Hamid Ekbia: Heteromação do Trabalho

automação do trabalho no capitalismo nunca é completa e necessita do trabalho humano. Pensando nisso, Hamid Ekbia cunhou a expressão “heteromação”, que explica em entrevista à DigiLabour.

Ekbia é diretor do Centro de Pesquisa em Interação Mediada da Indiana University Bloomington e autor dos livros Artificial Dreams: the quest for non-biological intelligence e Heteromation, and Other Stories of Computing and Capitalism, este em coautoria com Bonnie Nardi. Você pode conferir artigos do autor aqui e aqui.

DIGILABOUR: O que é exatamente a “heteromação” do trabalho? E por que esse nome?

HAMID EKBIA: A “heteromação” é um novo mecanismo e uma lógica de extração e valor no capitalismo atual. Tecnicamente, é o oposto de automação. Enquanto na automação o objetivo é colocar os humanos fora do loop, na “heteromação”, o objetivo é mantê-los no loop. Um caixa eletrônico, por exemplo, retira o caixa humano da interação entre o cliente e o banco. Embora isso funcione em parte do tempo, ele não funciona o tempo todo – os caixas de banco ainda são necessários para muitos tipos de transações. Na verdade, existe um paradoxo inerente à automação em uma economia capitalista porque, como Marx argumentou há muito tempo, o capitalismo não pode acabar com o trabalho humano. Apesar do desejo do capitalismo pela automação total, ele precisa dos seres humanos como produtores de valor e como consumidores de produtos. Com base nisso, pode-se argumentar que a automação total nunca será realizada no capitalismo. Isso nos leva ao aspecto econômico da “heteromação”, que envolve três pontos-chave. Primeiro, a “heteromação” trabalha com uma lógica de inclusão no sentido de participação universal, independentemente do status. A era atual do capitalismo inclui as pessoas em vários tipos de redes informatizadas, dando-lhes uma forte sensação de pertencimento. Em segundo lugar, e talvez de maneira mais ilusória, a “heteromação” geralmente assume uma forma quase voluntária que tranca as pessoas em sistemas e plataformas, sendo talvez o exemplo mais famoso e onipresente o Facebook. As pessoas sentem que não podem ficar sem isso, mas muitas vezes elas não gostam dessa dependência, tiram “férias” do Facebook e tentam se afastar o máximo possível. Por fim, a “heteromação” extrai valor de forma invisível, dando às pessoas a impressão de que estão incluídas, de que fazem parte do jogo, que estamos todos juntos. Mas a maior parte dos benefícios da participação vai para um pequeno grupo de pessoas se considerarmos as vastas fortunas feitas com o trabalho “heteromatizado”.Nós produzimos dados pessoais valiosos. Esses dados são vendidos e usados ​​para colocar anúncios com a finalidade vender e desenhar novos produtos. A coleta de dados é a parte mais falada sobre como as atividades digitais cotidianas contribuem para os resultados finais das empresas, mas, da mesma forma, também conduzimos – com pouca ou mínima remuneração – tarefas semelhantes: reviews de produtos, autosserviço em bancos e aeroportos, programação de software em plataformas de código aberto, desambiguação de imagens, e outros trabalhos não pagos de gamers.Construímos comunidades virtuais, criamos vídeos no YouTube, escrevemos ensaios políticos, comentamos as notícias e contribuímos para fóruns que mantêm as pessoas interessadas e engajadas- o que resulta em lucros abundantes para as empresas. Em suma, a “heteromação” forneceu novas lógicas e mecanismos para o acúmulo de riqueza. Chamo isso de “heteromação” por duas razões: primeiro, é uma relação de trabalho que extrai valor do trabalho humano em benefício de outros – normalmente, mas nem sempre, grandes empresas. Em segundo lugar, coloca os seres humanos à margem da máquina, de modo que eles fazem o que as máquinas não podem fazer, ou só poderiam fazer com dificuldade, a partir de softwares muito caros. Enquanto na automação, as máquinas fazem o que os humanos não fariam com facilidade, na heteromação é o contrário. Em outras palavras, os humanos estão fazendo muito do trabalho, enquanto as máquinas recebem o crédito. Isso inclui uma ampla gama de pessoas em vários papéis e posições – por exemplo, usuários de mídias sociais e mecanismos de busca; gamers e designers cujo trabalho criativo é frequentemente usado sem compensação em apoio a plataformas de jogos; designers gráficos que submetem trabalhos para concursos de design; consumidores comuns que se encontram fazendo o trabalho de ex-funcionários em nomes do “autosserviço”.

DIGILABOUR: Você mostra que há muitas formas de trabalho “heteromatizado”, como trabalho comunicativo, cognitivo, emocional e organizativo.  Estou particularmente interessado no trabalho comunicativo e no trabalho organizativo…

EKBIA: As várias formas de trabalho “heteromatizado” que produzem valor na economia atual estão em ascensão, começando com a comunicação. Esta é a primeira vez na história em que a própria essência da comunicação privada das pessoas se tornou um trunfo para as corporações: “os dados são o novo petróleo”. Os bilhões de participantes do Facebook, segundo uma grande empresa de consultoria, tornaram-se “a maior força de trabalho não remunerada” da História. Alguns números podem colocar isso em perspectiva: entre 2008 e 2013, o número de membros do Facebook cresceu de 300 milhões para cerca de 1 bilhão. No mesmo período, sua receita passou de US$ 300 milhões para US$ 4 bilhões. Cenários semelhantes podem ser encontradas no Twitter, no LinkedIn e em outras mídias sociais. O trabalho organizativo, por sua vez, tem a ver com a capacidade humana de coordenar atividades entre indivíduos e grupos. Outras espécies, como abelhas, pássaros e lobos, também têm uma capacidade semelhante, mas os seres humanos levaram isso ao mais alto nível por meio da construção de ambientes, incluindo os vários tipos de organização que criamos ao longo da História. Agora, as organizações envolvem custos – elas precisam de infraestruturas, rotinas, registros, fluxos de informações, etc. Esses custos constituem uma grande parcela das despesas das organizações, seja empresas privadas ou agências governamentais. Uma das inovações do capitalismo atual é terceirizar uma boa parte desse custo para as pessoas comuns. Pense no Google e no uso da Wikipedia como uma ótima fonte de informações para o mecanismo de buscas. Eu não sei sobre o Brasil e a língua portuguesa, mas no mundo de língua inglesa sempre que você procura algo na web, a Wikipédia é um dos principais resultados. Isto não é uma coincidência: o Google encontrou na Wikipedia uma fonte barata (essencialmente gratuita) que é autogerida, com algum grau de verificação e supervisão, com milhares de pessoas contribuindo com seu conhecimento e experiência em vários assuntos. O mesmo pode ser dito sobre o Google Translate, que usa bilhões de pedaços de traduções produzidas por humanos que são inseridas em seu sistema. Esses são exemplos de trabalho humano que é usado gratuitamente por corporações modernas como o Google. É assim que essas empresas podem se dar ao luxo de administrar seus negócios com um número mínimo de funcionários. Para tornar isso concreto, a partir de 2018, as três principais empresas do Vale do Silício contrataram menos de 200.000 funcionários: Google, 50.000; Facebook 20.000 e Apple 123.000. Para colocar esses números em perspectiva, em 1990, as três principais montadoras de Detroit, com um quarto da receita e menos de um sexto da capitalização, empregavam dez vezes mais pessoas do que esses gigantes do Vale do Silício. A razão, novamente, é que, na realidade, esses gigantes se beneficiam do trabalho de milhões de “usuários” que não estão na folha de pagamento.

DIGILABOUR: Como pensar, a partir de uma visão radical, mudanças e utopias reais em relação ao trabalho digital?

EKBIA: Essa é a pergunta de dois milhões de dólares. Eu acredito que existe um potencial real para uma verdadeira utopia que pode fazer com que a gente saia das circunstâncias atuais. Deixe-me esboçar brevemente os pontos-chave de tal utopia, que, em minha opinião, deve basear-se em três princípios: liberdade, justiça social e sustentabilidade. Esses princípios estão sob forte ataque nas últimas décadas, tudo em nome da liberdade de mercado, escolha pública e crescimento econômico. Para reviver e implementar esses princípios, precisamos de reversões sérias nas tendências atuais, um empreendimento difícil, mas não impossível. Primeiro, no que diz respeito às liberdades, as experiências das últimas décadas mostram repetidas vezes que os mercados deixados à própria sorte produzem economias descontroladas que regeneram a crise, aumentam a desigualdade, minam o bem-estar e a segurança das pessoas e destroem o meio ambiente. Uma abordagem alternativa deve colocar uma correia nos mercados e em sua tendência a interferir em todos os aspectos da vida. Alguns componentes óbvios disso seriam a supervisão e a regulamentação, não do tipo que colocam os assuntos nas mãos dos burocratas, mas nas mãos das comunidades e de seus conselhos. Embora a ideia de governar pelos conselhos das pessoas possa parecer improvável no atual ambiente cultural, ela é praticada há muito tempo em diferentes partes do mundo: as cidades-estados autônomas de Jônia na Grécia antiga, os municípios jeffersonianos da América antiga, comunas e sovietes das Revoluções Francesa e Russa, a comunidade islandesa e o kibutz israelense. Essas comunidades demonstraram a eficácia dessa forma de autogovernança repetidas vezes. Mesmo no caso da experiência da União Soviética, os relatos triunfalistas do capitalismo não deveriam nos cegar para as primeiras realizações dos sovietes. Um exemplo vivo disso no momento é a região curda autônoma de Rojava, que é baseada nos princípios confederalistas de autodeterminação, democracia comunitária não-estatista, participação de base, e anti-nacionalismo. Em segundo lugar, em relação à justiça social, essa visão utópica também colocará a tecnologia moderna a serviço do bem-estar das pessoas e das comunidades, em vez da situação atual em que os frutos de nossa engenhosidade coletiva atendem aos interesses de um número muito pequeno de indivíduos super ricos. Com relação à “heteromação”, o trabalho pago mediado por computador pode começar a alterar a ideia de que um trabalho de 40 horas por semana é a base da propriedade e da respeitabilidade. A “heteromação” pode dar lugar a um trabalho justo e mediado por computador, no contexto de uma “casinha eletrônica”, com suas promessas de autonomia e libertação das alienações da vida cercada em cubículos. Essa “casinha eletrônica” provavelmente exigiria uma renda básica para que os trabalhadores não fossem levados à autoexploração. Questões de renda básica não devem ser colocadas como “ou-ou” como frequentemente são. Não há razão para que uma renda básica não possa ser associada a arranjos de trabalho remunerados, flexíveis e autônomos. O valor econômico atual do trabalho “heteromatizado” sugere o quanto de trabalho já estamos realizando fora dos ambientes de trabalho convencionais – a tarefa agora é encontrar formas disso ser compensado. Em terceiro lugar, esse futuro utópico precisa prestar muita atenção à sustentabilidade social e ambiental. Como tal, deve destacar-se do pensamento que domina a política e os discursos atuais em todo o mundo. Uma alternativa a esse pensamento está em andamento no movimento de “decrescimento”, que defende não apenas a interrupção dos atuais padrões insustentáveis ​​de consumo (particularmente na América do Norte), mas uma séria reversão em direção a menos produção e consumo. Temos que lembrar que quando se trata da sobrevivência da espécie humana em nosso globo, é a Terra, e não o céu, que é o limite, como a mentalidade do Vale do Silício tende a sugerir. Em suma, acredito firmemente que os princípios de liberdade, justiça social e sustentabilidade ambiental que impulsionam um futuro utópico têm uma chance real de implementação efetiva em escala global se as atuais formas hegemônicas de pensamento e governança forem substituídas por alternativas disponíveis. Deixe-me também agradecer pela oportunidade de conversar com um público brasileiro. Seu país é um elemento fundamental para mudanças socioculturais, econômicas, políticas e ambientais na América do Sul. Como tal, os brasileiros têm uma grande responsabilidade em mudar a face do hemisfério ocidental e, por meio disso, o resto do mundo.

Abolir o Vale do Silício: entrevista com Wendy Liu

 

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Cientista da computação, Wendy Liu trabalhava com programação, e desde 2017 escreve sobre tecnologia e trabalho a partir de uma perspectiva de esquerda. Alguns textos dela aqui, aqui e aqui. Atualmente, está escrevendo um livro chamado Abolir o Vale do Silício. Em entrevista ao DigiLabour, fala sobre tecnologia de um ponto de vista de esquerda, a organização dos trabalhadores de tecnologia e o que significa abolir o Vale do Silício.

 

DIGILABOUR: Qual seria uma agenda socialista para as tecnologias?

WENDY LIU: Em primeiro lugar, é importante ir além de binarismos. A tecnologia não é boa nem má. Devemos criar o hábito de separar a tecnologia, em sua forma abstrata, do modo como ela está sendo usada devido ao sistema socioeconômico. O fato de um tipo particular de tecnologia facilitar a opressão ou a exploração em nossa atual ordem mundial não significa que haja algo intrinsecamente ruim sobre a tecnologia. Em vez disso, devemos especificar a relação de dominação existente envolvendo a tecnologia. Grande parte da tecnologia que existe no capitalismo tem outras aplicações, muitas das quais poderiam ser diretamente relevantes para fins socialistas. A questão é liberar essa tecnologia dos usos para os quais ela está sendo usada atualmente. Os algoritmos da Uber, os sistemas de logística da Amazon, a infraestrutura incrivelmente complicada que nos permite interagir uns com os outros na internet… essa tecnologia atualmente está trancada dentro das corporações, gerando lucro às custas de servir ao bem público. Como Leigh Phillips e Michal Rozworski escrevem em seu livro mais recente, People’s Republic of Walmart, essa tecnologia pode ser a chave para pensar qualquer visão socialista que inclua controle em larga escala sobre os meios de produção. O desafio para a esquerda, então, é elaborar uma estratégia que tome para si essa tecnologia, o que provavelmente envolverá o apoio daqueles que já trabalham na indústria de tecnologia, e que possuem conhecimento relevante sobre o assunto. Portanto, acho que um projeto paralelo é os trabalhadores de tecnologia se organizarem, a ponto de constituírem uma força poderosa dentro das corporações, exigindo maior controle sobre a tecnologia. Isso poderia complementar o objetivo de alcançar um controle mais democrático sobre a tecnologia, como um primeiro passo para desfazer o modelo tipicamente autoritário de gerenciamento de empresas de tecnologia. Na verdade, existe um grupo no Brasil que parece estar fazendo isso, que foi inspirado na Tech Workers Coalition, dos Estados Unidos. Eles foram entrevistados pelo Notes from Below ano passado: “Precisamos pensar em uma grave dos trabalhadores de tecnologia”. O movimento trabalhista em tecnologia ainda é muito incipiente, mas acho que é um passo na direção certa: reconhecer que a tecnologia foi mal utilizada no capitalismo, mas que pode ser direcionada para fins melhores, se tivermos vontade política.

 

DIGILABOUR: Conte-nos mais sobre a organização dos trabalhadores de tecnologia…

LIU: Nos últimos meses, houve desenvolvimentos realmente interessantes nas grandes empresas de tecnologia, algo que eu nunca havia pensado que veria quando ainda trabalhava com tecnologia. Há uma percepção comum de que, como os profissionais de tecnologia em funções específicas são tão requisitados, eles devem ser bem pagos e, portanto, não podem ter nenhuma das queixas dos trabalhadores. Mas isso só foi verdade por um tempo. A indústria de tecnologia sempre desvalorizou certos tipos de mão de obra com base no perfil de quem a realiza, mesmo quando estão fazendo o trabalho que deve ser considerado valioso. Mulheres, pessoas negras e trabalhadores mais velhos têm alarmado sobre a hostilidade da indústria de tecnologia há muito tempo, e a onda mais recente de organização dos trabalhadores da área tem origem em um reconhecimento dessas críticas. Outro fator importante aqui é que as condições do setor estão mudando. Nós não estamos mais na idade de ouro da tecnologia. Você ainda pode ganhar muito dinheiro no setor se tiver o background e o network corretos, mas a demanda por trabalho se expandiu ao ponto de as empresas poderem se envolver em práticas de exploração mais óbvias. A maioria dos trabalhadores do Google não são funcionários em período integral, mas recebem contratos de curto prazo ou trabalham para agências que não lhes dão os mesmos benefícios ou prestígio. O que isso significa é que muitos dos trabalhadores mais novos, que entraram no setor porque ficaram entusiasmados com o trabalho, ou simplesmente porque queriam um emprego bem remunerado, estão presos em situações de trabalho muito diferentes do sonho estereotipado do Vale do Silício. A empresa os trata como se pudessem ser trocados a qualquer momento, o que é desmoralizante e até insultuoso. Para esses trabalhadores, faz sentido que eles se unam para exigir melhores condições de trabalho. Mas a organização desses trabalhadores não precisa se limitar às condições do local de trabalho. Muitos dos esforços de organização no último ano foram em torno de preocupações éticas em relação aos usos dos produtos que estão sendo desenvolvidos. Contra o pano de fundo do desmoronamento do establishment político, faz sentido considerar outras vias de mudança. A indústria de tecnologia está especialmente bem preparada como um lugar de luta, dada à sua imensa riqueza, bem como a sua importância infraestrutural para outros setores da economia.

 

DIGILABOUR: Por que abolir o Vale do Silício?

LIU: Abolir o Vale do Silício não significa parar o desenvolvimento tecnológico, mas desafiar o atual modo de produção que força a tecnologia a ser desenvolvida principalmente para fins capitalistas. Significa liberar o desenvolvimento tecnológico da busca incessante pelo lucro, porque isso leva a resultados que são ineficientes, com desperdício, e, em última instância, trata-se de uma distração em relação ao que a sociedade deveria estar trabalhando, por exemplo, lidar com as inúmeras mudanças ecológicas que estamos começando a enfrentar. Ficou muito claro para mim que permitir que a tecnologia seja impulsionada pelas necessidades do capital, financiada por grandes fundos de investimento e gerenciadas na esperança de gerar um retorno, é algo ruim. Nós não precisamos de um milhão de aplicativos de entrega de comida, e é patentemente imoral que tantas pessoas trabalhem em empresas de tecnologia como Uber ou Amazon simplesmente para que alguns investidores e executivos fiquem extremamente ricos. O atual modelo industrial de desenvolvimento tecnológico está distorcendo as promessas utópicas do que a tecnologia poderia ser, criando um mundo altamente estratificado. Nós podemos e devemos fazer algo melhor.

 

 

Tempo e Tecnologia como Práticas Sociomateriais: entrevista com Judy Wajcman

 

Judy Wajcman é professora da London School of Economics e tem se dedicado a investigar questões de tecnologia, tempo, gênero e trabalho. Entre seus livros mais famosos, estão TechnoFeminism (2004 – em espanhol aqui) e Pressed for Time: the acceleration of life in digital capitalism (2015). Wajcman considera a tecnologia como prática sociomaterial, resultado de uma série de decisões concretas tomadas por grupos em tempos e espaços concretos. Da mesma forma, as práticas temporais também são sociomateriais, e a organização social do tempo depende de questões de gênero e classe. Assim, as práticas tecnológicas e temporais afetam a vida de trabalhadoras e trabalhadores.

Recentemente, Judy Wajcman escreveu uma ácida resenha sobre três livros ligados ao futuro do trabalho. Diz que eles estão aparecendo aos montes, e sempre da mesma maneira. Alguns pontos da resenha:

  • Há evidência de que os algoritmos de machine learning, assim como outras tecnologias, têm a marca de seus designers e de sua cultura, reforçando desigualdades de gênero, raça e classe;
  • Antes de pensar no “futuro do trabalho”, é preciso encarar a questão real e presente da distribuição desigual de trabalho, tempo e dinheiro;
  • É preciso insistir que os futuros são sempre sociais, de maneiras que órgãos públicos e a sociedade civil tomem esse tema também para si, não deixando-o somente na mão de “futuristas” e “empreendedores”.

Em sua pesquisa mais recente, a partir de entrevistas com engenheiros, Wajcman trata dos calendários digitais como parte de uma racionalidade mais ampla do Vale do Silício de “gestão eficiente do tempo”, procurando otimizar a “produtividade” e minimizar o desperdício de tempo” (você pode conferir os textos aqui e aqui).

Conversei por Skype com Judy Wajcman sobre esta última investigação e também sobre tópicos que marcaram sua trajetória: tecnologia, aceleração, tempo e trabalho, e como essas questões são atravessadas por relações de gênero. Confira abaixo em texto e áudio:

 

DIGILABOUR: Conte-nos um pouco sobre sua pesquisa mais recente envolvendo os calendários digitais e o projeto do Vale do Silício em relação à tecnologia e ao trabalho.

JUDY WAJCMAN: Há algo na cultura do Vale do Silício que valoriza hiperprodutividade e jornadas de trabalho muito extensas. Os valores primários do Vale do Silício se relaciona, de alguma forma, ao uso eficiente e produtivo do tempo, para maximizar todo o tempo de trabalho no próprio ambiente de trabalho. E os calendários digitais são projetados para otimizar o tempo e agendar as coisas, assim as reuniões podem ser organizadas da maneira mais eficiente possível. Uma das minhas preocupações é que, de alguma maneira, isso exacerba esse tipo de ideologia de produtividade, eficiência e cultura workaholic, e não incentiva que o tempo seja gasto com outras coisas. Eu presumo, quase completamente, que as pessoas que trabalham nessas empresas do Vale do silício são basicamente jovens e principalmente do sexo masculino, e certamente sem filhos, podendo dedicar-se muito a longas horas de trabalho. E os calendários e algoritmos são projetados para maximizar a eficiência tanto do trabalho quanto do lazer. Eu tenho tentado apreender o que chamo de ethos do Vale do Silício. Por um lado, é a ideia de que a coisa mais importante na vida é trabalhar e trabalhar duro, e isso é realmente uma crença incrível no progresso tecnológico e no uso das tarefas automatizadas. Por outro lado, muita energia é gasta na automação em vez de pensar na qualidade do trabalho ou de empregar pessoas. A outra coisa que eu pensei é o fato de que, em certa medida, todos esses locais de trabalho presumem que muitos trabalhadores de serviço estarão a seu dispor. O que é raro de ler sobre as grandes empresas são sobre limpadores, cozinheiros, motoristas da Uber, todo esse trabalho massivo que é muito mal pago.

DIGILABOUR: Em seu livro mais recente, Pressed for Time, você relaciona tecnologia e tempo a partir de uma perspectiva sociomaterial. O que isso quer dizer exatamente?

WAJCMAN: Antes que tivéssemos relógios com pêndulos, as pessoas viveram a maior parte da História da humanidade sem sequer ter uma ideia do que era um “segundo”, ou o que era um “minuto”. Depois, muito foi escrito sobre Modernidade e o papel crucial dos relógios, sobre ferrovias, telégrafo, fábricas, inclusive teorias marxistas sobre tempo de trabalho. Quero dizer que tudo depende de máquinas serem máquinas precisas de cronometragem. E é isso o que eu quero dizer com materialidade social. Se vivêssemos em um mundo sem máquinas de tempo precisas, o mundo seria um lugar diferente. Nós meio que assumimos que o modo como pensamos sobre o tempo em termos de minutos e segundos é algo natural, mas, na verdade, isso tem apenas algumas centenas de anos. Essa noção de tempo é uma construção histórica de tempo. Essa forma suave e progressiva de tempo que nós temos é uma noção da Modernidade. Isso não está no livro, mas um dia desses um colega turco veio me visitar no trabalho e me contou sobre um romance turco que eu nunca tinha ouvido falar, chamado Instituto para a Regulação do Tempo [The Time Regulation Institute, de Ahmet Hamdi Tanpınar]. É sobre como a Turquia adotou a cronometragem ocidental e sobre o quão emblemático isso era para todo o projeto de modernidade. Uma parte do processo de tornar-se moderno era adotar o horário ocidental e as práticas ocidentais de cronometragem. Isso é muito interessante porque é uma espécie de noção cultural do tempo que é, então, imposta ao mundo inteiro. Se você não adotar o tempo ocidental, você não está “sendo moderno”, não entra no “mundo moderno”. Isso é pensar de forma sociomaterial. As máquinas ditam o tempo. Nós contamos o tempo a partir de máquinas.

DIGILABOUR: E esse tipo de perspectiva nos ajuda a desconstruir a ideia de uma aceleração do tempo diretamente ligada às tecnologias…

WAJCMAN: Quando eu estava escrevendo o livro, queria desmistificar essa noção de aceleração. Parece-me que muitas das teorias sobre aceleração são deterministas tecnologicamente. Elas assumem que a aceleração é simplesmente impulsionada pelas próprias tecnologias. E o que eu estava tentando dizer é que nós vivemos em uma cultura que valoriza a produtividade, os negócios, que desvaloriza o lazer e o desperdício de tempo. É a cultura em que estamos e é a partir dessa cultura que desenvolvemos tecnologias. As tecnologias que desenvolvemos tanto refletem quanto impulsionam a sociedade. O fato de termos muitas tecnologias voltadas para eficiência relaciona-se à valorização da eficiência na sociedade. Estamos, de maneira infinita, projetando tecnologias para tornar as coisas mais rápidas porque valorizamos muito a velocidade. Então, não são as tecnologias em si, mas o modo como valorizamos essas coisas. Por exemplo, se você pensar nas operações do mercado financeiro. Isso poderia ser operado de forma mais lenta, e não é a tecnologia que está deixando isso mais rápido. É que os operadores mais rápidos são os que obtêm mais lucros, e todos estão competindo para lucrar mais que o outro.

DIGILABOUR: Você tem uma trajetória de pesquisa relacionando questões de gênero aos temas do mundo do trabalho e da tecnologia. Como as relações de gênero têm aparecido em suas pesquisas mais recentes?

WAJCMAN: Se você olhar para quem trabalha nas empresas de tecnologia do Vale do Silício, são, em sua maioria, empresas masculinas. Há muito sexismo e exclusão das mulheres em trabalhos na área de tecnologia. Assim como os negros são muito sub-representados em termos da força de trabalho na área de tecnologia no Vale do Silício. Encontramos muitas mulheres e, claro, muitos hispânicos e negros no trabalho de serviços, nos empregos mal remunerados. Então, você poderia dizer que há uma divisão de trabalho nesses lugares. A outra coisa é que muitas pessoas agora tem falado sobre como muitos robôs acabam assumindo uma forma feminina. Muitas das máquinas da internet das coisas que agora estão em casa têm vozes femininas. E vozes femininas muito agradáveis para torná-las mais aceitáveis em casa. Isso faz parecer tudo confortável, que as máquinas estão te ajudando, fazendo com que você se esqueça de todas as tecnologias de vigilância, que estão coletando seus dados para venda. As pessoas deveriam estar muito mais conscientes da coleta de dados quando elas possuem coisas que ecoam em suas salas de estar, mas, de alguma forma, a voz feminina ajuda a suavizar essa coleta de dados.

Calendários Digitais e Projeto do Vale do Silício

Tecnologia como Prática Sociomaterial

Desmistificando a “Sociedade da Aceleração”

Gênero, Trabalho e Tecnologia

 

Confira também palestras de Judy Wajcman aquiaqui, e aqui.

 

 

A Netflix Cooperativa e Socialista

Conheça a Means of Production, em entrevista ao DigiLabour

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Fonte: twitter.com/means_tv

Uma cooperativa de profissionais de comunicação que lançará conteúdo anticapitalista em plataforma de streaming. Jovens que fizeram a campanha bem sucedida de Alexandria Ocasio-Cortez ao Congresso dos Estados Unidos. Gente que quer reavivar os sentidos de socialismo e marxismo, aproximando-os da classe que vive do trabalho. Conheça a Means of Production, em entrevista com Nick Hayes e Naomi Burton.

 

DigiLabour: Como tem sido a construção da Means of Production como uma cooperativa?

Nick Hayes: Eu e Naomi não queremos tocar um pequeno negócio como donos únicos. Ser uma cooperativa, para nós, é essencial para todo o projeto do Means Media. Nós pensamos que, se o entretenimento fosse feito por meio de uma estrutura democrática, de baixo para cima, oferecida apenas por uma cooperativa de trabalhadores, ele seria muito mais representativo da vida real das pessoas, e seria melhor e mais legal, além de tudo. Então, desde o início da Means of Production e da Means TV, ser uma cooperativa tem sido a única via que estamos dispostos a considerar em termos de estrutura de propriedade. Nós somos membros da Federação de Cooperativas de Trabalhadores dos Estados Unidos e desejamos construir uma economia cooperativista forte ao nosso redor para reunir capital e promulgar mudanças políticas benéficas para a classe trabalhadora em nosso país e internacionalmente. Nos Estados Unidos, as empresas podem gastar o dinheiro que quiserem promovendo candidaturas políticas altamente impopulares que decretem legislação tributária e comercial que beneficie seus financiadores. Essa questão do dinheiro na política está incluída na estrutura das instituições políticas americanas e não vai desaparecer tão cedo. Como um setor da economia cooperativista, poderíamos agrupar capital e recursos de maneira semelhante e trabalhar para apoiar e promulgar reformas políticas que beneficiem trabalhadores e trabalhadoras, seja de cooperativas ou não. Mas aí o buraco é mais embaixo, é claro. A economia cooperativista está apenas começando nos Estados Unidos, mas estamos empolgados em fazer parte dela estando na Means Media e esperamos ajudar a construir o poder real do trabalhador e o seu domínio sobre a economia.

 

DigiLabour: Como é o sistema de pagamento para os trabalhadores?

Naomi Burton: Eu e Nick somos, por enquanto, os únicos trabalhadores em tempo integral. Nosso objetivo, até o fim da captação de recursos, é ser capaz de trazer mais algumas pessoas em tempo integral, bem como ter orçamentos mais robustos para esses projetos de entretenimento que, até o momento, foram autofinanciados. Todos os trabalhadores em tempo integral da Means TV ou Means of Production receberão uma fração da propriedade da iniciativa, onde teriam o mesmo poder de decisão e receberiam uma parte dos lucros da cooperativa. Quase todos os talentos, que aparecem na tela ou nos bastidores, cujo trabalho é apresentado na plataforma, receberão saldo residual, que é um compartilhamento dos lucros da Means TV por um período de tempo, tentando imitar o que é padrão em sindicatos de talentos e grandes plataformas de streaming.

 

DigiLabour: Quais são suas referências na mídia de esquerda?

Naomi: Nós nos inspiramos muito na propaganda internacional de esquerda e em alguns filmes que surgiram na antiga União Soviética. Mas a maior parte da nossa inspiração vem da vida cotidiana que trabalhadores e trabalhadoras enfrentam sob o capitalismo, e como podemos comunicar para construir empatia, senso de compreensão e solidariedade comuns.

DigiLabour: Como estão os preparativos para o lançamento da Means TV?

Nick: Está indo tudo muito bem! Estamos nos estágios finais de preparação dos conteúdos para o lançamento e é emocionante ver o que deu para reunir em mais de um ano de trabalho. A Means TV é uma plataforma de streaming cooperativa dedicada ao entretenimento. Teremos coisas como como desenhos animados, comédias originais, dramas ficcionais, documentários, talk shows, entre outros. Estamos trabalhando para criar uma estrutura midiática duradoura, não sectária e de esquerda, com o objetivo comum de pôr fim à violência do capitalismo e do imperialismo nos Estados Unidos e em todo o mundo. Para arrecadar fundos para nosso primeiro ano de programação, lançaremos uma campanha de arrecadação. Lançaremos dez semanas de conteúdo em uma campanha chamada “Pão e Rosas” (Bread and Roses). A cada semana, teremos vozes proeminentes da esquerda ou da classe trabalhadora, que nunca são ouvidas pela mídia tradicional, explicando a Means TV. Também lançaremos conteúdos divertidos todas as semanas sobre o mesmo tema do porta voz daquele período. Animações, paródias, esquetes, stand-ups.

 

DigiLabour: Em uma entrevista recente à revista Jacobin, vocês disseram: “não possuímos narrativa alguma sobre o socialismo nos Estados Unidos. As pessoas mal sabem o que quer dizer ‘austeridade’. Eu mal sabia o que queria dizer até 2016, embora estivesse sendo afetado por ela”. Quais são, então, os desafios de comunicação da esquerda com a classe trabalhadora?

Naomi: Acho que temos dois desafios reais nos Estados Unidos no sentido de construir uma maior consciência de classe e do poder de trabalhadores e trabalhadores. O primeiro é tornar normais palavras como socialismo, comunismo e socialismo. Todas elas são e serão usadas contra a esquerda, e isso precisa ser desarmado. Uma parte disso é a reconstrução de algum grau de sentimento pró-sindical nos Estados Unidos e a vinculação disso a uma crítica marxista do capitalismo. A segunda é que precisamos mostrar que os socialismo é algo legal pra caramba. Isso é basicamente toda a nossa missão na Means Media. Queremos tornar o socialismo e a consciência de classe tão legais que seja irresistível fazer parte de um movimento cultural tão forte, transformando a política permanentemente. Temos que quebrar ideias de militarismo e individualismo que são mostradas sempre pelo cinema e pela televisão imperialista dos Estados Unidos. Isso levará tempo, e nós faremos isso mostrando programas de entretenimento que são, sim, anticapitalistas, mas o mais importante é que sejam engraçados, divertidos, entretendo-nos e contando histórias legais que você não verá em nenhum outro lugar.