Criptomoedas e Políticas de Direita: entrevista com David Golumbia

Professor da Virginia Commonwealth University, David Golumbia é polêmico. Daquele tipo que você pode até não concordar, mas que te faz refletir sobre o tema. Em The Cultural Logic of Computation, de 2009, Golumbia fala da necessidade de compreender os computadores sem “computacionalismo”. Já em seu livro mais recente, The Politics of Bitcoin, afirma que o bitcoin faz parte de uma política de extrema direita, assim como parte da chamada cultura digital. Em texto para a revista Baffler, Golumbia tratou também de blockchain e o que chama de “zelotes”.

Em 2015, publicou, na Jacobin, o textoA Amazon-ização de tudo”, em que coloca a Amazon como ditadora de “tendências” em relação ao mundo do trabalho, com práticas de “panóptico digital”, inovação e exploração. Em seu Medium, Golumbia postou texto em janeiro deste ano sobre inteligência artificial geral e a supremacia branca.

Confira entrevista de David Golumbia ao DigiLabour:

 

DIGILABOUR: Por que você considera o bitcoin como um elemento de um extremismo da direita?

DAVID GOLUMBIA: As ideias políticas e econômicas fundamentais nas quais o bitcoin e o blockchain são baseados somente fazem sentido a partir de uma perspectiva de direita. Para começar, são incoerentes: cada uma das promessas feitas para as tecnologias e criptomoedas é contradita por outro elemento do sistema de crenças. Esse tipo de incoerência interna é algo típico dos sistemas políticos de direita, especialmente aqueles que vão para além do conservadorismo moderado. Então, especificamente, a necessidade e a utilidade do Bitcoin dependem de ideias que surgem diretamente da direita. O menos extremo é uma versão transmutada de uma ideia chamada monetarismo, muita famosa nos Estados Unidos e associada ao economista de direita Milton Friedman, segundo a qual, como ele afirma: “a inflação é sempre e em todo lugar um fenômeno monetário”. Isto é, que a palavra “inflação” refere-se não ao aumento de preços, mas ao fato de a quantidade de moeda em circulação ser muito alta. Friedman, pelo menos, tendia a aceitar a ideia de que a palavra “inflação” em si referia-se ao aumento dos preços, mas achava que um aumento na quantidade de moeda era a única explicação para isso. Na área de criptomoedas, você encontra uma ideia ainda mais extrema e contraditória em si: a “inflação” refere-se apenas ao volume de moeda em circulação e não tem nenhuma relação com os preços. Quando o Bitcoin caiu rapidamente de quase 20 mil dólares para menos de 10 mil dólares, uma inflação acima de 100% de acordo com qualquer definição comum, foi difícil encontrar simpatizantes do Bitcoin em qualquer lugar que reconhecessem isso. De fato, mesmo agora, eles continuam insistindo que o Bitcoin é à prova de inflação, apesar do fato de todos nós termos visto diretamente não apenas inflação, mas hiperinflação em relação ao Bitcoin e outras criptomoedas, a partir das definições comuns de inflação e hiperinflação. Eles dizem que “o fornecimento de Bitcoin só aumentou um pouco”, o que é verdade, e então, “não pode ter inflação”, o que é totalmente falso. O Bitcoin foi projetado para ser “deflacionário” em um sentido quase monetarista. O fornecimento de Bitcoins é projetado para crescer mais lentamente ao longo do tempo e, eventualmente, parar completamente. E essa deflação é largamente desvinculada das realidades de deflação e escassez de tokens. Quase todos os tokens negociáveis, como ações de empresa, milhas aéreas e cartões de beisebol são limitados no fornecimento, mas essa limitação não garante seu valor. Em outros tipos de discussões em torno do Bitcoin, vemos ainda mais elementos de um extremismo de direita. Entre os principais, estão as teorias da conspiração sobre o Sistema de Reserva Federal dos Estados Unidos que circulam pelo país desde a criação do Banco Central, e que são um instrumento fundamental usado pelos antissemitas e racistas para espalhar sua propaganda. Essas teorias da conspiração vão muito além das críticas legítimas ao Banco Central, que são muitas, e chegam à alegação de que os bancos centrais e, especialmente, o Sistema de Reserva Federal, são uma associação secreta cujos membros “imprimem dinheiro” ilicitamente para roubar valor das pessoas comuns. Claramente muitas dessas teorias da conspiração são diretamente antissemitas, e não é preciso ir muito longe na maioria das discussões em fóruns de criptomoedas para encontrar invocações do arquetípico “banqueiro Rothschild” como inimigo do projeto Bitcoin. Finalmente, toda a ideia do blockchain e do ecossistema Bitcoin baseia-se na noção de que os mercados e suas transações devem ser conduzidos fora da supervisão governamental, isto é, devem ser realizados sem considerar a lei. Esse tipo de livre mercado radical e promoção da ilegalidade estão no centro de quase toda filosofia econômica de extrema direita hoje.

 

DIGILABOUR: Mas há muita gente de esquerda apoiando blockchain. Como você vê essa relação?

GOLUMBIA: Esse é, realmente, um dos aspectos mais desanimadores do mundo blockchain. Um modo de pensar em blockchain e criptomoedas é como esquemas de pirâmide. Isso não é totalmente exato, mas é mais verdadeiro que falso. Suponhamos que ouvimos pessoas de esquerda dizendo que “esquemas de pirâmide podem ser muito úteis para políticas de esquerda”. Ou pior, “podemos usar esquemas de pirâmide para transformar a sociedade à esquerda”. Suponho que poderíamos até fazer isso, mas de uma forma bem limitada. Esquemas de pirâmide são uma traição a tudo o que a esquerda representa, no meu entendimento. É preocupante o modo como a maioria dos que afirmam estar à esquerda e “acreditam” em blockchain entende tanto de tecnologia quanto de política. Muitas das que eu encontrei levam em conta as promessas feitas pelos tecnólogos do blockchain sobre o que a tecnologia “poderia” ou mesmo “quererá” fazer, embora nesse momento quase todas essas suposições tenham se mostrado falsas na melhor das hipóteses, e enganosas, na pior. Ou então adotam conceitos de políticas de esquerda que têm pouco a ver com verdadeiros programas socialistas, comunistas, ou mesmo socialistas democráticos. O fato é que as pessoas nesses lugares são particularmente resistentes a demandas que articulem claramente suas políticas e as ferramentas que podem chegar a essas políticas. E esse tipo de “ignorância estudada” sempre me parece mais consistente com a política de direita, não de esquerda. Eu vou dizer mais uma coisa: a maneira mais sóbria de entender blockchain é como uma espécie de planilha ou tecnologia de banco de dados com alguns recursos adicionais interessantes. E podemos e devemos debater quais recursos o blockchain disponibiliza que não estão disponíveis em outras tecnologias. Suponha que tivéssemos pessoas de esquerda escrevendo que “a tecnologia de banco de dados é útil para a esquerda”. É claro que a esquerda pode usar banco de dados, mas em si mesmos eles não se inclinam para a esquerda ou nada parecido. E por que não ouvimos isso? Talvez porque o blockchain seja, em grande parte, um projeto político que ofusca suas funções específicas de software, e que sua política é toda montada a partir de objetivos de direita.

 

DIGILABOUR: Como você relaciona o que chama de “inteligência artificial geral” com a alt-right?

GOLUMBIA: A cultura digital está saturada de políticas de direita de variadas maneiras. A inteligência artificial geral, também chamada de inteligência artificial “forte”, embora seja um bom exemplo disso, tem se tornado um território de “não tecnólogos”, porque a maioria dos tecnólogos e filósofos passou a reconhecer os erros conceituais profundos profundos sobre os quais essa inteligência artificial geral se baseia. Grosso modo, o que chamamos de “mente” não é equivalente ao que chamamos de “inteligência”: a inteligência, por mais que a definamos, é parte da mente, mas de modo algum é tudo. A maioria dos programas de inteligência artificial geral nega ativamente isso, de modo que não se considera tudo sobre como criar os outros aspectos da mente ou da consciência. Embora a cultura digital seja mais ou menos de direita, seu uso específico em tecnologias, discursos e comunidades online varia. A inteligência artificial geral é particularmente atraente para elementos racistas, fascistas e protofascistas de direita. Outras partes da cultura digital “apenas” usam o entusiasmo pela tecnologia para promover causas como a desregulamentação sob o disfarce de uma excepcionalidade digital, ou seja, empresas podem descrever o que fazem como sendo “digitais” e não são reguladas da mesma maneira que outras empresas são. Entendendo essas questões, lutamos contra isso. Lógico que é mais fácil dizer do que fazer. Eu e meus colegas há muito estamos em uma luta difícil para promover uma compreensão mais nuançada em relação à política digital.

 

DIGILABOUR: Dez anos após a publicação de seu livro The Cultural Logic of Computation, como pensar sobre “computadores sem computacionalismo” na atualidade?

GOLUMBIA: De certa forma, estou esperançoso em relação à direção que o mundo tomou nos últimos anos em relação aos computadores, porque muitas das coisas muito destrutivas que eu descrevi naquele livro realmente ocorreram. As pessoas estão começando a perceber que o mundo dos computadores está recheado de ideologia que vai da moderada à extrema direita, cheio de hostilidade a formas de razão e pensamento que não podem ser facilmente reduzidas a algoritmos e quantificações. Ao mesmo tempo, o desenvolvimento de ferramentas realmente nocivas que tentam aplicar o pensamento algorítmico e a quantificação a partes da vida humana que não podem ou não devem ser quantificadas continua praticamente inabalável e isso me preocupa profundamente. Tudo isso são buscas veladas de identificação com o poder, um poder que muitas vezes surge psicologicamente da experiência de domínio do indivíduo sobre o próprio computador. Continuo profundamente preocupado por termos tido tão pouco sucesso ao eliminar esses compromissos ideológicos.

Olhar, Imaginário e Circulação de Dados: entrevista com David Beer

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David Beer, professor de Sociologia da University of York, Inglaterra, lançou no fim de 2018 o seu mais recente livro, The Data Gaze: Capitalism, Power and Perception. Após pesquisa sobre 34 empresas de análise de dados, Beer aborda como o imaginário de dados molda nossa percepção sobre questões como neutralidade, relevância e transparência dos algoritmos e dados. Em outras obras, como Metric Power Popular Culture and New Media (com capítulo gratuito aqui), o autor já tinha trabalhado questões como métricas, circulação de dados e políticas de circulação. Confira entrevista exclusiva com David Beer:

 

DIGILABOUR: O que é o olhar de dados (data gaze)?

DAVID BEER: O olhar de dados (data gaze) é um conceito destinado a pensar sobre os modos como vemos e somos vistos pelos dados. Assim, pretende-se pensar sobre os novos tipos de conhecimento que surgem, como eles se organizam e como formam as infraestruturas para que seja produzido conhecimento sobre nós, tanto as pessoas envolvidas nessas práticas quanto as ideias e os ideais que estão ligados aos dados que são extraídas de nossas vidas cotidianas de diferentes maneiras. Assim, o olhar de dados (data gaze) é uma tentativa de pensar sobre os novos tipos de conhecimento que emergem nesses dados extraídos e analisados.

 

DIGILABOUR: O que você chama de imaginário de dados?

BEER: Considero o imaginário de dados como uma espécie de ponta do iceberg do olhar de dados. Ele testa as coisas e abre espaços para que a análise de dados possa se espalhar ainda mais em nossas vidas. Então, o imaginário de dados é sobre o modo como pensamos sobre eles, os ideais subjacentes que estão ligados a eles. Assim, o imaginário de dados tem a intenção de pensar em como promessas poderosas são conectadas aos dados, como isso atrai as pessoas para a análise de dados e, mais ainda, permitindo que a análise de dados seja expandida e disseminada pelas organizações e instituições das quais nós fazemos parte. Portanto, esse tipo de olhar para a análise de dados pode ser distribuído pelo mundo social, pelas infraestruturas sociais e pelas organizações em que vivemos.

 

DIGILABOUR: Você pesquisou 34 empresas de análise de dados (data analytics). Quais os seus principais achados?

BEER: Eu usei a pesquisa com empresas de análise de dados como base para entender o imaginário de dados. Encontrei uma série de características desse imaginário que compreende os dados como rápidos, acessíveis e panorâmicos, que poderiam revelar as profundezas ocultas da vida cotidiana, e também das estruturas e organizações, daquilo tudo que foi considerado como smart. Então, esses tipos de características eram coisas que eu considerava promessas e ideais projetados atualmente, a fim de empurrar e espalhar práticas alternativas. E o que eu encontrei, enquanto analisava as infraestruturas e práticas de análise de dados, foi que esses ideais se tornaram parte do modo como as próprias infraestruturas foram criadas, codificadas e produzidas, e também do modo como as práticas foram moldadas de acordo com a visão daqueles que estavam envolvidos na análise de dados. Assim, o livro The Data Gaze usa essa base para pensar sobre o modo como os imaginários produzidos em torno dos dados se espalham nas infraestruturas e práticas de análise de dados, e como eles formam e conformam o ordenamento das coisas. Eu encontrei uma série de coisas sobre o olhar de dados e como ele pontua o lugar das coisas, ou seja, esse olhar de dados é um tipo de distribuição, não é como se você abrisse um espaço analítico como uma clínica. Eu usei o livro “O Nascimento da Clínica”, de Foucault, como comparação. Quando você entra em um espaço clínico, esse olhar clínico se espalhava pelas estruturas, o que torna o olhar cada vez mais difícil de escapar. Mas também isso continua tão vivo que, na verdade, hoje tudo isso volta-se para si próprio. Então, seu desempenho e seu progresso são constantemente monitorados, assim como suas próprias capacidades. As pessoas são monitoradas por seus próprios sistemas. Então, é como se tivesse um hype em cima da vigilância.

 

DIGILABOUR: Em livros anteriores, você tratou de políticas de circulação, circulação de dados e métricas, e circulação da cultura popular. Qual a contribuição dessa noção de circulação para a pesquisa em ciências sociais e humanas?

BEER: Quando eu escrevi Popular Culture and New Media: the politics of circulation, por volta de 2012, uma das coisas que notei foi que havia muito falatório em cima de expressões como mineração de dados e extração de dados, mas pareceu-me que o mais interessante era mesmo o modo como os dados voltavam para o mundo social, mudando-o. Então, nesse livro em particular, eu olho para o modo como os dados circulam ou voltam à cultura e mudam noções sobre o que é cultura, do que ela é feita, como pode ser compreendida… E há uma política de circulação acontecendo. Então, você pode entender como as coisas surgem ou se tornam visíveis, ou como as tendências acontecem. Você pode entender que a cultura se encontra com diferentes tipos de música, games ou filmes, centrando o estudo nessas circulações de dados e nos sistemas que sustentam essas circulações. Assim, esse livro analisou a maneira como as coisas são classificadas em arquivos, ou como os algoritmos criam sistemas que facilitam a circulação desses dados em nossas vidas. Eu percebi, então, que havia uma série de questões políticas relacionadas a esses modos de circulação. Aí eu foquei em questões de métricas e mensuração, no livro Metric Power, pensando nos tipos de dinâmicas políticas que circulam nas métricas de dados e como isso dita as formas e molda nossas vidas de maneiras diferentes. E particularmente eu estava pensando em como o poder é exercido por meio de métricas de dados. Portanto, essas circulações estão diretamente ligadas a questões políticas e de relações de poder. Quem controla essa circulação de dados? Como ela acontece? Como são os sistemas que sustentam essa circulação? São essas circulações de dados que realmente desafiam nossas vidas de muitas formas diferentes. E isso me levou finalmente ao livro The Data Gaze. O que eu queria fazer era, com essas circulações de dados acontecendo, distinguir quem são as pessoas e quais são os sistemas que estão intervindo nessas circulações de dados, quem é que está mediando, ou ainda, como essas circulações de dados são mediadas por sistemas e pessoas. Foi esse o caminho que percorri. E é por isso que eu acho que a circulação é importante, porque a circulação é o momento em que os dados voltam para o social, reformulando-o. Há processos circulatórios que são difíceis de entender, mas foi uma parte importante conceituar isso se você quer compreender o que se passa na cultura contemporânea.

 

Confira também outros textos do autor aquiaquiaqui e aqui.

iSlave e o Trabalho Digital na China: entrevista com Jack Qiu

O trabalho digital não é feito só de engenheiros e designers no Vale do Silício, mas também de trabalho escravo na China. Jack Linchuan Qiu, professor da Escola de Jornalismo e Comunicação da Chinese University of Hong Kong (CUHKtem se dedicado a pesquisar o trabalho digital na China. Em 2017, publicou o livro Goodbye iSlave: a manifesto for digital abolition. A partir de entrevistas com trabalhadores da Foxconn, Qiu mostra um “protótipo da escravidão no século XXI no contexto da indústria de mídias digitais” como indicativo de um sistema mais amplo, incluindo Appcon e o sistema de produção de gadgets pelo mundo. É o que chama de iSlave.

Jack Qiu chega a citar frases da Factory Gossip, revista dos trabalhadores da Foxconn: “Os empregados são como escravos e empregados de palácio. Os gerentes e escravos  morrem frequentemente nas mãos de eunucos sem nunca saber o que aconteceu. O caso raro de sobrevivência depende, inteiramente, da boa sorte“. Mas o iSlave também acontece nas formas de servidão voluntária e trabalho gratuito dos inúmeros usuários de mídias sociais.

O autor conversou com o DigiLabour. Confira alguns trechos em textos e ouça a entrevista na íntegra em áudio.

  • “É preciso re-historicizar o trabalho digital a partir de uma perspectiva do sul Global. Há uma divisão internacional do trabalho digital“;
  • “Talvez o modelo chinês possa ser melhor como um centro para um desenvolvimento sustentável e pró-trabalho comparado ao Vale do Silício. Mas também é provável que as práticas dos trabalhadores e seus modelos de negócios digitais também possam ser vistos como uma ameaça. Se a China pode se tornar um novo centro ou um novo colonizador, na verdade isso depende, por um lado, da relação externa com os EUA, mas de forma mais central, das relações entre classe dominante e classe trabalhadora na própria China“;
  • Shenzhen não é apenas um paraíso para o capitalismo digital, mas também um foco de ativismo dos trabalhadores“;
  • “O custo de produção de um smartphone da Tecno é entre 15 e 20 dólares, mas tem todas as funções completas de um smartphone normal e avançado”;
  • “O modelo da China ainda é complexo e internamente contraditório. Enquanto parte das empresas chinesas quer lucrar no mundo todo, a Tecno quer priorizar as necessidades locais. Acho que há potencial para algumas das empresas chinesas se transformarem em forças anticoloniais na área de trabalho digital“;
  • “No leste do Congo, onde os minerais do conflito são extraídos, no norte da China, onde a maioria dos minerais mais raros do mundo foi extraída, vemos esse tipo de trabalho escravo, no sentido clássico, de corpos humanos sendo possuídos, transacionados e descartados”;

 

Trabalho Digital no Sul Global

Shenzen, Vale do Silício do Hardware e Tecno

iSlaves

Plataformização e Dataficação do Trabalho na China

Circuitos de Trabalho

 

Leia outros textos de Jack Qiu aqui, aqui e aqui.

 

A Invisibilidade do Trabalho de Dados: entrevista com Jérôme Denis

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Nem só inovação e democracia, nem só reforço de desigualdades: os dados precisam ser estudados a partir de seus métodos reais de produção e circulação. Esse é o ponto de partida do livro Le travail invisible des données: eléments pour une sociologie des infrastructures scripturales, de Jérôme Denis, professor de sociologia da MINES ParisTech, lançado em 2018. Para ele, é preciso ressaltar os processos produtivos por trás dos dados. Os dados não caem do céu e o trabalho por trás deles é invisibilizado.

Confira a entrevista de Jérôme Denis ao DigiLabour:

 

DIGILABOUR: O que é o trabalho de dados e por que esse trabalho é invisível?

JÉRÔME DENIS: O termo “trabalho de dados” enfatiza todas as operações que são executadas antes do uso dos dados: tudo o que permite, em um determinado momento e local, que os dados existam e sejam processados. Essas operações podem ser muito variadas: limpeza, formatação, apreensão, configuração, entre outras. É no final dessas operações que os dados são “obtidos”, como diz Latour sobre as práticas científicas. Na maioria dos casos, esse trabalho é invisível para quem usa os dados. Há muitas razões para isso. A principal encontra-se, provavelmente, no modo de existência dos dados. Na ciência, por exemplo, muitos sociólogos e historiadores têm mostrado que os dados têm estabelecido sua força ao preço de apagar as condições de sua produção. Supõe-se que os dados sejam o ponto de partida para a atividade de conhecimento, o primeiro material de informação. Isso é evidenciado por metáforas que têm surgido com a emergência de métodos de big data e programas de dados abertos. Os dados são apresentados como recursos ou elementos naturais: “o petróleo do século XXI” ou dados que aparecem como se fossem um “dilúvio”. Eles estão sempre “lá”. Essa invisibilidade não é obrigatória. Poderia ser de outra forma, mas ela está presente e contribui centralmente para as dificuldades enfrentadas pelos trabalhadores de dados, bem como seus usuários.

 

DIGILABOUR: Quais as principais diferenças no trabalho de dados em um banco e em uma startup?

DENIS: Eu uso esses dois estudos de casos para destacar dois aspectos centrais do trabalho de dados. No caso do banco, considera-se que os dados estejam presentes nos arquivos que os clientes preenchem nas agências, e que as pessoas responsáveis por verificar esses dados e inseri-los nos sistemas de informação estejam fazendo um trabalho simples e que pode ser automatizado em curto prazo. A suposição aqui é a de que os dados circulam de maneira fluida de um ponto a outro em uma organização. Nossa pesquisa etnográfica mostra que essa visão não só está em desacordo com a atividade dos caixas de banco como também impede operações de ajuste das situações. Mas é essa visão que dita os termos do gerenciamento do trabalho no banco. Já a startup procura obter o que imagina ser os dados das pessoas numa cidade. Isso ilustra outro pressuposto sobre os dados: sua disponibilidade e sua própria existência. O trabalho de dados aparece aqui como uma obrigação. As informações existentes nas prefeituras sobre infraestruturas de ciclovias não podem ser considerados como dados pelos responsáveis pela startup. Para fazer existir esses dados, temos que concordar em gerá-los, o que já está sendo feito em parte graças ao OpenStreetMap (projeto de mapeamento colaborativo).

 

DIGILABOUR: Você afirma que o fluxo de dados é um instrumento da organização. O que isso quer dizer?

DENIS: Um dos objetivos do livro “O trabalho invisível dos dados” era reconsiderar a afirmação recorrente de que vivemos na era dos dados, como se isso fosse uma coisa totalmente nova ou até mesmo uma revolução. Muitos livros de História mostram que as organizações modernas estruturam-se enrijecendo seus circuitos de comunicação e investindo na circulação de escrituras padronizadas dispostas em associações cada vez mais complexas. Os dados são parte de uma história antiga e formados há muito tempo. Tenho chamado isso de “infraestruturas escriturais”. A mecanização dessa circulação contribuiu para a invisibilização do trabalho que torna tudo isso possível.

 

DIGILABOUR: O que seria o neopositivismo de dados e quais suas características?

DENIS: O neopositivismo de dados consiste em dar aos dados valores intrínsecos de neutralidade e mesmo de evidência. Essa é uma expressão um tanto caricatural, mas que aponta para uma tendência recente de se esquecer que os dados são sempre produzidos sob condições específicas, em torno de problemas particulares e que seu compartilhamento e reuso sempre exigem transformações e ajustes. No final do livro, tento mostrar que, em contraponto a esse positivismo, podemos adotar uma definição transacional de dados. Eles não são “coisas” identificáveis de antemão, mas o resultado de um processo de produção e troca.

 

DIGILABOUR: E no que consiste essa definição transacional de dados?

DENIS: Adotar uma definição transacional de dados é substituir a questão abstrata “o que são dados?”, para a qual não há nenhuma resposta consensual, pela pergunta concreta: “quando é um dado?”. Isso quer dizer que, em alguns casos, os dados são “obtidos”, no sentido de Latour, mas também são “dados”, como ponto de partida, em outros casos. Isso ajuda a entender, por exemplo, que uma foto é um documento para alguns, enquanto pode ser um dado para outros. Essa é uma postura agnóstica, que se recusa a defender uma posição normativa em relação à natureza dos dados, mas permite, por outro lado, estar atento ao que conta como um “dado” em uma ou outra situação particular. E a ideia do livro é dizer que, em geral, o que conta como um dado é definido no mesmo movimento em relação ao que conta como trabalho.

DIGILABOUR: Quais os riscos da invisibilização do trabalho de dados?

DENIS: O apagamento do trabalho de dados tem dois riscos principais. Em primeiro lugar, reforça as dificuldades daqueles que trabalham com isso, como o caso do banco. Assumir que as operações necessárias para a existência e a circulação de dados são triviais e não envolvem trabalho real leva a situações muito delicadas em que os trabalhadores estão constantemente lutando para realizar seu trabalho, apesar dos constrangimentos. Isso, então, pesa na qualidade dos dados e na pertinência de sua utilização. Em segundo, considerar os dados como se tivessem caído do céu, não se dar ao luxo de entender as condições de sua fabricação e os ajustes necessários à sua circulação é fazer dos dados caixas pretas que não controlamos.

 

Você pode conferir outra entrevista do autor aqui (em francês) e outros textos em inglês aqui e aqui.

Tempo e Tecnologia como Práticas Sociomateriais: entrevista com Judy Wajcman

 

Judy Wajcman é professora da London School of Economics e tem se dedicado a investigar questões de tecnologia, tempo, gênero e trabalho. Entre seus livros mais famosos, estão TechnoFeminism (2004 – em espanhol aqui) e Pressed for Time: the acceleration of life in digital capitalism (2015). Wajcman considera a tecnologia como prática sociomaterial, resultado de uma série de decisões concretas tomadas por grupos em tempos e espaços concretos. Da mesma forma, as práticas temporais também são sociomateriais, e a organização social do tempo depende de questões de gênero e classe. Assim, as práticas tecnológicas e temporais afetam a vida de trabalhadoras e trabalhadores.

Recentemente, Judy Wajcman escreveu uma ácida resenha sobre três livros ligados ao futuro do trabalho. Diz que eles estão aparecendo aos montes, e sempre da mesma maneira. Alguns pontos da resenha:

  • Há evidência de que os algoritmos de machine learning, assim como outras tecnologias, têm a marca de seus designers e de sua cultura, reforçando desigualdades de gênero, raça e classe;
  • Antes de pensar no “futuro do trabalho”, é preciso encarar a questão real e presente da distribuição desigual de trabalho, tempo e dinheiro;
  • É preciso insistir que os futuros são sempre sociais, de maneiras que órgãos públicos e a sociedade civil tomem esse tema também para si, não deixando-o somente na mão de “futuristas” e “empreendedores”.

Em sua pesquisa mais recente, a partir de entrevistas com engenheiros, Wajcman trata dos calendários digitais como parte de uma racionalidade mais ampla do Vale do Silício de “gestão eficiente do tempo”, procurando otimizar a “produtividade” e minimizar o desperdício de tempo” (você pode conferir os textos aqui e aqui).

Conversei por Skype com Judy Wajcman sobre esta última investigação e também sobre tópicos que marcaram sua trajetória: tecnologia, aceleração, tempo e trabalho, e como essas questões são atravessadas por relações de gênero. Confira abaixo em texto e áudio:

 

DIGILABOUR: Conte-nos um pouco sobre sua pesquisa mais recente envolvendo os calendários digitais e o projeto do Vale do Silício em relação à tecnologia e ao trabalho.

JUDY WAJCMAN: Há algo na cultura do Vale do Silício que valoriza hiperprodutividade e jornadas de trabalho muito extensas. Os valores primários do Vale do Silício se relaciona, de alguma forma, ao uso eficiente e produtivo do tempo, para maximizar todo o tempo de trabalho no próprio ambiente de trabalho. E os calendários digitais são projetados para otimizar o tempo e agendar as coisas, assim as reuniões podem ser organizadas da maneira mais eficiente possível. Uma das minhas preocupações é que, de alguma maneira, isso exacerba esse tipo de ideologia de produtividade, eficiência e cultura workaholic, e não incentiva que o tempo seja gasto com outras coisas. Eu presumo, quase completamente, que as pessoas que trabalham nessas empresas do Vale do silício são basicamente jovens e principalmente do sexo masculino, e certamente sem filhos, podendo dedicar-se muito a longas horas de trabalho. E os calendários e algoritmos são projetados para maximizar a eficiência tanto do trabalho quanto do lazer. Eu tenho tentado apreender o que chamo de ethos do Vale do Silício. Por um lado, é a ideia de que a coisa mais importante na vida é trabalhar e trabalhar duro, e isso é realmente uma crença incrível no progresso tecnológico e no uso das tarefas automatizadas. Por outro lado, muita energia é gasta na automação em vez de pensar na qualidade do trabalho ou de empregar pessoas. A outra coisa que eu pensei é o fato de que, em certa medida, todos esses locais de trabalho presumem que muitos trabalhadores de serviço estarão a seu dispor. O que é raro de ler sobre as grandes empresas são sobre limpadores, cozinheiros, motoristas da Uber, todo esse trabalho massivo que é muito mal pago.

DIGILABOUR: Em seu livro mais recente, Pressed for Time, você relaciona tecnologia e tempo a partir de uma perspectiva sociomaterial. O que isso quer dizer exatamente?

WAJCMAN: Antes que tivéssemos relógios com pêndulos, as pessoas viveram a maior parte da História da humanidade sem sequer ter uma ideia do que era um “segundo”, ou o que era um “minuto”. Depois, muito foi escrito sobre Modernidade e o papel crucial dos relógios, sobre ferrovias, telégrafo, fábricas, inclusive teorias marxistas sobre tempo de trabalho. Quero dizer que tudo depende de máquinas serem máquinas precisas de cronometragem. E é isso o que eu quero dizer com materialidade social. Se vivêssemos em um mundo sem máquinas de tempo precisas, o mundo seria um lugar diferente. Nós meio que assumimos que o modo como pensamos sobre o tempo em termos de minutos e segundos é algo natural, mas, na verdade, isso tem apenas algumas centenas de anos. Essa noção de tempo é uma construção histórica de tempo. Essa forma suave e progressiva de tempo que nós temos é uma noção da Modernidade. Isso não está no livro, mas um dia desses um colega turco veio me visitar no trabalho e me contou sobre um romance turco que eu nunca tinha ouvido falar, chamado Instituto para a Regulação do Tempo [The Time Regulation Institute, de Ahmet Hamdi Tanpınar]. É sobre como a Turquia adotou a cronometragem ocidental e sobre o quão emblemático isso era para todo o projeto de modernidade. Uma parte do processo de tornar-se moderno era adotar o horário ocidental e as práticas ocidentais de cronometragem. Isso é muito interessante porque é uma espécie de noção cultural do tempo que é, então, imposta ao mundo inteiro. Se você não adotar o tempo ocidental, você não está “sendo moderno”, não entra no “mundo moderno”. Isso é pensar de forma sociomaterial. As máquinas ditam o tempo. Nós contamos o tempo a partir de máquinas.

DIGILABOUR: E esse tipo de perspectiva nos ajuda a desconstruir a ideia de uma aceleração do tempo diretamente ligada às tecnologias…

WAJCMAN: Quando eu estava escrevendo o livro, queria desmistificar essa noção de aceleração. Parece-me que muitas das teorias sobre aceleração são deterministas tecnologicamente. Elas assumem que a aceleração é simplesmente impulsionada pelas próprias tecnologias. E o que eu estava tentando dizer é que nós vivemos em uma cultura que valoriza a produtividade, os negócios, que desvaloriza o lazer e o desperdício de tempo. É a cultura em que estamos e é a partir dessa cultura que desenvolvemos tecnologias. As tecnologias que desenvolvemos tanto refletem quanto impulsionam a sociedade. O fato de termos muitas tecnologias voltadas para eficiência relaciona-se à valorização da eficiência na sociedade. Estamos, de maneira infinita, projetando tecnologias para tornar as coisas mais rápidas porque valorizamos muito a velocidade. Então, não são as tecnologias em si, mas o modo como valorizamos essas coisas. Por exemplo, se você pensar nas operações do mercado financeiro. Isso poderia ser operado de forma mais lenta, e não é a tecnologia que está deixando isso mais rápido. É que os operadores mais rápidos são os que obtêm mais lucros, e todos estão competindo para lucrar mais que o outro.

DIGILABOUR: Você tem uma trajetória de pesquisa relacionando questões de gênero aos temas do mundo do trabalho e da tecnologia. Como as relações de gênero têm aparecido em suas pesquisas mais recentes?

WAJCMAN: Se você olhar para quem trabalha nas empresas de tecnologia do Vale do Silício, são, em sua maioria, empresas masculinas. Há muito sexismo e exclusão das mulheres em trabalhos na área de tecnologia. Assim como os negros são muito sub-representados em termos da força de trabalho na área de tecnologia no Vale do Silício. Encontramos muitas mulheres e, claro, muitos hispânicos e negros no trabalho de serviços, nos empregos mal remunerados. Então, você poderia dizer que há uma divisão de trabalho nesses lugares. A outra coisa é que muitas pessoas agora tem falado sobre como muitos robôs acabam assumindo uma forma feminina. Muitas das máquinas da internet das coisas que agora estão em casa têm vozes femininas. E vozes femininas muito agradáveis para torná-las mais aceitáveis em casa. Isso faz parecer tudo confortável, que as máquinas estão te ajudando, fazendo com que você se esqueça de todas as tecnologias de vigilância, que estão coletando seus dados para venda. As pessoas deveriam estar muito mais conscientes da coleta de dados quando elas possuem coisas que ecoam em suas salas de estar, mas, de alguma forma, a voz feminina ajuda a suavizar essa coleta de dados.

Calendários Digitais e Projeto do Vale do Silício

Tecnologia como Prática Sociomaterial

Desmistificando a “Sociedade da Aceleração”

Gênero, Trabalho e Tecnologia

 

Confira também palestras de Judy Wajcman aquiaqui, e aqui.

 

 

“Um modo de evitar tornar-se uma máquina é celebrar nossa estranheza”: entrevista com Douglas Rushkoff

 

Em seu novo livro, Douglas Rushkoff clama pela centralidade dos seres humanos nos debates sobre tecnologia

 

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A tecnologia é criada pelos seres humanos, que são sujeitos de linguagem, comunicação e colaboração. Mas o debate tecnológico apresenta uma agenda que coloca as máquinas como centrais. Isso poderia ser dito por autores como Raymond Williams ou Álvaro Vieira Pinto. Mas é Douglas Rushkoff que recoloca a questão em discussão em seu novo livro, Team Human, baseado em seu podcast.

Professor de Teoria da Mídia e Economia Digital na City University of New York, Rushkoff é conhecido por livros como Cyberia, Present Shock e Ecstasy Club e por cunhar termos como media virus. Ao longo de sua trajetória, foi considerado um dos herdeiros de Marshall McLuhan e Neil Postman. Em 2013, foi indicado pelo MIT como o sexto pensador mais influente do mundo.

Em Team Human, o autor escreve um manifesto em favor da recuperação da autonomia humana na era digital frente ao “time da inteligência artificial”. Segundo ele, trata-se de não reprimir nossa criatividade em favor das previsões automatizadas. Confira a entrevista de Douglas Rushkoff ao DigiLabour:

 

 

DIGILABOUR: Seu livro mais recente, Team Human, é um manifesto sobre a importância dos seres humanos em meio a discussões sobre o predomínio da inteligência artificial. Qual o papel do mundo do trabalho em seu debate?

DOUGLAS RUSHKOFF: Bom, o problema das discussões da “indústria 4.0” sobre inteligência artificial e futuro do trabalho é que  todos eles avaliam os seres humanos em termos de seu valor de utilidade. “Quanto trabalho ou produtividade podemos criar?”. “Como conseguimos empregos para pessoas?”. “Como as pessoas podem competir com as máquinas?” Essas questões são baseadas em algumas noções bastante antigas sobre o que torna uma pessoa valiosa ou se elas valem o ar que estão respirando. É a lógica das corporações, que veem os seres humanos apenas como mais um recurso para explorar. Nós criaremos um novo ambiente para o trabalho quanto entendemos que ele é uma maneira de servir outras pessoas. Não trabalhamos simplesmente para justificar a participação nos espólios do capitalismo. Nós trabalhamos para fazer alguma coisa. Essa é uma noção muito antiga, eu admito. Mas imagine se as pessoas trabalhassem para realizar coisas? Seria muito mais eficiente.

 

DIGILABOUR: Você diz que precisamos reconhecer que ser humano é um “esporte coletivo”. Qual o papel da colaboração e da cooperação na reconstrução do “time humano”?

RUSHKOFF: A colaboração é o objetivo do “Time Humano”, assim como a maneira de chegarmos lá. Colaboração e cooperação são atividades humanas essenciais. Ao colaborarmos, restauramos nosso senso de conexão e florescimento mútuo. Estabelecemos relações, conquistamos reconhecimento, construímos solidariedade e ganhamos poder. As mídias sociais e as empresas por trás delas estão nos atomizando e nos separando, de modo que dependemos dessas mídias, ao invés de uns aos outros. Quanto mais genuinamente sociais formos, menos medo teremos uns dos outros. Quanto mais nos engajamos por meio dessas plataformas de mídias sociais, mais somos influenciados por seus muitos esforços para nos deixar com medo uns dos outros. Quanto mais nos conectamos e colaboramos no mundo real, menos vulneráveis somos às maquinações dessas redes. A colaboração usa nossas faculdades superiores, nosso córtex frontal. Essa é a parte do cérebro que as redes sociais não querem que usemos. É a parte do cérebro que nos impede de querer somente matar uns aos outros.

 

DIGILABOUR: Como podemos nos reapropriar coletiva e autonomamente das plataformas digitais e dos algoritmos?

RUSHKOFF: Bem, para começar, você deve ter um motivo para querer usar um algoritmo ou uma tecnologia digital. Isso é realmente difícil de entender na visão de muitas pessoas: não use algo a menos que isso te ajude de algum modo. Se a tecnologia te machuca e não te serve, você deve pensar por um momento: eu quero me sentir mal comigo mesmo? Quero me sentir deprimido? Quero me desconectar de outras pessoas? Se a sua resposta é sim, então vá em frente. Use as plataformas e tecnologias que fazem você se sentir mal. Mas se a resposta for não, então pense por um minuto antes de usá-las. Se você é um desenvolvedor tecnológico positivo e pró humano, comece por pensar as necessidades humanas. Não pense “como posso fazer com que as pessoas usem meu serviço?” ou “como posso extrair dados das pessoas e vendê-los aos anunciantes?”. Em vez disso, pergunte: “do que as pessoas precisam e como uma tecnologia pode ajudá-las?”. Depois de pensar em uma tecnologia que atenda a uma necessidade básica, você deve criá-la de maneira a levar em conta o livre-arbítrio dos usuários e os direitos trabalhistas. Então, se você estiver produzindo um aplicativo de transporte, não faça com que seus motoristas vão à falência. Em vez disso, pense em compartilhar a propriedade da empresa com os motoristas. Essa é a ideia básica de igualdade econômica. Eles investem o seu suor e deveriam possuir parte da empresa. Se você está desenhando uma rede social, o truque não é tentar fazer lavagem cerebral nos usuários. Não tente controlar suas ações. Não os hipnotize. Não importe esses algoritmos das máquinas caça-níqueis de Las Vegas para viciar os usuários. Em vez disso, fique satisfeito se eles usarem a plataforma quando precisarem, e não porque você os viciou.

 

DIGILABOUR: No livro, você critica a “cultura memética” e afirma que “os fins nem sempre justificam os memes”. Como vocês enxerga os memes na comunicação contemporânea?

RUSHKOFF: Eu acho que os memes são bons para o humor, mas não para muito mais do que isso. Eles são muito manipuladores. Nós os usamos contra as faculdades superiores uns dos outros. Eles são produzidos principalmente para sairmos de nossas mentes pensantes e agirmos como um réptil. Atacam o tronco cerebral. Nos fazem pensar em termos de luta ou fuga (fight or flight), ou humilhação e ódio. Então, realmente, não vejo nenhuma função para a guerra memética neste momento. Estou mais interessado em fortalecer nosso sistema imunológico cultural para que possamos resistir aos memes.

 

DIGILABOUR: O que você chama de “mecanomorfismo”?

RUSHKOFF: Queremos ser como nossas máquinas, porque realmente não gostamos mais de seres humanos. Nós pensamos em nossas máquinas como nossos superiores. Eles fazem tudo mais rapidamente. Nós tendemos a olhar para a criatividade dos seres humanos como uma espécie de “ruído”. É como se tudo o que as pessoas pudessem fazer é acrescentar uma distorção a um sistema perfeito. Mas isso não é verdade. Nós precisamos ver a criação humana como fonte de arte e novas soluções para antigos problemas. Um modo de evitar tornar-se uma máquina é celebrar nossa estranheza. Curta o inexplicável. Abrace o paradoxo.

 

DIGILABOUR: Como você defende o “time humano” sem que isso pareça uma utopia?

RUSHKOFF: Acho interessante que simplesmente imaginar um futuro que inclua humanos seja considerada uma utopia. Mas talvez isso mostre como as esperanças foram perdidas. Eu realmente acredito que é possível que a espécie humana sobreviva para além do fim do século XXI. Nós realmente podemos. Eu não acho que isso seja algo irracional. Nós podemos sobreviver se trabalharmos juntos. Sei que parece mais provável que todos nós morramos ou que continuaremos a ficar mais alienados em relação aos outros. Mas também há alguma possibilidade real de que alguns de nós escolham se unir aos seres humanos e até mesmo defender a humanidade e a vida contra o capitalismo digital que tenta nos destruir. Eu não acredito que chegaremos a uma utopia, mas acho que temos uma boa chance de sustentarmos nossa civilização por mais um século. E até melhorá-la.

Ghost Work: entrevista com Mary L. Gray

Pesquisadora da Microsoft mostra os trabalhadores invisíveis por trás da inteligência artificial

Mary L. Gray é antropóloga e pesquisadora da Microsoft, com trajetória de investigação relacionada a pessoas queer e novas mídias. Em seu próximo livro, a ser lançado em maio, Gray juntou-se ao cientista da computação Siddharth Suri para investigar os trabalhadores invisíveis por detrás da chamada inteligência artificial. Em Ghost Work: How to Stop Silicon Valley from Building a New Global Underclass, eles mostram que, mais do que pensar em futuro do trabalho, devemos nos preocupar com o presente desses trabalhadores. Em entrevista à DigiLabour, Mary L. Gray fala sobre:

Trabalho Fantasma

Inteligência Artificial não existe sem trabalhadores

(Não) Inteligência Artificial (comentário sobre este livro)

Mito da Flexibilidade: a inflexibilidade dos trabalhadores por trás da inteligência artificial

Discursos sobre Futuro do Trabalho

Como Impedir que o Vale do Silício Construa uma Nova Subclasse Global