Christian Fuchs: “Uma Internet alternativa deve combinar Internet como serviço público e cooperativas de plataforma”

Klassenkämpfe im digitalen Kapitalismus. Die Plattform als neue Fabrik?

 

Christian Fuchs, professor da University of Westminster, é um dos maiores pesquisadores da área de comunicação atualmente. Suas pesquisas têm se dedicado a compreender, a partir de uma perspectiva marxista, questões de mídias sociais, trabalho digital e teoria social. É autor de livros como Social Media: a critical introductionDigital Labour and Karl Marx e Critical Theory of Communication: New Readings of Lukács, Adorno, Marcuse, Honneth and Habermas in the Age of the Internet. Organizou recentemente o livro Digital Objects, Digital Subjects : Interdisciplinary Perspectives on Capitalism, Labour and Politics in the Age of Big Data. Fuchs é editor da revista tripleC e diretor do Instituto de Pesquisa em Comunicação e Mídia em Westminster. Lançará em outubro o livro Nationalism on the Internet: Critical Theory and Ideology in the Age of Social Media and Fake News.

Fuchs conversou com a DigiLabour sobre trabalho digital, cooperativismo de plataforma, socialismo, internet e comunicação alternativa e novos nacionalismos. Confira:

 

DIGILABOUR: Você foi um dos primeiros pesquisadores a escrever sobre trabalho digital. Desde então, apareceram expressões como uberização, capitalismo de plataforma e plataformização. Além disso, houve uma intensificação do trabalho precário, especialmente em países como o Brasil. Para você, qual é hoje a questão crucial para a pesquisa sobre trabalho digital?

CHRISTIAN FUCHS: O trabalho é uma relação social entre a classe dominante e a classe explorada. A questão-chave da pesquisa sobre trabalho digital é entender como as relações de classes estão se transformando no capitalismo contemporâneo, o que inclui o capitalismo digital como uma das várias dimensões que moldam a vida dos seres humanos. A classe é um aspecto objetivo da existência dos seres humanos na sociedade de classes, e também é, como aprendemos com E.P. Thompson, uma experiência de classe. Uma questão importante para a pesquisa é como o trabalho digital é vivenciado por trabalhadores em todo o mundo, quais são os pontos em comum e as diferenças de certas formas de trabalho digital em diferentes países e partes do mundo, e como essas experiências e lutas reais ou potenciais interagem com o capital.

 

DIGILABOUR: Temos observando movimentos em torno de organização coletiva dos trabalhadores das plataformas e a emergência de novas formas de organização do trabalho, como o cooperativismo de plataforma. Como você compreende esses movimentos, incluindo suas contradições, em relação ao seu potencial emancipatório?

FUCHS: As cooperativas têm sido importantes ao longo da história da classe trabalhadora. Marx escreveu que as cooperativas “são, dentro da antiga forma, a primeira ruptura do modelo anterior, apesar de que, em sua organização real, reproduzam e tenham de reproduzir por toda parte, naturalmente, todos os defeitos do sistema existente”. As cooperativas de plataforma, cooperativas digitais e cooperativas culturais são uma expressão do desejo e da tentativa de uma economia cooperativa que vá além do capitalismo. Ao mesmo tempo, elas operam em condições de trabalho assalariado e em contexto competição, o que pode facilmente tornar o trabalho precário e marginal. Além disso, há o perigo, como ressalta Marisol Sandoval, de se transformarem em projetos ligados ao empreendedorismo e ao individualismo. As cooperativas só podem apresentar um potencial progressista se fizerem parte de um movimento socialista rumo a uma sociedade socialista, lutando com outras pessoas contra o capital em campanhas políticas coletivas, ou seja, se são projetos políticos e não apenas econômicos.

 

DIGILABOUR: Você coordenou uma equipe de pesquisadores no projeto netCommons, que mostra que a maioria das pessoas está interessada em alternativas às plataformas comerciais. Como podemos avançar nesta questão?

FUCHS: netCommons foi um projeto financiado pela União Europeia entre 2016 e 2018 com equipes nos seguintes países: França, Grécia, Itália, Espanha, Suíça, Grécia e Reino Unido. A pesquisa estudou o comum em rede, especialmente redes comunitárias, que são projetos alternativos à infraestrutura da rede de computadores. A tarefa da equipe da Universidade de Westminster, que eu liderei, era trazer uma perspectiva ligada à economia política para o projeto. Estávamos interessados em alternativas para a Internet em geral. Tais alternativas que promovem o comum digital são importantes nos níveis de infraestrutura, software e conteúdo. O que descobrimos é que há interesse dos usuários em alternativas. Mas alternativas também são difíceis de organizar. Os usuários temem que, se essas alternativas forem organizadas apenas no nível local, isso resulte em formas de nacionalismo no nível local (um localismo de mente estreita). Com isso, temem não conseguir desafiar o poder das corporações globais monopolistas do capitalismo digital. Como consequência, é importante que a sociedade civil e projetos por uma Internet sem fins lucrativos que tentam promover o comum digital cooperem com o serviço público e as organizações municipais e que as transformações não sejam vistas como uma questão puramente econômica, mas também como uma necessidade de transformar políticas públicas e a legislação de tal maneira que as alternativas sejam melhor apoiadas, que as empresas digitais e de comunicação sejam tributadas adequadamente, etc. Há também o perigo de que as alternativas à Internet se transformem em comunidades de nerds limitadas a eles como insiders, impedindo as pessoas comuns que não são nerds da computação de verem seus interesses nisso. Os projetos autonomistas geralmente enfrentam o mesmo problema quando eles se transformam, como critica Murray Bookchin, em estilos de vida. Portanto, é importante que projetos alternativos sejam baseados em uma cultura inclusiva. Para superar a marginalização econômica (redes pequenas, baixo número de usuários, falta de expansão, falta de recursos) e a marginalização política (falta de voz política), um projeto alternativo pode cooperar com campanhas, grupos de advocacy, sociedade civil, municípios, e instituições públicas. Os projetos ligados ao comum digital devem formar híbridos com projetos sociais, urbanos e outros projetos em torno do comum, para que sejam movimentos híbridos que façam demandas híbridas.

 

 

DIGILABOUR: Você tem defendido a Internet como serviço público e a slow media como alternativas ao cenário atual. Isso parece muito distante da realidade brasileira…

FUCHS: A Internet capitalista domina globalmente, não apenas no Ocidente e não somente no Sul Global. A luta por alternativas é necessária em todas as partes do mundo. Uma Internet alternativa deve ser uma combinação entre plataformas de Internet como serviço público e cooperativas de plataforma. Onde quer que os usuários/cidadãos estejam começando a confrontar a Internet capitalista e o capitalismo, há a possibilidade de mudanças progressistas, com demandas políticas que promovam alternativas, começando a construir alternativas. No final, a luta por uma Internet alternativa e por uma comunicação alternativa só é possível como parte da luta mais ampla pelo socialismo. E o socialismo é necessário em todos os lugares. O socialismo é a luta pela democracia na economia, na política e na cultura. Uma esfera pública democrática faz parte do socialismo como democracia participativa.

 

 

DIGILABOUR: Você está para lançar um livro sobre novos nacionalismos e têm falado sobre capitalismo autoritário. Como compreender isso, em um cenário de Bolsonaro, Trump e Brexit?

FUCHS: Em muitas partes do mundo, experimentamos a ascensão de formas autoritárias de capitalismo. O surgimento de novos nacionalismos é o aspecto mais perturbador e preocupante da política contemporânea. A Internet é um espaço onde o nacionalismo e o autoritarismo são comunicados, experienciados, contestados e confrontados. Ao teorizar criticamente sobre os nacionalismos e autoritarismos contemporâneos, eu estou interessado em desenvolver e atualizar as abordagens de autores como Karl Marx, Rosa Luxemburgo, Eric Hobsbawm, Franz Neumann, C.L.R. James, M.N. Roy, Erich Fromm, Theodor W. Adorno, Max Horkheimer, Herbert Marcuse, Wilhelm Reich, Klaus Theweleit e outros. A História nos diz que o nacionalismo e o autoritarismo não são pacíficos, mas geralmente resultam em guerras. E esse é o verdadeiro perigo dos novos nacionalismos. Eles têm potenciais fascistas. Mais uma vez, como diz Rosa Luxemburgo, estamos na encruzilhada da “transição para o socialismo ou da regressão à barbárie”. As lutas sociais pelo socialismo democrático são o único antídoto ao nacionalismo, ao autoritarismo e ao fascismo.

 

 

O Trabalho dos Moderadores de Conteúdo: entrevista com Sarah Roberts

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Sarah Roberts, professora da University of California, Los Angeles, é uma pioneira na pesquisa sobre o trabalho dos moderadores de conteúdo das mídias sociais. Ela chama atenção especialmente para a moderação realizada por terceirizados de grandes empresas, como Facebook Google. Foi uma das entrevistadas do filme The Cleaners e lançou em junho o livro Behind the Screen: Content Moderation in the Shadows of Social Media, resultado de oito anos de pesquisa nos Estados Unidos e nas Filipinas.

Roberts afirma que a moderação de conteúdo não é algo novo, remontando a algo feito há quatro décadas. Para ela, o novo é a sua escala industrial, sendo um poderoso mecanismo de controle. Como já discutimos na DigiLabour desde o início, é o trabalho humano por trás da chamada “inteligência artificial”. Pessoas que trabalham em lugares como call centers e também em plataformas de microtrabalho como Amazon Mechanical Turk. Passam o dia vendo cerca de 1500 fotos e vídeos para decidir o que manter e o que deletar das plataformas digitais. Para Roberts, o trabalho de moderação comercial de conteúdo reforça a Internet como lugar de controle, vigilância, intervenção e circulação da informação como mercadoria.

Conversamos com Sarah Roberts e você pode conferir os áudios abaixo:

Cobertura midiática sobre os moderadores de conteúdo
Tipologia dos moderadores de conteúdo nas mídias sociais
Mudanças na moderação comercial de conteúdo
Futuro da moderação comercial de conteúdo

Se quiser ler outra entrevista com Sarah Roberts, acompanhe aqui.

Trabalho Transmídia: Entrevista com Karin Fast

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Karin Fast é professora da Karlstad University, na Suécia, e pesquisa temas como midiatização, trabalho midiático e transmídia. Lançou em abril deste ano, junto com André Jansson, o livro Transmedia Work: privilege and precariousness in digital modernity. O livro discute termos como trabalho transmídia e transmidiatização a partir de pesquisa realizada com trabalhadores das áreas de cultura e negócios, expatriados e discursos corporativos, especialmente de coworking. Confira abaixo a entrevista de Fast à DigiLabour:

 

DIGILABOUR: O que é trabalho transmídia?

KARIN FAST: Trabalho transmídia é um termo que eu e André Jansson usamos para nos referirmos às condições de trabalho saturadas por mídias. Não se refere a uma categoria específica de trabalho, nem a atividades de trabalho específicas. Em vez disso, usamos “trabalho transmídia” para problematizar as normas contemporâneas sobre como devemos trabalhar e nos relacionar com outros por meio das mídias. Por fim, acreditamos que o trabalho transmídia é um conceito útil para formular uma crítica social do trabalho no contexto da modernidade digital. Em nosso novo livro, definimos o trabalho transmídia como uma nova condição social saturada por: 1) práticas de compartilhamento on-line que 2) tornam o trabalho e os trabalhadores visíveis para outros usuários e 3)possibilitam feedback em tempo real sobre o conteúdo circulado, o que, por sua vez, facilita 4) processos automatizados de vigilância e, finalmente, 5) a mercantilização das práticas e relações sociais em geral. Deixe-me ilustrar isso com um exemplo. Imagine que você compartilha uma selfie tirada em um congresso no Facebook. No momento em que você a compartilha, seu trabalho se torna visível para outros usuários. Qualquer colega ou chefe que você tenha como “amigo” pode ver que você está ocupado trabalhando. Potencialmente, eles também podem ver onde você está trabalhando, com quem e com o que. Além disso, os amigos do Facebook podem “curtir” ou comentar sua foto, fornecendo feedback tem tempo real. Além disso, a partir do momento em que você publica sua foto no Facebook, ela se torna parte de processos automatizados de vigilância. Como um pedaço de big data, a sua selfie – e o trabalho por trás dela – acaba se tornando parte da mercantilização das práticas e relações sociais em geral. Ao mesmo tempo, você pode obter algum tipo de reconhecimento social e auto-estima que pode ser benéfico para sua carreira. Conforme enfatizamos em nosso livro, as pressões sociais e as lógicas comerciais interagem com o avanço tecnológico na criação do trabalho transmídia. Utilizamos o conceito de transmidiatização para nos referir à normalização dessa condição social. Um argumento importante que desenvolvemos em nosso livro é que diferentes grupos de trabalhadores são diferentemente “vulneráveis” às pressões da transmidiatização.

 

DIGILABOUR: Qual poderia ser uma tipologia de trabalho transmídia?

FAST: Distinguimos quatro tipos elementares de trabalho transmídia. O trabalho “dedicado” pode ser encontrado entre os grupos de trabalhadores que também estão mais envolvidos no trabalho de reconhecimento, como empreendedores culturais independentes, impulsionados por valores intrínsecos enquanto trabalham em condições relativamente precárias. O trabalho forçado corresponde a condições nas quais os trabalhadores têm pouco controle sobre sua situação de trabalho e em que o trabalho é principalmente impulsionado por necessidades materiais. Para esses trabalhadores, a questão transmídia é essencial. Por exemplo, os trabalhadores da gig economy normalmente conseguem suas atividades de trabalho por meio de plataformas online (por exemplo, TaskRabbit ou Gigstr). Em ambientes não precários, onde as pessoas experimentam um forte senso de autorrealização e investem grande parte de suas identidades em suas vidas profissionais, podemos falar em trabalho eletivo na relação com transmídia. Aqui, o trabalho transmídia é uma tarefa menos obrigatória. O trabalho embrionário, por fim, é mais provável de se manifestar em locais onde os empregos são relativamente seguros, mas as oportunidades de autorrealização são pequenas. Sob tais condições de trabalho, que ainda caracterizam grande parte do mercado de trabalho, o trabalho de reconhecimento deve ser mantido em um nível baixo e orientado para realizações práticas, em vez de ser uma “marca pessoal”. Esses tipos de configurações são, portanto, relativamente pouco afetados pela transmidiatização. Embora reconheçamos que pode ser difícil categorizar trabalhadores ou grupos individuais de acordo com o nosso modelo, acreditamos que isso pode ser útil para estudar variações em termos de como a transmidiatização ocorre socialmente.

 

DIGILABOUR: De quais maneiras e com quais sentidos têm circulado as ideias dominantes e as mitologias do trabalho transmídia?

FAST: Existem muitos “interessados ​​em transmidiatização” por aí. Isto é, vários atores que têm interesse direto em cultivar dependências transmidiáticas. Deixe-me mencionar aqui três partes distintas interessadas nisso e os tipos de mitologias que elas tendem a desenvolver. Primeiro, e talvez mais evidentemente, temos o negócio de tecnologias de informação e comunicação (TIC), cuja razão de ser envolve o desenvolvimento das tecnologias transmídia. O discurso contemporâneo sobre tecnologia sugere que o mundo está passando por mudanças significativas e rápidas devido aos avanços no domínio das tecnologias móveis conectadas. Smartphones, laptops, tablets, soluções em nuvem,  relógios inteligentes etc. são representados como meios de transformação social radical. Diz-se que a tecnologia “capacita” as pessoas, “faz crescer” a economia e, finalmente, cria o tipo de “aldeia global” que McLuhan imaginou na década de 1960. No campo do trabalho, especificamente, a retórica das TIC tende a destacar horários e locais de trabalho “flexíveis”, bem como a derrubada das hierarquias organizacionais. Como exemplo, uma das principais empresas de TIC, a Ericsson, fornece um “Guia de Sobrevivência” para a “Vida Profissional da Próxima Geração”, que aconselha os trabalhadores a “se reconstruírem constantemente”, para se tornar seu próprio “gerente de marca pessoal”. ”E para aumentar sua “network pessoal ”. Em panfletos desse tipo, os negócios de TIC quase disfarçam o sindicato dos trabalhadores – com a diferença significativa de que a ênfase está no indivíduo e não no coletivo (ou seja, você deve assumir total responsabilidade por suas condições de trabalho). Assim, as empresas de TIC estão altamente envolvidas em um processo de definir o que significa ser trabalhador na era da aceleração da transmidiatização. Em segundo lugar, temos a ampla categoria de atores que capitalizam mais indiretamente a transmidiatização, oferecendo “abrigo” aos trabalhadores transmídia estressados. Os chamados espaços de coworking representam um desses atores. Essas empresas oferecem aos trabalhadores móveis e isolados – normalmente trabalhadores brancos ou “sem colarinho” – o aluguel de uma mesa, um escritório ou um estúdio por um período limitado. As tecnologias transmídia constituem a espinha dorsal (i)material da indústria espacial do coworkinge, portanto, o discurso sobre coworking é rico em sugestões sobre o que implica o trabalho transmídia. Ao se apresentarem como meio “amigável”, “acolhedor”, “atencioso” e “divertido”, os espaços de coworking efetivamente constroem o mundo “normal” do trabalho como solitário, frio, competitivo e alienante. Os chamados empreendedores de detox digital, para dar outro exemplo, contribuem para o mesmo tipo de criação de mitos. Eles projetam suas ofertas – ambientes relaxados e desconectados – em oposição ao mundo normal do trabalho, que é descrito como estressante, competitivo e muito exigente. O que os espaços de coworking e os empreendedores de desintoxicação digital têm em comum é que afirmam se revoltar contra os principais meios de subsistência transmidiatizados. No entanto, eles também se alimentam da transmidiatização e de suas consequências sociais.

 

DIGILABOUR: Você mostra sete exemplos de metáforas de trabalho não pago no setor midiático. Como avançar nesse debate?

FAST: O free labor se desenvolveu como um conceito analítico importante para reconhecer e criticar novas ou semi-novas formas de trabalho na modernidade digital. O objetivo de nosso artigo sobre isso foi criticar e avançar esse conceito apresentando uma tipologia historicamente fundamentada do free labor que também destaca dois problemas principais com os usos atuais do conceito. Antes de tudo, a crescente literatura que teoriza sobre free labor tende a usar o termo de forma muito indiscriminada. Afirmamos que apertar o botão de curtir no Facebook – uma atividade que foi corretamente identificada como free labor – é um tipo muito diferente de free labor do que, por exemplo, trabalhar ininterruptamente com o desenvolvimento de um novo game durante um hackaton. De maneira semelhante, afirmamos – em oposição à definição seminal de Tiziana Terranova – que nem todo free labor é “voluntariamente dado e não remunerado, desfrutado e explorado”. O free labor, como exemplificamos, nem sempre pode ser voluntariamente dado, nem é necessariamente sempre desfrutado. Além disso, o nível de “liberdade” experimentado pelo trabalhador pode variar.Muitas formas de free labor são monitoradas, estruturadas e gerenciadas de perto, de acordo com o interesse do empregador. O segundo problema é que o free labor é representado principalmente como um novo fenômeno, apesar de existirem equivalentes históricos. Ao desenvolver um conceito mais historicamente ancorado, queríamos mostrar a heterogeneidade do amplo conjunto de práticas que poderíamos chamar de free labor. Assim, nossa tipologia apresenta sete metáforas do free labor, baseadas em instâncias históricas de papéis que as pessoas assumem ao realizar trabalhos não remunerados: os de EscravoCuidadorAprendizProspectorTrabalho por HobbyVoluntário e Idiota.

 

DIGILABOUR: O que são tecnologias geomidiáticas?

FAST: As tecnologias geomidiáticas são um conceito abrangente para uma ampla variedade de dispositivos, hardwares e softwares que têm uma coisa em comum: são contingentes. Em resumo, isso significa que elas rastreiam, registram e exploram automaticamente a posição geográfica dos usuários, para vários propósitos. Embora as formas analógicas de tecnologias geomidiáticas existam há muito tempo, a disseminação de dispositivos conectados, portáteis, digitais e relativamente acessíveis – como relógios inteligentes, smartphones, laptops e tablets – nos levou a uma fase de aceleração da geomidiatização. Isso implica que as tecnologias geomidiáticas, em interação com as forças sociais, culturais, econômicas e políticas, afetaram a maneira como fazemos as coisas – como navegar, namorar, fazer compras, socializar, trabalhar, viajar etc. etc. Podemos, por exemplo, confiar em tecnologias geomidiáticas ao procurar restaurantes próximos, encontros em potencial ou estacionamentos disponíveis, ao medir a distância do ponto A ao ponto B ou ao jogar um game de realidade aumentada. As tecnologias geomidiáticas, para falar com Raymond Williams, tornaram-se “ordinárias”. Para certos tipos de tecnologias geomidiáticas – podemos chamá-las de “tecnologias geomidiáticas não comprometedoras” – o lugar da contingência é um atributo-chave. Softwares como Pokémon Go, Google Maps ou Run Keeper, por exemplo, seriam inúteis se fossem roubados de sua capacidade de detectar e ajustar seu conteúdo à posição do usuário. Outras tecnologias de geomídia, como as mídias sociais baseadas em localização, permitem e nos incentivam a fazer “check-in” em locais e a “marcar tags” em nossas fotos, mas têm mais do que contingências. O Facebook e o Instagram, por exemplo, ainda aceitam fotos sem identificação geográfica, e o Snapchat continua funcionando mesmo quando o acesso à posição do usuário é negado. Poderíamos, portanto, nos referir a este último grupo como “tecnologias geomidiáticas comprometedoras”. Normalmente, um contêiner de tecnologias geomidiáticas não comprometedoras e comprometedoras, o smartphone é indiscutivelmente o “garoto-propaganda” das tecnologias geomidiáticas. Para falar com Scott McQuire, o smartphone é sintomático de todos os quatro desenvolvimentos tecnologicamente induzidos que marcam a mudança de “mídia” para “geomídia”: onipresença, reconhecimento de localização, feedback em tempo real e convergência. No entanto, embora fosse fácil pensar na geomidiatização como primeira e acima de tudo um processo tecnológico, eu gostaria – em simpatia com a teorização de McQuire sobre geomídia e teorizações já feitas sobre midiatização – de enfatizar sua dimensão social. As tecnologias geomidiáticas só se tornam poderosas quando “acontecem” na vida cotidiana das pessoas.

 

Eubanks: Automatizando as Desigualdades

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Como os algoritmos, construídos por seres humanos, podem intensificar desigualdades? Em 2018, dois livros foram destaque nesse assunto. Um é Algorithms of Oppression, de Safiya Noble, sobre como os mecanismos de busca reforçam o racismo. Outro é Automating Inequality, de Virginia Eubanks. Como a automatização e o uso de algoritmos nos serviços públicos tem reforçado e acelerado desigualdades, com a vigilância e o perfilamento dos pobres?

Segundo Eubanks, a automatização dos serviços públicos começou nos anos 1960 nos Estados Unidos e intensificou-se nos últimos anos, criando uma aura de eficiência, objetividade e infalibilidade. Mas, na verdade, isso estaria criando uma versão digital das poorhouses no país, punindo as pessoas por serem pobres.

Quais os valores e crenças embutidos nos algoritmos? Como isso tem reforçado as desigualdades? Como confrontar essas lógicas? Eubanks, que é professora de Ciência Política da State University of New York, em Albânia, conversou com a DigiLabour sobre esses assuntos presentes em Automating Inequality. Confira abaixo em aúdio:

 

Digital Poorhouse

 

Automatização dos serviços públicos e intensificação das desigualdades

 

Noções de classe e classe trabalhadora em contexto de desigualdades automatizadas

 

Como desmantelar o digital poorhouse?

 

Dubal: regulação das plataformas de trabalho

Veena Dubal é professora de Direito da University of California e pesquisa as relações entre Direito, tecnologia e trabalho precário. Alguns de seus artigos:

 

Confira entrevista de Dubal à DigiLabour:

DIGILABOUR: Hoje quais são os principais desafios para regulação do trabalho em plataformas digitais?

VEENA DUBAL: Os principais desafios não são de ordem legal, mas estão enraizados no poder estrutural e instrumental das principais plataformas digitais. Empresas como Uber e Amazon alavancaram seus ativos significativos de forma a impedir a aplicação das leis trabalhistas existentes. Elas fazem de tudo para favorecer seus modelos de negócios exploradores. Grande parte do trabalho realizado por meio de plataformas digitais não é tão diferente para fins regulatórios de outros tipos de trabalho realizados na economia de serviços. De fato, as plataformas poderiam potencialmente dar aos reguladores acesso a segmentos da economia de serviços que têm ficado cada vez mais informais. Mas, em vez de usar tecnologias digitais para reduzir o mercado de trabalho informal, as plataformas de trabalho escolheram a arbitragem regulatória, escondendo-se atrás da fachada da tecnologia para afirmar que o trabalho nas plataformas é, de alguma maneira, novo ou inovador e não deve ser regulamentado da maneira tradicional.

 

 

DIGILABOUR: Você tem analisado em sua pesquisa atual os sentidos da lei para os trabalhadores precários. Como isso tem se dado?

DUBAL: A visão predominante nos Estados Unidos é a de que a maioria dos trabalhadores da gig economy quer ser autônomo/independente porque deseja a flexibilidade associada a esse status legal. Eu tenho feito pesquisa etnográfica por anos com motoristas da Uber e da Lyft em San Francisco, e minhas descobertas são muito diferentes. Acho que, para fins de políticas públicas, as próprias palavras – empregado ou prestador de serviços independente – são uma falácia. Os trabalhadores têm medo de que, se forem considerados “empregados”, as empresas serão ainda mais exploradoras do que já são. Alguns também apreciam o capital cultural associado a ser alguém “independente”. Especialmente em uma força de trabalho sindicalizada com trabalhadores atomizados, ser um “pequeno empresário” oferece um pouco de dignidade a muitas pessoas. Mas, independentemente do que eles possam querer ser chamados, os trabalhadores precários desejam os benefícios que as leis trabalhistas pretendem proporcionar – os direitos a um piso salarial, a negociação coletiva, o seguro-desemprego. Para os formuladores de políticas, esse deve ser o ponto a ser considerado.

DIGILABOUR: Como você tem analisado os movimentos que têm acontecido para enfrentar o atual cenário do trabalho digital, especialmente no campo jurídico?

DUBAL: Os movimentos trabalhistas no mundo digital que me inspiram são de natureza internacionalista. A greve global massiva contra a Uber no dia 8 de maio foi uma delas. Isso refletiu as conexões feitas pelas organizações de base dos motoristas em diferentes continentes. O fato de que esses trabalhadores de aplicativos atomizados foram capazes de coordenar uma ação global direta contra uma multinacional gigante foi incrível e sem precedentes. Acho que isso nunca aconteceu antes. Também fiquei muito impressionada com a Tech Workers’ Coalition nos EUA. Voluntários coordenaram o Google Walkout, que também foi global. Além disso, eles fizeram um trabalho incrível ao ajudar os trabalhadores de tecnologia de “colarinho branco” a perceberem que, se criarem solidariedade uns com os outros e com trabalhadores da área de tecnologia de maneira mais ampla (incluindo os precários), eles terão uma quantidade tremenda de poder. E esses voluntários da Tech Workers’ Coalition visam não apenas reduzir as práticas trabalhistas exploradoras, mas também usar seu poder para conter manifestações perigosas do capitalismo de vigilância. Esta, na minha opinião, é provavelmente a organização mais importante atualmente. Notavelmente, esses dois grupos – os motoristas do Uber e os trabalhadores da tecnologia – conseguiram crescer e se mobilizar, apesar das limitações que a legislação trabalhista dos Estados Unidos impõe sobre suas atividades.

Filtros-Bolha são Reais?

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Axel Bruns é professor do Centro de Pesquisa em Mídias Digital da Queensland University of Technology em Brisbane, Austrália. Autor de livros como Gatewatching and News Curation, Bruns lançará dia 16 de setembro seu novo livro: Are Filter Bubbles Real? Para ele, expressões como filtros-bolha e câmaras de eco não passam de metáforas e não explicam adequadamente as práticas nas plataformas digitais. Confira a conversa da DigiLabour com ele:

 

DIGILABOUR: Por que você considera inadequadas metáforas como filtros-bolha e câmaras de eco?

AXEL BRUNS: O primeiro problema é que são apenas metáforas: as pessoas que apresentaram essas ideias nunca se preocuparam em defini-las adequadamente. Isso significa que esses conceitos podem parecer sensatos, mas podem significar qualquer coisa. Por exemplo, o que significa estar dentro de uma bolha ou câmara de eco? Somente em casos tão extremos – talvez estar completamente desconectado do resto da sociedade – que os fortes efeitos negativos que os defensores dessas metáforas imaginam iriam se tornar realidade. Eles assumem que pessoas em câmaras de eco ou bolhas não veem mais nenhum conteúdo que discorde de suas visões de mundo políticas. Essa desconexão completa não é totalmente impossível, mas muito difícil de ser alcançada. E a maioria das evidências empíricas que temos aponta na direção oposta. Em particular, o imenso sucesso da propaganda política extremista (incluindo “fake news”, outro termo muito problemático e mal definido) nos EUA, no Reino Unido, em partes da Europa e até mesmo no próprio Brasil nos últimos anos dá um argumento muito forte contra câmaras de eco e bolhas de filtro: se fôssemos todos trancados em nossas próprias bolhas, desconectados um do outro, então esse conteúdo não poderia ter ido tão longe, e não poderia ter afetado tantas pessoas tão rapidamente quanto parece ter acontecido. Governos não liberais não investiriam recursos significativos em coisas como a russa Internet Research Agency se suas operações de influência fossem confinadas a bolhas ideológicas existentes. A propaganda depende crucialmente da ausência das câmaras de eco e dos filtros-bolha se procurar influenciar mais pessoas do que aquelas que já fazem parte de um grupo restrito de hiperpartidários.  De outra maneira, se definirmos as câmaras de eco e as bolhas de filtro muito mais livremente, de uma forma que não exija que as pessoas dentro dessas bolhas sejam desconectadas do mundo das informações ao seu redor, os termos se tornam quase inúteis. Com uma definição tão fraca, qualquer comunidade de interesse se qualificaria como uma câmara de eco ou um filtro-bolha: qualquer partido político, grupo religioso, clube de futebol ou outra associação cívica seria uma câmara de eco ou um filtro-bolha, porque possibilitaria a pessoas com interesses e perspectivas semelhantes conectarem-se e comunicarem-se livremente. Mas nesse caso, o que há de novo? Esses grupos sempre existiram na sociedade, e a sociedade evolui por meio da interação e da competição entre eles – não há necessidade de criar novas e mal definidas metáforas como “câmaras de eco” e “filtros-bolha” para descrever isso. Alguns defensores dessas metáforas afirmam que nossas novas mídias digitais e sociais pioraram as coisas: que elas tornaram mais fácil para as pessoas criarem o primeiro tipo forte de câmara de eco ou filtro-bolha, ao se desconectarem do resto do mundo. Mas embora isso possa parecer sensato, não há praticamente nenhuma evidência empírica para isso: por exemplo, sabemos agora que as pessoas que recebem notícias das mídias sociais encontram uma variedade maior de fontes de notícias do que aquelas que não recebem, e aquelas que têm as visões políticas mais fortes e mais partidárias também estão entre os consumidores mais ativos da mídia mainstream. Mesmo as hipóteses de que os algoritmos das plataformas estariam empurrando as pessoas para câmaras de eco ou filtros-bolha foram refutadas: os resultados de pesquisa do Google, por exemplo, mostram muito pouca evidência de personalização em um nível individual. Parte da razão para isso é que – ao contrário das pessoas que apoiam as metáforas da câmara de eco e do filtro-bolha – a maioria das pessoas comuns na verdade não liga muito para a política. Se houver alguma personalização por meio dos algoritmos do Google, Facebook, Twitter ou outras plataformas, ela será baseada em muitos atributos pessoais além de nossos interesses políticos. Como plataformas multiusos, ali nossas vidas pessoais, profissionais e políticas se cruzam e se chocam. Ali encontramos uma mistura ampla e imprevisível de conteúdo a partir de uma variedade de pontos de vista. No geral, essas plataformas permitem que todos nós encontremos perspectivas mais diversas, não menos. E é aí que essas metáforas não são simplesmente estúpidas, mas absolutamente perigosas: elas criam a impressão, primeiro, de que há um problema e, segundo, que o problema é causado de forma significativa pelas tecnologias que usamos. Essa é uma perspectiva explicitamente determinista tecnologicamente, ignorando o elemento humano e assumindo que somos incapazes de moldar essas tecnologias às nossas necessidades. E tais visões, então, também se viram para soluções tecnológicas: se nós assumirmos que as mídias digitais e  sociais causaram os problemas atuais na sociedade, então devemos mudar as tecnologias (por meio de ajustes tecnológicos, regulatórios e legais) para corrigir esses problemas. É como se uma simples mudança no algoritmo do Facebook fizesse o fascismo desaparecer. Em minha opinião, ao contrário, nossos problemas atuais são sociais, econômicos e políticos, e a tecnologia desempenha apenas um papel nisso tudo. Isso não quer dizer que as plataformas estão livres de culpa – Facebook, Twitter, WhatsApp e outras empresas certamente poderiam fazer muito mais para combater o discurso de ódio e o abuso em suas plataformas, por exemplo. Mas se as mídias sociais e até mesmo a própria Internet desaparecerem de repente amanhã, ainda teríamos esses mesmos problemas na sociedade, e não estaríamos mais perto de resolvê-los. O atual foco excessivamente tecnológico de nossos debates públicos – nossa tendência a culpar as mídias sociais por todos os nossos problemas – obscurece esse fato e nos impede de abordar os problemas reais.

 

DIGILABOUR: A partir disso, como abordar a polarização política?

BRUNS: Para mim, esta é a verdadeira questão e que ainda não foi pesquisada o suficiente. O problema fundamental não são as câmaras de eco e os filtros-bolha: é perfeitamente evidente que os vários grupos polarizados da sociedade estão bem cientes um do outro e das posições ideológicas de cada um – o que seria impossível se estivessem trancados em seus próprios lugares.  Na verdade, eles monitoram um ao outro muito de perto: pesquisas nos EUA mostraram que grupos de extrema direita também são seguidores ativos de sites de notícias “liberais” como o New York Times, por exemplo. Mas eles não seguem mais o outro lado para se engajar em qualquer diálogo político significativo, visando encontrar um consenso a partir  do qual ambos os lados poderiam viver. Em vez disso, eles monitoram seus oponentes a fim de encontrar novas maneiras de distorcer suas palavras, criar fake news, e atacá-los com tais falsidades. E sim, eles usam mídias digitais e sociais para fazer isso, mas novamente este não é um problema inerentemente tecnológico: se eles não tivessem mídias sociais, usariam a mídia impressa ou o broadcast em vez disso, assim como os fascistas faziam nos anos 1920 e 1930. Então, para mim, a questão chave é como chegamos a esse ponto: em termos simples, por que os hiperpartidários fazem o que fazem? Como eles se tornam tão polarizados – tão seguros de suas próprias visões de mundo que descartarão quaisquer visões opostas imediatamente, e verão quaisquer tentativas de argumentar com eles ou de corrigir suas visões meramente como uma confirmação de que o establishment está tentando persegui-los ? Quais são os processos (sociais, e não simplesmente tecnológicos) pelos quais as pessoas são atraídas para essas extremidades políticas e como podem ser retiradas de lá? Essa questão também apresenta fortes elementos psicológicos, é claro: como os hiperpartidários formam sua cosmovisão? Como eles incorporam novas evidências? Como eles interpretam e, ao fazê-lo, desarmam qualquer evidência que contrarie suas próprias perspectivas? Vemos isso em muitos campos hoje: da própria argumentação política às pessoas que acreditam que as vacinações são algum tipo de experimento global de controle da mente, ou para aqueles que ainda negam a esmagadora evidência científica das mudanças climáticas. Como essas pessoas mantêm seus pontos de vista ainda que sejam bombardeadas diariamente com evidências de que as vacinas salvam vidas e que o clima global está mudando, com consequências catastróficas? Por um lado, parece evidente que nós vemos muito mais evidências de polarização hoje do que nas últimas décadas: Brexit, Trump, Bolsonaro e muitos outros claramente nos sensibilizaram para essas profundas divisões em muitas sociedades ao redor do mundo.  Mas a maioria das sociedades capitalistas sempre teve profundas divisões entre ricos e pobres; o Reino Unido sempre teve posições firmes tanto pró quanto anti Europa; os EUA sempre foram racistas. Acho que precisamos de mais pesquisas e melhores formas de avaliar se alguma dessas coisas se tornou pior nos últimos anos, ou se isso simplesmente se tornou mais visível. Por exemplo, Trump e outros fizeram com que seja socialmente aceitável nos EUA ser politicamente incorreto, ser deliberadamente misógino, ser abertamente racista. Mas talvez as pessoas que agora apoiam publicamente tudo isso já estivessem lá, e simplesmente não tivessem coragem de expressar suas opiniões em público. Talvez o que tenha acontecido é que Trump e outros quebraram a espiral de silêncio que subjugou essas vozes prometendo sanções sociais. Talvez a espiral do silêncio agora funcione de outra maneira, e as pessoas que se opõem a esse extremismo agora permanecem em silêncio porque temem a violência comunicativa e até física. É importante ressaltar que essas também são questões-chave para a pesquisa em comunicação, mas as investigações não podem adotar a perspectiva simplista de que “as mídias digitais e sociais são as culpadas”por tudo isso. Em vez disso, a questão é até que ponto as condições e práticas em nosso sistema midiático permitiram tais mudanças. Sim, plataformas digitais e sociais permitiram que vozes nas franjas políticas publicassem seus pontos de vista, sem supervisão editorial ou censura de qualquer outra pessoa. Mas tais vozes encontram seu público, na maioria das vezes, somente depois de amplificadas por canais mainstream. É verdade que no atual panorama midiático, os fluxos de informação são diferentes do que eram no passado, não simplesmente por causa das características tecnológicas, mas pelo modo como todos nós optamos por incorporar esses recursos em nossas vidas cotidianas. A questão então é se e como isso afeta a dinâmica da polarização, e quais alavancas estão disponíveis para nós se quisermos mudar essas dinâmicas.

 

DIGILABOUR: Como podemos continuar a fazer pesquisa crítica em plataformas digitais após o que você chama de API-calipse?

BRUNS: Com grande tenacidade e engenhosidade, mesmo diante de adversidades significativas, porque temos uma obrigação social com a pesquisa. Eu disse ao longo de minhas respostas aqui que não podemos culpar de maneira simplista as mídias sociais pelos problemas que as nossas sociedades estão enfrentando agora: as tecnologias de mídias sociais não causaram nada disso. Mas as maneiras pelas quais nós, todos nós, usamos mídias sociais  claramente desempenham um papel na forma como a informação viaja e como ocorre a polarização, e assim continua sendo importante investigar as práticas de mídias sociais de cidadãos comuns, de ativistas hiperpartidários, de políticos marginais e tradicionais, de jornalistas emergentes e estabelecidos, de bots sociais e campanhas de desinformação. E, claro, mesmo além da política e da polarização, há também muitas outras razões importantes para estudar as mídias sociais. O problema agora é que, ao longo dos últimos anos, muitas das principais plataformas de mídias sociais tornaram consideravelmente mais difícil para os pesquisadores acessarem dados públicos s sobre as atividades de mídias sociais – um movimento que descrevi, em linguagem deliberadamente hiperbólica, como o “API-calipse”. Ostensivamente, tais mudanças foram introduzidas para proteger os dados dos usuários de uma exploração não autorizada, mas uma conseqüência conveniente dessas restrições de acesso tem sido o fato de que pesquisas independentes, críticas e de interesse público sobre práticas de mídias sociais se tornaram muito mais difíceis. Isso limita nossa capacidade de fornecer uma avaliação imparcial das práticas de mídias sociais e, cada vez mais, força os pesquisadores que buscam trabalhar com dados de plataformas a buscar acordos de parceria direta, sob condições que favorecem os provedores de plataformas. Isso requer várias respostas paralelas da comunidade acadêmica. É claro que devemos explorar os novos modelos de parceria oferecidos pelas plataformas, mas devemos tratá-los com um grau considerável de ceticismo e não podemos confiar apenas em uma filantropia de dados tão limitada. Em particular, é improvável que as plataformas forneçam acesso a dados em contextos em que a pesquisa acadêmica possa ser altamente crítica em relação a suas ações. Devemos, portanto, também investigar outras formas de coleta de dados: isso inclui doações de dados de usuários dessas plataformas (modeladas, por exemplo, no plugin de navegador do ProPublica que captura os anúncios políticos encontrados pelos usuários do Facebook) ou coleta de dados dos sites das plataformas como alternativa para acesso a dados baseado em API, por exemplo. As plataformas podem tentar fechar esses modos alternativos de coleta de dados (como o Facebook tentou fazer com o plugin do navegador ProPublica) ou alterar seus Termos de Serviço para proibir explicitamente essas práticas – e isso deve levar os acadêmicos a considerar se os benefícios de suas pesquisas superam os interesses das plataformas. Os Termos de Serviço geralmente são escritos para o benefício máximo da plataforma e podem não ser legalmente válidos dentro de cada país. A mesma legislação também pode fornecer exceções de “uso justo” ou “liberdade acadêmica” que justifiquem a violação deliberada das restrições dos Termos de Serviço em contextos específicos. Como acadêmicos, devemos lembrar que temos uma responsabilidade com os usuários das plataformas e com a sociedade, assim como com os provedores de plataformas. Devemos equilibrar essas responsabilidades, tomando cuidado para que os dados de usuários que coletamos permaneçam adequadamente protegidos à medida que buscamos questões de interesse social. Fazer isso pode ser um ato de equilíbrio muito difícil, é claro. Finalmente, devemos também manter nossa pressão sobre as plataformas para fornecer aos pesquisadores acadêmicos melhores interfaces para acesso a dados, muito além de esquemas limitados de filantropia de dados que excluem áreas-chave de investigação. De fato, devemos listar outros – órgãos financiadores, formuladores de políticas, instituições da sociedade civil e o próprio público em geral – que podem exercer essa pressão: é apenas em face de tal ação coletiva, coordenada em todo o mundo, que essas grandes e poderosas empresas provavelmente ajustarão suas políticas de acesso a dados para pesquisas acadêmicas. E será importante confirmar que eles agem de acordo com qualquer promessa de mudança que possam fazer. Apesar de tudo isso, no entanto, quero terminar com uma nota de otimismo: ainda há um papel crucial para a pesquisa que investiga as práticas de mídias sociais, em si mesmas e especialmente também no contexto do sistema midiático mais amplo. Não devemos e não vamos desistir deste trabalho. Diante da polarização generalizada, esta pesquisa é agora mais importante do que nunca. As adversidades com as quais somos confrontados agora também são uma fonte significativa de inovação em métodos e desenhos de pesquisa.

Trabalhadores de Games Uni-vos

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Jamie Woodcock é editor da revista Notes from Below, autor dos livros Marx at the Arcade: consoles, controllers and class struggle e Working the Phones. Lançará no início de 2020, junto com Mark Graham, o livro Gig Economy: a critical introduction. Woodcock conversou com a gente sobre trabalho na área de games, gamificação e trabalho e organização de trabalhadores da gig economy.

 

DIGILABOUR: Como entender a gamificação no mundo do trabalho?

JAMIE WOODCOCK: Eu entendo gamificação como a aplicação de aspectos dos games para coisas que não são games. E isso pode ser muito atraente. Como escrevi com meu colega Mark R. Johnson, a gamificação é frequentemente aplicada de maneira arítica no trabalho. O resultado é que os trabalhadores experimentam a gamificação como intensificação e exploração do trabalho. Um exemplo é o cenário qeu descrevi sobre os call centers em Working the Phones. No entanto, não é possível explicar a gamificação observando-a somente desta maneira. Esses tipos de gamificação podem ser concebidos como algo vindo de “cima”, envolvendo os imperativos da área de administração e do capital. Mas os trabalhadores geralmente encontram maneiras de introduzir aspectos de gamificação, seja para tornar o trabalho mais fácil de ser feito, ou também enquanto práticas de resistência. Nós concebemos isso como “gamificação vinda de baixo”, uma forma de recusa ao trabalho – e que deve ser celebrada.

 

DIGILABOUR: Como você tem observado as resistências e organizações na gig economy?

WOODCOCK: Acabamos de comemorar o aniversário de três anos das greves dos trabalhadores da Deliveroo em Londres. Este momento foi a primeira resistência visível e de confronto na gig economy. Isso desencadeou uma onda de greves dos trabalhadores de plataformas de delivery em toda a Europa, bem como trabalhadores que se juntam a sindicatos novos e alternativos (incluindo IWGB e IWW no Reino Unido). Neste ano, também vimos uma ampla e coordenada ação de greve dos motoristas da Uber. Muitos trabalhadores de plataformas mudaram de empregadores menores para trabalhar em plataformas internacionais (como o Uber, com cerca de 4 milhões de motoristas). Isso está colocando trabalhadores em contato com condições de trabalho que são compartilhadas entre eles. Por exemplo, os trabalhadores de plataformas de delivery agora coordenam toda a Europa com a Transnational Couriers Federation e os motoristas da Uber estão formando redes internacionais. A resistência e a organização até agora mostram algumas características importantes. Em primeiro lugar, não há trabalhadores “inorganizáveis”. Novos tipos de trabalho exigem que os trabalhadores desenvolvam novas táticas e estratégias. Em segundo lugar, esses trabalhadores estão longe de serem isolados. Muitos trabalhadores já têm fortes conexões com comunidades migrantes, bem como se encontram por meio de pontos de encontro nas cidades. Essas redes “invisíveis” de organização são frequentemente coordenadas por meio de WhatsApp e outros meios digitais. A questão principal é para onde essas lutas irão e como os trabalhadores se organizarão. Embora tenha havido uma greve generalizada, as formas que irão sustentar essas lutas a longo prazo são menos claras.

 

DIGILABOUR: E sobre desenvolvedores de software?

WOODCOCK: Os desenvolvedores de software têm se organizado na Tech Workers Coalition nos Estados Unidos, organizando-se com outros trabalhadores na área de tecnologia, assinando cartas contra projetos militares e, mais recentemente, organizando paralisações. Esse movimento recente envolveu trabalhadores da área de tecnologia pensando sobre o impacto de seu trabalho na sociedade. Em vez de se organizar em torno de seus próprios termos e condições diretamente, isso levou a questões mais amplas sobre o controle no mundo do trabalho. Isso é importante, pois não houve grandes movimentos de trabalhadores de tecnologia anteriormente. Em certo sentido, o salário relativamente alto (embora nem sempre) desses trabalhadores era parte de uma barganha feita no início do setor para impedir a sindicalização e limitar a luta pelo controle no trabalho. É também outro exemplo poderoso de como trabalhadores antes desorganizados podem encontrar novas maneiras de resistir e se organizar. No último ano, apoiei a criação do primeiro sindicato de trabalhadores de videogames no Reino Unido. Como os trabalhadores de tecnologia, há preocupações semelhantes em relação ao trabalho, particularmente em torno da diversidade e da opressão com a indústria. Isso também se combina a uma cultura de longas horas de trabalho, que é uma questão clássica do sindicalismo. Os trabalhadores da indústria de videogames formaram uma rede internacional para sindicalizar sua indústria: Game Workers Unite(GWU). O ramo da GWU da IWGB é o primeiro a se sindicalizar a partir desse movimento. Eles mostraram mais uma vez que os trabalhadores podem encontrar novas maneiras de se organizar, utilizando as melhores tradições do movimento trabalhista enquanto também experimentam novas idéias. Como parte de uma investigação em andamento, documentei algumas dessas experiências no livro Marx at the Arcade. Também organizamos um game jam sobre o tema da organização, usando os videogames como um meio para explorar novas formas de organização no trabalho.