“É simplista definir o trabalho digital exclusivamente como um trabalho de clique”: entrevista com Sebastien Broca

Sebastien Broca é professor da Universidade Paris VIII e autor do livro L’utopie du logiciel libre. É integrante de rede europeia  de estudos sobre trabalho digital e tem se dedicado a escrever sobre commons digitais e a questão do trabalho digital. Confira a entrevista:

 

DIGILABOUR: Quais são as suas críticas às pesquisas sobre trabalho digital e o que propõe como alternativa?

SÉBASTIEN BROCA: Em primeiro lugar, gostaria de dizer que a pesquisa que se ancorou em torno do conceito de trabalho digital é, em minha opinião, interessante e positiva em muitos aspectos. Elas ajudaram a destacar aspectos do capitalismo digital que foram insuficientemente tratados na pesquisa acadêmica e no debate público. Por exemplo, a importância econômica do trabalho não assalariado e do trabalho não pago, a competição e a precarização do trabalho, a indefinição entre trabalho e não trabalho, combinando com a ascensão do modelo de plataforma. No debate francês, os trabalhos de Antonio Casilli permitiram trazer questões importantes, que vão além do problema da “uberização”, sobre o qual o debate público tem se concentrado há muito tempo. Hoje estamos falando cada vez mais sobre o microtrabalho nos programas de inteligência artificial, o trabalho dos moderadores de conteúdo e o trabalho gratuito de produção de conteúdo pelos usuários das redes sociais. Isso deve ser creditado à pesquisa sobre trabalho digital. Minhas reservas dizem respeito à tentação de igualar essas várias atividades dentro de uma categoria falsamente homogênea. Então, eu não acho que temos que ver o trabalho digital como um tipo único de trabalho. É simplista definir o trabalho digital exclusivamente como um “trabalho de clique” repetitivo e fragmentado feito em um computador ou smartphone. Parece-me que esmaga a diversidade e a complexidade das atividades que estão sendo discutidas. Um motorista do Uber faz mais do que apenas um “trabalho de clique”: ele também dirige o carro, coloca e tira a bagagem, conversa com seus passageiros. Outro exemplo: os voluntários que produzem os dados dos jogadores do game Football Manager também realizam uma forma de trabalho digital. Mas seu envolvimento não se reduz ao “trabalho de clique”: consiste em inserir dados em um banco de dados. Antes disso, essas pessoas tiveram que assistir a jogos e treinamentos dos clubes pelos quais são responsáveis, discutir em fóruns para justificar as pontuações dadas a um determinado jogador, entre outras tarefas. Em resumo, eu considero útil a noção de trabalho digital por circunscrever um campo original de pesquisa, mas problemático quando isso leva a apagar as diferenças entre atividades tão diversas quanto dirigir um Uber, trabalhar na Amazon Mechanical Turk, postar um vídeo em uma rede social ou classificar jogadores para um game. Esse problema é tão científico quanto político. As lutas sociais contra o trabalho digital variam em função das atividades em jogo: alguns motoristas da Uber pedem, legitimamente, para serem requalificados como trabalhadores da plataforma, mas seria absurdo que os dois bilhões de usuários que fornecem dados e conteúdos para o Facebook peçam para se tornar trabalhadores de Mark Zuckerberg. Portanto, precisamos fazer distinções específicas dentro do campo dedicado à pesquisa do trabalho digital.

 

DIGILABOUR: Como você vê as críticas liberais e marxistas em relação ao capitalismo digital?

BROCA: Eu acho que a principal diferença entre esses críticos são seus temas preferidos. Os liberais concentram-se em questões de liberdade de expressão, privacidade e acesso ao conhecimento. Sua principal âncora normativa é a defesa da autonomia individual frente o poder do GAFAM (Google, Apple, Facebook, Amazon, Microsoft) e os Estados. Isso pode ser visto em vários defensores das liberdades digitais e em alguns trabalhos recentes, como o de “capitalismo de vigilância”, de Shoshana Zuboff. Podemos dizer que a evolução iliberal da internet tornou essas críticas cada vez mais veementes nos últimos anos. Os críticos da tradição marxista, lato sensu, por sua vez, concentram-se em questões relacionadas à exploração de trabalho, à distribuição desigual do valor econômico e à erosão das formas de proteção social. Aqui, novamente, as recentes dinâmicas do capitalismo digital tendem a acentuar essas críticas e torná-las mais necessárias do que nunca. O desenvolvimento de pesquisas em torno do trabalho digital é uma boa ilustração. Meus interesses de pesquisa estão mais de acordo com os temas da crítica “marxista”. Mas acho que existem certas complementaridades entre esses críticos, que devem ser desenvolvidas. Assim, defender as liberdades online sem analisar o poder econômico do GAFAM e as mudanças no trabalho podem, em minha opinião, apenas tornar o discurso crítico em algo inofensivo, e ação política, inoperante. Como lutar contra as violações de liberdade de expressão das grandes plataformas, sem analisar os desafios enfrentados pelos moradores de conteúdo em uma economia baseada na publicidade? Como criticar essas formas de moderação de conteúdos sem levar em conta o fato de que trata-se de uma parcela terceirizada de trabalhadores precários? Como você deseja preservar a privacidade online sem questionar as estratégias de lucro que tornam a exploração massiva de dados pessoais uma necessidade econômica estrutural?

 

DIGILABOUR: O que você entende por “epistemologia do código”?

BROCA: Quando falei sobre epistemologia do código, estava tentando pensar sobre como as tecnologias digitais estão mudando a produção de conhecimento, especialmente no contexto de humanidades digitais. A ideia geral é dizer que as ferramentas computacionais não são simplesmente instrumentos “neutros”, sem influenciar a orientação epistemológica da pesquisa em desenvolvimento. Essas técnicas trazem consigo uma certa visão de mundo e uma certa representação das exigências específicas para a produção do conhecimento científico. Em outras palavras, há o que se permite ou não se permite fazer “concretamente”. E há também – não devemos esquecer disso – todo o imaginário carregado por essas técnicas. Elas, portanto, tendem a favorecer um regime de cientificidade baseado na agregação de informações, e não no confronto de pontos de vista, a fim de construir o mundo como um conjunto de elementos bem distintos e determinados, para valorizar os grandes projetos colaborativos em detrimento do trabalho solitário do pesquisador. A epistemologia do código é tudo isso

 

DIGILABOUR: Por que, em sua visão, projetos baseados em commons apresentam ambiguidades?

BROCA: Há certas ambiguidades em torno da noção de commons por seu significado ser muito amplo, e também porque, em uma perspectiva de movimentos sociais, a defesa de commons agrega atores bastante heterogêneos. Eu vou dar dois exemplos. O primeiro diz respeito à relação entre os commons digitais, como software livre e Wikipedia e o capitalismo digital. Hoje, sabemos que esses recursos são usados de várias maneiras pelo GAFAM, seja porque sua infraestrutura técnica funciona com software livre, ou porque o Google, por exemplo, aprimora o serviço que fornece aos usuários por meio da Wikipedia. O que os defensores dos commons pensam dessa situação? Alguns acreditam que não é problemático, desde que as empresas cumpram as licenças, como Creative Commons, associadas a este commons e não privatizem. Basicamente, desde que o software permaneça “livre” e a Wikipedia permaneça acessível a todos, não há problema! Outros lamentam que esses commons sejam transformados em commons do capital, e apontam para o fato de que grandes empresas geralmente se comportam como “clandestinas”. Lucram com os recursos comuns, e financiam pouco ou quase nada a produção. Uma segunda ambiguidade diz respeito à relação com o Estado. É prática corrente apresentar os commons como uma espécie de terceira via, à distância tanto do Estado quando do mercado. É claro, além disso, que há uma forte inspiração libertária no movimento dos commons, que foi construído em reação tanto aos becos sem saída do “comunismo real” quanto à excessiva verticalidade do Estado social fordista. Isso não nos diz, no entanto, como esse movimento poderia ou deveria estar articulado ao Estado no futuro. Alguns acreditam que não há nada mais a esperar do Estado e que, irremediavelmente, o neoliberalismo ganhou. Outros, ao contrário, defendem uma “comunalização” dos serviços públicos e do Estado social, e tentam pensar em maneiras pelas quais as políticas públicas poderiam encorajar o desenvolvimento de commons.

 

 

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