“Com um mercado rico em dados, nos concentraremos em tarefas realmente humanas” – Entrevista com Viktor Mayer-Schönberger

Professor de Governança e Regulação de Internet na Universidade de Oxford, Viktor Mayer-Schönberger é autor do premiado livro Delete: the virtue of forgetting in the digital age, com uma defesa do direito ao esquecimento. Também escreveu Big Data: como extrair volume, variedade, velocidade e valor da avalanche de informação cotidiana, traduzido para o português (leia em inglês aqui). Em seu livro mais recente, Reinventing Capitalism in the Age of Big Data, de 2018, Mayer-Schönberger, afirma que os dados estão substituindo o dinheiro como condutor do mercado e que um mercado rico em dados pode nos fazer concentrar em tarefas realmente humanas e deixar atividades repetitivas para decisões automatizadas. Confira a entrevista:

 

 

DIGILABOUR: O que significa realmente reinventar o capitalismo na era do Big Data?

VIKTOR MAYER-SCHÖNBERGER: O argumento principal do livro é o de que os mercados são mecanismos fenomenalmente capazes e resilientes de coordenação social. Mas, para que os mercados funcionem bem, muita informação precisa fluir. Na era analógica, isso era impossível, e por isso precisávamos diminuir a necessidade de fluxos de informação reduzindo todas as nossas preferências e necessidades em números únicos, o preço, para uma comparação simples e direta. Isso funcionou, mas somente até certo ponto – reduzir a complexidade do mundo a um único número obviamente omite detalhes e pode levar a decisões erradas. É por isso que os mercados nunca atingiram seu potencial. Mas na era dos dados, agora podemos trocar informações ricas e abrangentes sobre nossas preferências e traduzi-las em ações, graças à inteligência artificial, por exemplo. Isso leva a melhores combinações. Finalmente conseguimos o que realmente queremos, e não apenas o que é mais barato nos mercados. Como resultado, os mercados finalmente atingem todo o seu potencial de coordenação humana. Mas isso significa que preço e dinheiro se tornam menos importantes. Nós ainda pagamos com dinheiro, mas o pagamento é um negócio de commodities. Da mesma forma, as empresas sentirão a pressão porque sua eficiência não acompanhará a do mercado. Isso significa o fim da empresa tradicional e enorme que dominou o século XX.

 

DIGILABOUR: O que você tem a dizer sobre o Big Data no mundo do trabalho?

MAYER-SCHÖNBERGER: O Big Data nos permite fazer melhores decisões. Isso oferece uma enorme vantagem, porque a melhoria na tomada de decisões afeta muitos aspectos de nossas vidas cotidianas. Mas a tomada de decisões é algo que vemos como uma função profundamente humana. Afinal de contas, muito do trabalho manual já é automatizado há bastante tempo. Há um cálculo nisso tudo. Nós humanos acreditamos sermos imunes à automação em áreas de gestão, especialmente em relação à tomada de decisões. Se o Big Data e a inteligência artificial automatizarem a tomada de decisões também, isso colocará em risco as tarefas intermediárias de gestão, que se concentram em tomadas de decisão de rotina.

 

DIGILABOUR: Você fala em mercados ricos em dados. Como isso nos impacta?

MAYER-SCHÖNBERGER: Mercados ricos em dados são mercados em que informações ricas e abrangentes sobre preferências e necessidades podem ser trocadas e traduzidas a partir de decisões a baixo custo e com alta precisão. Os mercados ricos em dados são o oposto dos mercados baseados em preços, nos quais há pouca informação além do preço. Com mercados ricos em dados, poderemos escolher se queremos resolver um problema ou delegar uma decisão à inteligência artificial. Isso nos libera para nos concentrarmos nas decisões que realmente importam para nós seres humanos.

 

DIGILABOUR: Podemos dizer que você é um otimista em relação ao uso de dados e algoritmos em nossa vida cotidiana…

MAYER-SCHÖNBERGER: Não tenho certeza se sou otimista. Em Reinventing Capitalism in the Age of Big Data, eu pinto uma imagem muito obscura e sombria de um mundo que poderia ser dominado por poucas e grandes superstars mundiais, com uma ausência generalizada de inovação. É um mundo que é vulnerável e pode quebrar como um todo. Assim, há enormes desafios à medida que organizamos mercados ricos em dados e precisamos garantir que eles sejam descentralizados na estrutura. Mas, se acertarmos isso, sou um otimista mesmo: desta forma, o mundo se tornará mais humano, pois seremos capazes de nos concentrar em tarefas realmente humanas e deixaremos as repetitivas para as máquinas.