Moreschi, Gabriel Pereira e Fabio Cozman explicam como os trabalhadores se organizam e mobilizam por mudanças na plataforma. Em 2021, sairá outra contribuição brasileira sobre organização de trabalhadores de plataformas globais de IA no livro AI for Everyone?, por Rafael Grohmann e Willian Fernandes Araújo;
  • Trabalho Digital e Organização de Trabalhadores de Software: este capítulo de Jamie Woodcock aborda os desafios de resistências, lutas e organização dos trabalhadores em contextos digitais e os aplicativos como resultados da luta de classes. Os exemplos de organização são os desenvolvedores de softwares. Em outra obra, Marx at The Arcade, Woodcock fala da organização dos trabalhadores da indústria de games;
  • Organização de freelancers online: a partir de pesquisa no Sudeste Asiático e na África Subsaariana, Alex Wood, Vili Lehdonvirta e Mark Graham analisam o papel das mídias sociais na organização de freelancers que trabalham para plataformas digitais remotamente no chamado cloud work. Os autores evidenciam que as comunidades online permitem que os trabalhadores se apoiem e compartilhem informações, aumentando sensação de segurança e proteção, mas com fragmentações por nacionalidade, ocupação e plataforma;
  • Solidariedades Empreendedoras no Trabalho de Freelancers Online : o artigo de Cheryll Soriano e Jason Cabanes também analisa o papel dos grupos em mídias sociais para trabalhadores freelancers online a partir do contexto das Filipinas. Os autores afirmam que as solidariedades emergentes são caracterizadas por discursos contraditórios entre oportunidades, precariedades e ambiguidades. Isso não significa uma adesão passiva ao ideário neoliberal por parte dos trabalhadores, mas eles também evitam impor pressões para mudanças estruturais. A esse cenário ambivalente os autores chamam de “solidariedades empreendedoras”. Cheryll Soriano também coordenará um painel online sobre o tema na conferência da Association of Internet Researchers (AoIR) em outubro. O debate terá como tema “Solidariedades no Trabalho Digital, Formações Coletivas e Infraestruturas Relacionais” e contará também com a participação de Julie Chen (University of Toronto), Athina Karazogianni (University of Leicester), Jack Qiu (Chinese University of Hong Kong), Rafael Grohmann (Unisinos) e Paula Alves (Unisinos);
  • Lutas em Torno do Cálculo da Remuneração nos Aplicativos: Niels van Doorn analisa como um pequeno grupo de entregadores de Berlin tentou desafiar o poder de mercado da Deliveroo construindo seu próprio equipamento de cálculo das taxas de remuneração para ajudá-los a fazer a “engenharia reversa” do algoritmo. O autor examina os limites das lutas em torno do poder de cálculo e do imaginário sócio-jurídico que trata as empresas de plataformas como “entidades empresariais únicas”;
  • Voz e representação dos trabalhadores das plataformas digitais: texto de Kurt Vandaele analisa como a representação e a voz dos trabalhadores de plataformas na Europa Ocidental estão moldadas pela economia digital. O autor explica que há combinação e coexistência de sindicatos tradicionais e outras associações que defendem os trabalhadores nas plataformas, envolvendo lógicas de associação e influência. O artigo enfatiza a necessidade das pesquisas considerarem a diversidade e as especificidades das plataformas, desde as plataformas online freelancer e que sustem a inteligência artificial até as de entrega;
  • Riders por Derechos em Barcelona: em outro texto publicado pelo dossiê da revista Contracampo, Aina Fernàndez e Maria Soliña Barreiro analisam as lutas dos entregadores de Barcelona na criação do sindicato RidersxDerechos e da cooperativa Mensakas. O foco do artigo são as estratégias midiáticas e as reapropriações tecnológicas dos trabalhadores , utilizando comunidades digitais para circular discursos alternativos à ideologia do Vale do Silício e na luta pela criação de um aplicativo próprio;
  • Negociações Coletivas e Arcabouços Jurídicos: o relatório de Antonio Aloisi concentra-se em abordagens institucionais e questiona como as negociações coletivas podem ser viáveis para mudanças em relação ao cenário atual da plataformização do trabalho. O texto explora estruturas legais que regulam os direitos coletivos na Europa e discute até que ponto os sindicatos estão interessados nos direitos dos trabalhadores das plataformas, investigando suas estratégias. O autor também mapeia outras ações e iniciativas realizadas por grupos auto-organizados, concentrando em fatores que dificultam ou facilitam o desenvolvimento de solidariedades;
  • Papel das Mídias Sociais na Organização de Trabalhadores:  outros textos já tratam do papel das mídias sociais na comunicação e organização dos trabalhadores de plataformas. Este é o único da lista que não é sobre quem trabalha para aplicativos. O artigo de Tamar Lazar, Rivka Ribak e Roei Davidson trata do uso das mídias sociais nas campanhas de sindicalização de trabalhadores em Israel entre 2012 e 2014 considerando os esforços dos trabalhadores como um processo sociomaterial de organização. Os autores analisam a visibilidades dos trabalhadores e os desafios da utilização de plataformas consideradas neoliberais nos esforços organizativos dos trabalhadores.

 

Tem mais referências para indicar? Manda pra gente!

 

[Foto:  BW Press / Shutterstock.com ]

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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