Abolir o Vale do Silício: entrevista com Wendy Liu

 

b9f53b6b-abf4-4214-8c93-d5e6b5da73f2

 

Cientista da computação, Wendy Liu trabalhava com programação, e desde 2017 escreve sobre tecnologia e trabalho a partir de uma perspectiva de esquerda. Alguns textos dela aqui, aqui e aqui. Atualmente, está escrevendo um livro chamado Abolir o Vale do Silício. Em entrevista ao DigiLabour, fala sobre tecnologia de um ponto de vista de esquerda, a organização dos trabalhadores de tecnologia e o que significa abolir o Vale do Silício.

 

DIGILABOUR: Qual seria uma agenda socialista para as tecnologias?

WENDY LIU: Em primeiro lugar, é importante ir além de binarismos. A tecnologia não é boa nem má. Devemos criar o hábito de separar a tecnologia, em sua forma abstrata, do modo como ela está sendo usada devido ao sistema socioeconômico. O fato de um tipo particular de tecnologia facilitar a opressão ou a exploração em nossa atual ordem mundial não significa que haja algo intrinsecamente ruim sobre a tecnologia. Em vez disso, devemos especificar a relação de dominação existente envolvendo a tecnologia. Grande parte da tecnologia que existe no capitalismo tem outras aplicações, muitas das quais poderiam ser diretamente relevantes para fins socialistas. A questão é liberar essa tecnologia dos usos para os quais ela está sendo usada atualmente. Os algoritmos da Uber, os sistemas de logística da Amazon, a infraestrutura incrivelmente complicada que nos permite interagir uns com os outros na internet… essa tecnologia atualmente está trancada dentro das corporações, gerando lucro às custas de servir ao bem público. Como Leigh Phillips e Michal Rozworski escrevem em seu livro mais recente, People’s Republic of Walmart, essa tecnologia pode ser a chave para pensar qualquer visão socialista que inclua controle em larga escala sobre os meios de produção. O desafio para a esquerda, então, é elaborar uma estratégia que tome para si essa tecnologia, o que provavelmente envolverá o apoio daqueles que já trabalham na indústria de tecnologia, e que possuem conhecimento relevante sobre o assunto. Portanto, acho que um projeto paralelo é os trabalhadores de tecnologia se organizarem, a ponto de constituírem uma força poderosa dentro das corporações, exigindo maior controle sobre a tecnologia. Isso poderia complementar o objetivo de alcançar um controle mais democrático sobre a tecnologia, como um primeiro passo para desfazer o modelo tipicamente autoritário de gerenciamento de empresas de tecnologia. Na verdade, existe um grupo no Brasil que parece estar fazendo isso, que foi inspirado na Tech Workers Coalition, dos Estados Unidos. Eles foram entrevistados pelo Notes from Below ano passado: “Precisamos pensar em uma grave dos trabalhadores de tecnologia”. O movimento trabalhista em tecnologia ainda é muito incipiente, mas acho que é um passo na direção certa: reconhecer que a tecnologia foi mal utilizada no capitalismo, mas que pode ser direcionada para fins melhores, se tivermos vontade política.

 

DIGILABOUR: Conte-nos mais sobre a organização dos trabalhadores de tecnologia…

LIU: Nos últimos meses, houve desenvolvimentos realmente interessantes nas grandes empresas de tecnologia, algo que eu nunca havia pensado que veria quando ainda trabalhava com tecnologia. Há uma percepção comum de que, como os profissionais de tecnologia em funções específicas são tão requisitados, eles devem ser bem pagos e, portanto, não podem ter nenhuma das queixas dos trabalhadores. Mas isso só foi verdade por um tempo. A indústria de tecnologia sempre desvalorizou certos tipos de mão de obra com base no perfil de quem a realiza, mesmo quando estão fazendo o trabalho que deve ser considerado valioso. Mulheres, pessoas negras e trabalhadores mais velhos têm alarmado sobre a hostilidade da indústria de tecnologia há muito tempo, e a onda mais recente de organização dos trabalhadores da área tem origem em um reconhecimento dessas críticas. Outro fator importante aqui é que as condições do setor estão mudando. Nós não estamos mais na idade de ouro da tecnologia. Você ainda pode ganhar muito dinheiro no setor se tiver o background e o network corretos, mas a demanda por trabalho se expandiu ao ponto de as empresas poderem se envolver em práticas de exploração mais óbvias. A maioria dos trabalhadores do Google não são funcionários em período integral, mas recebem contratos de curto prazo ou trabalham para agências que não lhes dão os mesmos benefícios ou prestígio. O que isso significa é que muitos dos trabalhadores mais novos, que entraram no setor porque ficaram entusiasmados com o trabalho, ou simplesmente porque queriam um emprego bem remunerado, estão presos em situações de trabalho muito diferentes do sonho estereotipado do Vale do Silício. A empresa os trata como se pudessem ser trocados a qualquer momento, o que é desmoralizante e até insultuoso. Para esses trabalhadores, faz sentido que eles se unam para exigir melhores condições de trabalho. Mas a organização desses trabalhadores não precisa se limitar às condições do local de trabalho. Muitos dos esforços de organização no último ano foram em torno de preocupações éticas em relação aos usos dos produtos que estão sendo desenvolvidos. Contra o pano de fundo do desmoronamento do establishment político, faz sentido considerar outras vias de mudança. A indústria de tecnologia está especialmente bem preparada como um lugar de luta, dada à sua imensa riqueza, bem como a sua importância infraestrutural para outros setores da economia.

 

DIGILABOUR: Por que abolir o Vale do Silício?

LIU: Abolir o Vale do Silício não significa parar o desenvolvimento tecnológico, mas desafiar o atual modo de produção que força a tecnologia a ser desenvolvida principalmente para fins capitalistas. Significa liberar o desenvolvimento tecnológico da busca incessante pelo lucro, porque isso leva a resultados que são ineficientes, com desperdício, e, em última instância, trata-se de uma distração em relação ao que a sociedade deveria estar trabalhando, por exemplo, lidar com as inúmeras mudanças ecológicas que estamos começando a enfrentar. Ficou muito claro para mim que permitir que a tecnologia seja impulsionada pelas necessidades do capital, financiada por grandes fundos de investimento e gerenciadas na esperança de gerar um retorno, é algo ruim. Nós não precisamos de um milhão de aplicativos de entrega de comida, e é patentemente imoral que tantas pessoas trabalhem em empresas de tecnologia como Uber ou Amazon simplesmente para que alguns investidores e executivos fiquem extremamente ricos. O atual modelo industrial de desenvolvimento tecnológico está distorcendo as promessas utópicas do que a tecnologia poderia ser, criando um mundo altamente estratificado. Nós podemos e devemos fazer algo melhor.

 

 

Tempo e Tecnologia como Práticas Sociomateriais: entrevista com Judy Wajcman

 

Judy Wajcman é professora da London School of Economics e tem se dedicado a investigar questões de tecnologia, tempo, gênero e trabalho. Entre seus livros mais famosos, estão TechnoFeminism (2004 – em espanhol aqui) e Pressed for Time: the acceleration of life in digital capitalism (2015). Wajcman considera a tecnologia como prática sociomaterial, resultado de uma série de decisões concretas tomadas por grupos em tempos e espaços concretos. Da mesma forma, as práticas temporais também são sociomateriais, e a organização social do tempo depende de questões de gênero e classe. Assim, as práticas tecnológicas e temporais afetam a vida de trabalhadoras e trabalhadores.

Recentemente, Judy Wajcman escreveu uma ácida resenha sobre três livros ligados ao futuro do trabalho. Diz que eles estão aparecendo aos montes, e sempre da mesma maneira. Alguns pontos da resenha:

  • Há evidência de que os algoritmos de machine learning, assim como outras tecnologias, têm a marca de seus designers e de sua cultura, reforçando desigualdades de gênero, raça e classe;
  • Antes de pensar no “futuro do trabalho”, é preciso encarar a questão real e presente da distribuição desigual de trabalho, tempo e dinheiro;
  • É preciso insistir que os futuros são sempre sociais, de maneiras que órgãos públicos e a sociedade civil tomem esse tema também para si, não deixando-o somente na mão de “futuristas” e “empreendedores”.

Em sua pesquisa mais recente, a partir de entrevistas com engenheiros, Wajcman trata dos calendários digitais como parte de uma racionalidade mais ampla do Vale do Silício de “gestão eficiente do tempo”, procurando otimizar a “produtividade” e minimizar o desperdício de tempo” (você pode conferir os textos aqui e aqui).

Conversei por Skype com Judy Wajcman sobre esta última investigação e também sobre tópicos que marcaram sua trajetória: tecnologia, aceleração, tempo e trabalho, e como essas questões são atravessadas por relações de gênero. Confira abaixo em texto e áudio:

 

DIGILABOUR: Conte-nos um pouco sobre sua pesquisa mais recente envolvendo os calendários digitais e o projeto do Vale do Silício em relação à tecnologia e ao trabalho.

JUDY WAJCMAN: Há algo na cultura do Vale do Silício que valoriza hiperprodutividade e jornadas de trabalho muito extensas. Os valores primários do Vale do Silício se relaciona, de alguma forma, ao uso eficiente e produtivo do tempo, para maximizar todo o tempo de trabalho no próprio ambiente de trabalho. E os calendários digitais são projetados para otimizar o tempo e agendar as coisas, assim as reuniões podem ser organizadas da maneira mais eficiente possível. Uma das minhas preocupações é que, de alguma maneira, isso exacerba esse tipo de ideologia de produtividade, eficiência e cultura workaholic, e não incentiva que o tempo seja gasto com outras coisas. Eu presumo, quase completamente, que as pessoas que trabalham nessas empresas do Vale do silício são basicamente jovens e principalmente do sexo masculino, e certamente sem filhos, podendo dedicar-se muito a longas horas de trabalho. E os calendários e algoritmos são projetados para maximizar a eficiência tanto do trabalho quanto do lazer. Eu tenho tentado apreender o que chamo de ethos do Vale do Silício. Por um lado, é a ideia de que a coisa mais importante na vida é trabalhar e trabalhar duro, e isso é realmente uma crença incrível no progresso tecnológico e no uso das tarefas automatizadas. Por outro lado, muita energia é gasta na automação em vez de pensar na qualidade do trabalho ou de empregar pessoas. A outra coisa que eu pensei é o fato de que, em certa medida, todos esses locais de trabalho presumem que muitos trabalhadores de serviço estarão a seu dispor. O que é raro de ler sobre as grandes empresas são sobre limpadores, cozinheiros, motoristas da Uber, todo esse trabalho massivo que é muito mal pago.

DIGILABOUR: Em seu livro mais recente, Pressed for Time, você relaciona tecnologia e tempo a partir de uma perspectiva sociomaterial. O que isso quer dizer exatamente?

WAJCMAN: Antes que tivéssemos relógios com pêndulos, as pessoas viveram a maior parte da História da humanidade sem sequer ter uma ideia do que era um “segundo”, ou o que era um “minuto”. Depois, muito foi escrito sobre Modernidade e o papel crucial dos relógios, sobre ferrovias, telégrafo, fábricas, inclusive teorias marxistas sobre tempo de trabalho. Quero dizer que tudo depende de máquinas serem máquinas precisas de cronometragem. E é isso o que eu quero dizer com materialidade social. Se vivêssemos em um mundo sem máquinas de tempo precisas, o mundo seria um lugar diferente. Nós meio que assumimos que o modo como pensamos sobre o tempo em termos de minutos e segundos é algo natural, mas, na verdade, isso tem apenas algumas centenas de anos. Essa noção de tempo é uma construção histórica de tempo. Essa forma suave e progressiva de tempo que nós temos é uma noção da Modernidade. Isso não está no livro, mas um dia desses um colega turco veio me visitar no trabalho e me contou sobre um romance turco que eu nunca tinha ouvido falar, chamado Instituto para a Regulação do Tempo [The Time Regulation Institute, de Ahmet Hamdi Tanpınar]. É sobre como a Turquia adotou a cronometragem ocidental e sobre o quão emblemático isso era para todo o projeto de modernidade. Uma parte do processo de tornar-se moderno era adotar o horário ocidental e as práticas ocidentais de cronometragem. Isso é muito interessante porque é uma espécie de noção cultural do tempo que é, então, imposta ao mundo inteiro. Se você não adotar o tempo ocidental, você não está “sendo moderno”, não entra no “mundo moderno”. Isso é pensar de forma sociomaterial. As máquinas ditam o tempo. Nós contamos o tempo a partir de máquinas.

DIGILABOUR: E esse tipo de perspectiva nos ajuda a desconstruir a ideia de uma aceleração do tempo diretamente ligada às tecnologias…

WAJCMAN: Quando eu estava escrevendo o livro, queria desmistificar essa noção de aceleração. Parece-me que muitas das teorias sobre aceleração são deterministas tecnologicamente. Elas assumem que a aceleração é simplesmente impulsionada pelas próprias tecnologias. E o que eu estava tentando dizer é que nós vivemos em uma cultura que valoriza a produtividade, os negócios, que desvaloriza o lazer e o desperdício de tempo. É a cultura em que estamos e é a partir dessa cultura que desenvolvemos tecnologias. As tecnologias que desenvolvemos tanto refletem quanto impulsionam a sociedade. O fato de termos muitas tecnologias voltadas para eficiência relaciona-se à valorização da eficiência na sociedade. Estamos, de maneira infinita, projetando tecnologias para tornar as coisas mais rápidas porque valorizamos muito a velocidade. Então, não são as tecnologias em si, mas o modo como valorizamos essas coisas. Por exemplo, se você pensar nas operações do mercado financeiro. Isso poderia ser operado de forma mais lenta, e não é a tecnologia que está deixando isso mais rápido. É que os operadores mais rápidos são os que obtêm mais lucros, e todos estão competindo para lucrar mais que o outro.

DIGILABOUR: Você tem uma trajetória de pesquisa relacionando questões de gênero aos temas do mundo do trabalho e da tecnologia. Como as relações de gênero têm aparecido em suas pesquisas mais recentes?

WAJCMAN: Se você olhar para quem trabalha nas empresas de tecnologia do Vale do Silício, são, em sua maioria, empresas masculinas. Há muito sexismo e exclusão das mulheres em trabalhos na área de tecnologia. Assim como os negros são muito sub-representados em termos da força de trabalho na área de tecnologia no Vale do Silício. Encontramos muitas mulheres e, claro, muitos hispânicos e negros no trabalho de serviços, nos empregos mal remunerados. Então, você poderia dizer que há uma divisão de trabalho nesses lugares. A outra coisa é que muitas pessoas agora tem falado sobre como muitos robôs acabam assumindo uma forma feminina. Muitas das máquinas da internet das coisas que agora estão em casa têm vozes femininas. E vozes femininas muito agradáveis para torná-las mais aceitáveis em casa. Isso faz parecer tudo confortável, que as máquinas estão te ajudando, fazendo com que você se esqueça de todas as tecnologias de vigilância, que estão coletando seus dados para venda. As pessoas deveriam estar muito mais conscientes da coleta de dados quando elas possuem coisas que ecoam em suas salas de estar, mas, de alguma forma, a voz feminina ajuda a suavizar essa coleta de dados.

Calendários Digitais e Projeto do Vale do Silício

Tecnologia como Prática Sociomaterial

Desmistificando a “Sociedade da Aceleração”

Gênero, Trabalho e Tecnologia

 

Confira também palestras de Judy Wajcman aquiaqui, e aqui.

 

 

“Um modo de evitar tornar-se uma máquina é celebrar nossa estranheza”: entrevista com Douglas Rushkoff

 

Em seu novo livro, Douglas Rushkoff clama pela centralidade dos seres humanos nos debates sobre tecnologia

 

Screenshot-2019-02-06-at-15.32.56

 

A tecnologia é criada pelos seres humanos, que são sujeitos de linguagem, comunicação e colaboração. Mas o debate tecnológico apresenta uma agenda que coloca as máquinas como centrais. Isso poderia ser dito por autores como Raymond Williams ou Álvaro Vieira Pinto. Mas é Douglas Rushkoff que recoloca a questão em discussão em seu novo livro, Team Human, baseado em seu podcast.

Professor de Teoria da Mídia e Economia Digital na City University of New York, Rushkoff é conhecido por livros como Cyberia, Present Shock e Ecstasy Club e por cunhar termos como media virus. Ao longo de sua trajetória, foi considerado um dos herdeiros de Marshall McLuhan e Neil Postman. Em 2013, foi indicado pelo MIT como o sexto pensador mais influente do mundo.

Em Team Human, o autor escreve um manifesto em favor da recuperação da autonomia humana na era digital frente ao “time da inteligência artificial”. Segundo ele, trata-se de não reprimir nossa criatividade em favor das previsões automatizadas. Confira a entrevista de Douglas Rushkoff ao DigiLabour:

 

 

DIGILABOUR: Seu livro mais recente, Team Human, é um manifesto sobre a importância dos seres humanos em meio a discussões sobre o predomínio da inteligência artificial. Qual o papel do mundo do trabalho em seu debate?

DOUGLAS RUSHKOFF: Bom, o problema das discussões da “indústria 4.0” sobre inteligência artificial e futuro do trabalho é que  todos eles avaliam os seres humanos em termos de seu valor de utilidade. “Quanto trabalho ou produtividade podemos criar?”. “Como conseguimos empregos para pessoas?”. “Como as pessoas podem competir com as máquinas?” Essas questões são baseadas em algumas noções bastante antigas sobre o que torna uma pessoa valiosa ou se elas valem o ar que estão respirando. É a lógica das corporações, que veem os seres humanos apenas como mais um recurso para explorar. Nós criaremos um novo ambiente para o trabalho quanto entendemos que ele é uma maneira de servir outras pessoas. Não trabalhamos simplesmente para justificar a participação nos espólios do capitalismo. Nós trabalhamos para fazer alguma coisa. Essa é uma noção muito antiga, eu admito. Mas imagine se as pessoas trabalhassem para realizar coisas? Seria muito mais eficiente.

 

DIGILABOUR: Você diz que precisamos reconhecer que ser humano é um “esporte coletivo”. Qual o papel da colaboração e da cooperação na reconstrução do “time humano”?

RUSHKOFF: A colaboração é o objetivo do “Time Humano”, assim como a maneira de chegarmos lá. Colaboração e cooperação são atividades humanas essenciais. Ao colaborarmos, restauramos nosso senso de conexão e florescimento mútuo. Estabelecemos relações, conquistamos reconhecimento, construímos solidariedade e ganhamos poder. As mídias sociais e as empresas por trás delas estão nos atomizando e nos separando, de modo que dependemos dessas mídias, ao invés de uns aos outros. Quanto mais genuinamente sociais formos, menos medo teremos uns dos outros. Quanto mais nos engajamos por meio dessas plataformas de mídias sociais, mais somos influenciados por seus muitos esforços para nos deixar com medo uns dos outros. Quanto mais nos conectamos e colaboramos no mundo real, menos vulneráveis somos às maquinações dessas redes. A colaboração usa nossas faculdades superiores, nosso córtex frontal. Essa é a parte do cérebro que as redes sociais não querem que usemos. É a parte do cérebro que nos impede de querer somente matar uns aos outros.

 

DIGILABOUR: Como podemos nos reapropriar coletiva e autonomamente das plataformas digitais e dos algoritmos?

RUSHKOFF: Bem, para começar, você deve ter um motivo para querer usar um algoritmo ou uma tecnologia digital. Isso é realmente difícil de entender na visão de muitas pessoas: não use algo a menos que isso te ajude de algum modo. Se a tecnologia te machuca e não te serve, você deve pensar por um momento: eu quero me sentir mal comigo mesmo? Quero me sentir deprimido? Quero me desconectar de outras pessoas? Se a sua resposta é sim, então vá em frente. Use as plataformas e tecnologias que fazem você se sentir mal. Mas se a resposta for não, então pense por um minuto antes de usá-las. Se você é um desenvolvedor tecnológico positivo e pró humano, comece por pensar as necessidades humanas. Não pense “como posso fazer com que as pessoas usem meu serviço?” ou “como posso extrair dados das pessoas e vendê-los aos anunciantes?”. Em vez disso, pergunte: “do que as pessoas precisam e como uma tecnologia pode ajudá-las?”. Depois de pensar em uma tecnologia que atenda a uma necessidade básica, você deve criá-la de maneira a levar em conta o livre-arbítrio dos usuários e os direitos trabalhistas. Então, se você estiver produzindo um aplicativo de transporte, não faça com que seus motoristas vão à falência. Em vez disso, pense em compartilhar a propriedade da empresa com os motoristas. Essa é a ideia básica de igualdade econômica. Eles investem o seu suor e deveriam possuir parte da empresa. Se você está desenhando uma rede social, o truque não é tentar fazer lavagem cerebral nos usuários. Não tente controlar suas ações. Não os hipnotize. Não importe esses algoritmos das máquinas caça-níqueis de Las Vegas para viciar os usuários. Em vez disso, fique satisfeito se eles usarem a plataforma quando precisarem, e não porque você os viciou.

 

DIGILABOUR: No livro, você critica a “cultura memética” e afirma que “os fins nem sempre justificam os memes”. Como vocês enxerga os memes na comunicação contemporânea?

RUSHKOFF: Eu acho que os memes são bons para o humor, mas não para muito mais do que isso. Eles são muito manipuladores. Nós os usamos contra as faculdades superiores uns dos outros. Eles são produzidos principalmente para sairmos de nossas mentes pensantes e agirmos como um réptil. Atacam o tronco cerebral. Nos fazem pensar em termos de luta ou fuga (fight or flight), ou humilhação e ódio. Então, realmente, não vejo nenhuma função para a guerra memética neste momento. Estou mais interessado em fortalecer nosso sistema imunológico cultural para que possamos resistir aos memes.

 

DIGILABOUR: O que você chama de “mecanomorfismo”?

RUSHKOFF: Queremos ser como nossas máquinas, porque realmente não gostamos mais de seres humanos. Nós pensamos em nossas máquinas como nossos superiores. Eles fazem tudo mais rapidamente. Nós tendemos a olhar para a criatividade dos seres humanos como uma espécie de “ruído”. É como se tudo o que as pessoas pudessem fazer é acrescentar uma distorção a um sistema perfeito. Mas isso não é verdade. Nós precisamos ver a criação humana como fonte de arte e novas soluções para antigos problemas. Um modo de evitar tornar-se uma máquina é celebrar nossa estranheza. Curta o inexplicável. Abrace o paradoxo.

 

DIGILABOUR: Como você defende o “time humano” sem que isso pareça uma utopia?

RUSHKOFF: Acho interessante que simplesmente imaginar um futuro que inclua humanos seja considerada uma utopia. Mas talvez isso mostre como as esperanças foram perdidas. Eu realmente acredito que é possível que a espécie humana sobreviva para além do fim do século XXI. Nós realmente podemos. Eu não acho que isso seja algo irracional. Nós podemos sobreviver se trabalharmos juntos. Sei que parece mais provável que todos nós morramos ou que continuaremos a ficar mais alienados em relação aos outros. Mas também há alguma possibilidade real de que alguns de nós escolham se unir aos seres humanos e até mesmo defender a humanidade e a vida contra o capitalismo digital que tenta nos destruir. Eu não acredito que chegaremos a uma utopia, mas acho que temos uma boa chance de sustentarmos nossa civilização por mais um século. E até melhorá-la.