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As Ambivalências do Cooperativismo na Área de Cultura: entrevista com Marisol Sandoval

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Marisol Sandoval é professora da City University of London e possui pesquisas nas áreas de trabalho digital (outro texto aqui), mídia alternativa e mídias sociais para além das mídias sociais corporativas. 

Nos últimos anos, tem investigado as cooperativas na área de cultura. Um de seus textos, “Enfrentando a precariedade com cooperação”, foi traduzido para o português. Outros textos podem ser lidos aqui e aqui. Em seu texto mais recente, Sandoval trata do cooperativismo de plataforma entre a subversão e a cooptação, com o risco de reproduzir um “ativismo empreendedor”.

Em entrevista à DigiLabourMarisol Sandoval analisa o cooperativismo e o cooperativismo de plataforma, com potencialidades, limites e contradições, principalmente a partir de sua pesquisa no setor de cultura. Também reflete sobre como sua investigação acabou se tornando uma espécie de pesquisa-ação, com impactos para além do universo acadêmico.

 

DIGILABOUR: Quais os desafios de compreender as cooperativas de um ponto de vista marxista?

MARISOL SANDOVAL: Eu acredito que Marx era bem complacente à ideia de cooperativa. Existem limitações. Para ele, as cooperativas realmente eram uma forma de produzir fora do sistema de trabalho assalariado, fora da divisão entre proprietários e trabalhadores, que isso era possível. Contudo, também sabia que, a partir do momento em que as cooperativas vivem e operam dentro do capitalismo, isso necessariamente reproduz os problemas que existem no sistema. É bem óbvio quais são esses problemas: internamente, cooperativas talvez sejam democráticas e apaguem divisões entre proprietários e não-proprietários, mas elas ainda têm que operar em uma economia de mercado capitalista, tendo que competir com outros negócios. Elas são negócios, afinal de contas, e encaram o constante desafio de garantir renda o suficiente para que possam efetivamente pagar seus membros. Ao mesmo tempo, é um modelo bem interessante em termos de se pensar sobre como ocorrem as mudanças sociais. É um modelo que está propondo mudança social por meio de um tipo de transformação gradual, opondo-se à luta de classes radical. Desta forma, isso tudo remonta a Robert Owen, considerado frequentemente como o pai do movimento cooperativista no Reino Unido, que era um um reformista social, por causa da ideia de criar vilas cooperativas, expandi-las e transformar o capitalismo a partir de dentro. Entãoisso é bem diferente de dizer que nós precisamos de uma luta de classes revolucionária para transformar o capitalismo. Muitos marxistas também criticaram cooperativas, e uma das principais vertentes de crítica é a chamada crise degenerativa, formulada por Rosa Luxemburgo, em que argumenta que, a longo prazo, ou as cooperativas se inserem nos termos do capitalismo – meio que perdendo seus valores e ambições políticas, tornando-se efetivamente empresas capitalistas, no fim das contas – ou, se elas não se tornarem economicamente bem-sucedidas, eventualmente irão acabar se dissolvendo, pois não terão recursos o suficiente para suas operações, pagar seus membros, e acabarão quebrando. É uma crise degenerativa que coloca que ou você é radical politicamente – e então não será capaz de obter sucesso dentro do mercado capitalista – ou você tem sucesso no mercado capitalista, mas não pode mais ser politicamente radical. Eu acredito que essa seja uma crítica bastante válida e que isso é de fato uma luta que envolve as cooperativas, mas, obviamente, não é tão preto no branco assim. Há muitas cooperativas que efetivamente dão certo e conseguem manter suas ambições políticas ao mesmo tempo em que são capazes de sustentar suas operações. Então, é possível, mas é um desafio constante. Em minhas entrevistas, por exemplo, eu conversei com membros de cooperativas que afirmaram ter relutado em ponderar algumas coisas: quando alguém os procura para fazer vídeos para eles, se eles trabalham com essa pessoa com base em sua orientação política ou não. Eles talvez recusem trabalho pelo fato de o pensamento do cliente não ser compatível com os valores da cooperativa, e isso reverbera, claro. Há consequências negativas para a renda deles, mas estão dispostos a isso, a aceitar essas consequências. Nós poderíamos dizer, então, que as cooperativas, de forma geral, são bem ambivalentes. São potencialmente radicais politicamente, mas não necessariamente. Não são automaticamente anticapitalistas, e sequer automaticamente políticas. Há um vasto espectro de Cooperativas por aí. Marx, novamente, expressa esse tipo de ambivalência que encontramos nas cooperativas quando diz que elas significam que os trabalhadores estão se tornando seus próprios capitalistas. Por um lado, os trabalhadores superam esse tipo de cadeia do trabalho assalariado, mas eles também não podem realmente escapar do paradigma capitalista, e então se tornam seus próprios capitalistas. Isso é bem ambivalente. E então, sim, cooperativas podem existir dentro do capitalismo, que é o que as torna tão apelativas como projeto prefigurativo, como política prefigurativa, pois são passíveis de realização aqui e agora. Mas esse é também um problema, pois as torna muito suscetíveis à cooptação.

 

DIGILABOUR: Trabalhar sempre envolve, dialeticamente, expressão e expropriação. Quais potencialidades e limites você tem observado nas cooperativas do setor cultural?

SANDOVAL: Vou mencionar três questões. A primeira, definitivamente, é que existe um risco de autoexploração, como poderíamos nomear, ou talvez, não necessariamente isso, mas, o fato de ainda permanecer atado às estruturas competitivas do mercado, o que frequentemente leva as pessoas a terem que trabalhar por uma remuneração menor do que gostariam. Eu observei que, em muitas cooperativas, especialmente no início, os membros têm que fazer bastante trabalho não remunerado, trabalhar em jornadas bem longas, o que é muito estressante e exaustivo. Então, não é como se cooperativas fossem essa solução mágica na qual você apenas inicia uma e está tudo ótimo. Acho que a questão de como assegurar que as condições de trabalho sejam realmente boas é, de fato, ativamente, um ponto de reflexão para as cooperativas, e acredito que em muitas delas isso já seja recorrente em suas discussões. Os membros querem ter boas condições de trabalho, mas isso nem sempre é tão fácil de se conquistar por causa de restrições e dependências da competividade de mercado, entre outros. Então, definitivamente, o risco de autoexploração é um problema potencial e central. A segunda questão é o que a mídia chama de “risco de um gueto alternativo”. São as cooperativas que operam em pequenos nichos e segmentos, e o fazem de maneira bem-sucedida, mas não são capazes de expandir a ideia da cooperativa e torná-la disponível para um número maior de pessoas. Um problema é que, às vezes, essas cooperativas que prosperam são tanto politicamente radicais quanto economicamente bem-sucedidas, operando em mercados de nicho. E são capazes de fazer isso pois não há outras cooperativas em volta naquela mesma área. É isso o que lhes dá oportunidade de preencher uma lacuna na qual você pode ser politicamente radical e economicamente bem-sucedido. Eu sou bem cética quanto à ideia da possibilidade de escalada da economia cooperativista, de expandir cooperativas, e mais e mais cooperativas, e só, transformando o capitalismo de dentro pra fora. Acho que há vários problemas nessa ideia. A terceira questão é um risco grande de cooperativas se tornarem apolíticas e empresariais, o que é um risco não apenas para as cooperativas na área de cultura, mas para todas elas. Um pouco alinhando-se à crise degenerativa e seu argumento, acabam deixando de lado suas visões políticas, e ficam felizes e satisfeitas apenas com os benefícios que o modelo cooperativo pode trazer para os membros individuais. Claro que é muito bom se algumas pessoas tiverem condições de trabalho melhores por estarem empregadas em cooperativas, mas eu acho que, nesse sentido, o potencial político das cooperativas não está totalmente desenvolvido. Eu acredito que as cooperativas podem ir muito além disso se elas adotarem uma instância politicamente ativa relacionada ao fato de serem uma cooperativa em si, ou seja, ser uma cooperativa como um projeto político, conectando-se também com outras cooperativas, outras lutas, outros movimentos, grupos, sindicatos, e por aí vai. Há um tensionamento entre cooperativas como apenas um projeto – bem problemático – de melhoria de condições de condição para membros individuais e, por outro lado, cooperativas sendo marcadamente um projeto político que busca realizar transformação social. Para expandir o seu potencial político, elas precisam colaborar entre si e também formular demandas políticas para que elas se conectem e, juntas, formem um tipo de plataforma que advoga e argumenta por mudanças. Isso iria melhorar condições de trabalho não apenas para os membros, claro, mas para todos. Inclusive melhoraria as condições que permitem que as pessoas criem novas cooperativas. Eu acho, por exemplo, que um modelo de renda básica poderia ajudar as pessoas a ter mais tempo livre, a partir do qual elas podem, por exemplo, criar cooperativas e apreender o trabalho socialmente necessário pelo qual você geralmente não é pago no início. Esse é um exemplo de política pública que talvez poderia ajudar na criação de mais cooperativas, tornando-as um modelo acessível para um número maior de pessoas. Eu acho que é realmente importante efetivar as conexões entre cooperativas e outros grupos que lutam por mudança social. Movimentos sociais, sindicatos, entre outros. Acredito que criar uma coalizão e um movimento mais amplo é realmente importante nesse cenário.

 

DIGILABOUR: Como, em sua visão, o cooperativismo de plataforma aprofunda as tensões e contradições do cooperativismo? E como oferecer uma crítica solidária?

SANDOVAL: O cooperativismo de plataforma é um modelo muito interessante e com apelo, resgatando a chamada “economia do compartilhamento” e transformando-a, de fato, em partilha. Pegar as grandes plataformas e dar realmente para as pessoas é modelo muito interessante, mas acho que sabemos muito pouco sobre isso, e é necessário muito mais pesquisas. Nem sempre fica claro o que cooperativas de plataforma, de fato, são, tanto em teoria quanto na prática. O que conta para ser uma cooperativa de plataforma? Quais as fronteiras? Eu acho também que há poucos exemplos de cooperativas de plataforma que realmente existem. Muitas que eu conheço existem na maioria das vezes como uma ideia, uma visão, um projeto, em vez de uma cooperativa funcionando ativamente, como aquelas que eu entrevistei na área de cultura, por exemplo, que, de fato, existem para beneficiar seus membros e suas condições de trabalho. Eu penso que no reino das cooperativas de plataforma isso tudo é muito mais fluido e ainda não está claro o que elas são e o que podem fazer. Eu acho que são necessárias muito mais pesquisas para descobrir mais sobre esses projetos. Acho que há mais pesquisas prestes a sair e é um conceito ainda debatido há pouco tempo. Politicamente, eu acho que há uma grande variedade e um espectro muito amplo no cooperativismo de plataforma. Algumas dessas cooperativas tem em seu cerne a ideia de aprimorar condições de trabalho. Outras possuem foco em transformar o capitalismo de forma geral. Há também as que talvez sejam completamente apolíticas, entre outras. O que eu tenho observado com bastante frequência em debates sobre o tema é, algumas vezes, uma afinidade com o empreendedorismo. Há uma linguagem similar às de startups. Há também uma grande euforia em relação às possibilidades deste modelo. Acho que nós precisamos ser realmente bem críticos em relação a essa linguagem do empreendedorismo. Não basta, por exemplo, ser crítico das Big Tech, mas aceitar o empreendedorismo. Acho que essas ideias empreendedoras devem ser examinadas de maneira bem crítica. Também nas autodescrições das cooperativas de plataformas em seus sites, que eu analisei recentemente, descobri que há, geralmente, uma adesão muito acrítica dos termos que vêm do vocabulário da área de negócios e do empreendedorismo, tais como lucro, acionista, investimento, retorno sob investimento (ROI), esse tipo de vocabulário, e eu acredito que isso seja bem problemático. Eu não quero entrar muito nos detalhes do motivo do empreendedorismo ser problemático, mas acredito que uma justificativa específica, que está relacionada à minha pesquisa, é que o empreendedorismo carrega um modo de trabalho que é voltado à competição, é altamente baseado no mito individualizado do criativo-empreendedor genial, que é muito trabalhador, com ritmo acelerado, sempre a postos para o trabalho, sendo flexível, e por aí vai. Eu acho que são todas essas qualidades laborais que precisam ser criticadas. Então, se cooperativas querem ser uma alternativa a isso, elas também precisam pensar em modos alternativos de trabalho que não reproduzam esses padrões, mas que tirem parte da velocidade e das pressões das nossas vidas no trabalho. Não é suficiente somente substituir uma economia empreendedora individualizada por uma empreendedora cooperativista. Isso é muito simples: tem a ver com questionar de que modo podemos nos engajar no trabalho. É sobre questionar o papel que ele desempenha em nossas vidas e o quanto nós trabalhamos. Acho que essas são as questões que devem ser consideradas. Precisamos encontrar uma alternativa ao vocabulário que usamos para falar sobre trabalho, à nossa maneira de abordá-lo, e à função que o trabalho desempenha em nossas vidas. Eu acho, de verdade, que o empreendedorismo não nos leva a nenhum lugar que seja perto disso, então, creio que ele deve ser rejeitado e criticado, e que precisamos desenvolver ideias alternativas.

 

DIGILABOUR: Como tem sido sua experiência na comunicação com públicos não acadêmicos? A sua pesquisa tem algo de pesquisa-ação?

SANDOVAL: Minha experiência tem sido principalmente nas entrevistas com membros de cooperativas do setor cultural. Eu definitivamente não comecei com o intuito de fazer uma pesquisa-ação. Iniciei com a intenção de descobrir mais sobre o modelo de cooperativas e ver como ele poderia ser, talvez, uma solução para os problemas das condições precárias e de exploração do trabalho individual no setor cultural. Ao fazer isso, conversei com pessoas de diversas partes do Reino Unido que, de fato, trabalham em cooperativas na área de cultura e, por meio desses contatos, de certa forma, eu estabeleci uma relação de trabalho mais próxima com essas pessoas e poderia dizer que isso acabou se tornando, em alguma medida, uma pesquisa-ação. Eu colaborei, por exemplo, com a cooperativa Blakehouse, produtora de filmes. Eles me ajudaram a criar dois vídeos, que evidenciam um trabalho em conjunto com outras duas cooperativas do setor cultural, Calverts Printers e Ceramic Studio, que é um pequeno estúdio de cerâmica no sul de Londres. Eles me ajudaram a criar o site com resultados da pesquisa, Cultural.Coop., e também me auxiliaram na organização de um dia de network para as cooperativas. Juntamos membros de cooperativas de cultura de todo o país com a ideia de reuni-los para refletir como seria um movimento de cooperativas na área de cultura. De que forma elas poderiam apoiar umas às outras para que não tivessem que trabalhar de maneira individual lidando com complicações do dia-a-dia?  Talvez criar um senso de comunidade, o que poderia se tornar demandas políticas para um movimento de cooperativas de cultura. Isto é, como elas poderiam trabalhar em conjunto e juntar forças em prol do poder coletivo. A ideia deste projeto, então, acabou se transformando em uma pesquisa-ação. Como podemos criar recursos? Como algo pode ser feito a partir da pesquisa que, de fato, dê suporte ao movimento, que não seja conhecimento acadêmico, mas que realmente ajude a fortalecer as cooperativas de cultura? Que seja algo que realmente evidencie esse modelo como uma alternativa ao trabalho em um emprego cooperativo ou individualmente como freelancer. A ideia do site é inspirar estudantes e outras pessoas da área que estejam procurando por alternativas, no sentido de mostrar que, de fato, esse é um modelo viável, que existe e que pode fazer uma diferença significativa. Foi realmente prazeroso conhecer essas jovens pessoas inspiradoras, criativas e talentosas que trabalham em cooperativas de cultura, e que basicamente fizeram desta pesquisa ser o que ela é. Foi um processo incrível! Eu nunca tinha experenciado nada assim antes na pesquisa, em que as pessoas simplesmente se juntavam e estavam ávidas para ajudar e dar ideias para o projeto. Foi uma experiência realmente única!

 

DIGILABOUR: Quais as próximas etapas da sua pesquisa?

SANDOVAL: Em termos de cooperativas, eu tenho colaborado com um grupo de pesquisadoras que têm movimentado o projeto Cultural Workers Organize. Atualmente estamos trabalhando em uma pesquisa sobre cooperativas de cultura no Reino Unido, no Canadá e nos Estados Unidos. Para além das entrevistas já realizadas, essa pesquisa é realmente voltada para o mapeamento do setor cooperativista nas indústrias culturais, quantos membros têm, como realmente são as condições de trabalho, quais os benefícios e os problemas do setor. Esperamos apresentar alguns resultados iniciais desta investigação até o fim do ano. Espero que esse projeto ajude a revigorar um pouco o meu site Cultural.Coop. Eu também vou colaborar novamente com a cooperativa de audiovisual Blakehouse para criar outro curta sobre cooperativas, e tudo estará no site.

“A noção de trabalho digital pode apagar as diferenças entre as atividades de trabalho”, dizem autoras de novo livro

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Saiu mais um livro sobre trabalho mediado por plataformas, desta vez na França. Lançado dia 25 de setembro, Les nouveaux travailleurs des applis é organizado por Sarah Abdelnour (Moi, Petite Entreprise) e Dominique Méda (Le Travail : une valeur en voie de disparition?e fruto de uma pesquisa coletiva que envolveu também as seguintes pesquisadoras: Pauline Barraud de Lagerie, Sophie Bernard, Anne Jourdain, Hélène Nasom-Tissandier, Sidonie Naulin, Diane Rodet, Luc Sigalo Santos e Morgan Sweeney.

Enviamos perguntas por e-mail, que foram respondidas conjuntamente por Sarah Abdelnour, Dominique Méda, Sophie Bernard e Diane Rodet.

 

DIGILABOUR: O livro mostra pesquisas com motoristas e entregadores de aplicativos, microtrabalhadores e até cozinheiros que vão até à casa do cliente. O que a investigação revela sobre a multiplicidade do trabalho digital na França?

ABDELNOUR, MÉDA, BERNARD e RODET: Acreditamos que a diversidade desses trabalhadores não deve ser apagada. Como mostram os capítulos do livro, não é a mesma coisa ser um chef de cozinha que vem trabalhar em casa como parte da plataforma La belle assiette e um entregador do Deliveroo, que está em período integral para essa plataforma. As remunerações não são as mesmas, nem as condições de trabalho e, portanto, a noção de trabalho digital corre o risco de apagar todas essas diferenças. Por outro lado, há pontos em comum: a competição direta exercida por essas plataformas com a prática clássica de um certo número de profissões que são empurradas paras as plataformas e também o fato de que os status de trabalho adotado é freqüentemente microempreendedorismo. Como resultado, e como mostram os capítulos do livro, os trabalhadores são frequentemente mal pagos e sem proteção, privados de apoio quando são desconectados, estão em concorrência entre si, etc. Também mostramos que, “dentro da mesma categoria” (motoristas, entregadores, microtrabalhadores), existem grandes diferenças e uma polarização bastante forte, a depender de fatores como as tarefas serem realizadas como amador ou profissional, como fonte de uma pequena renda extra ou como suporte para uma renda principal. Em resumo, a ideia de reunir todas essas atividades em uma coisa só, incluindo também aquelas que as pessoas fazem gratuitamente no Facebook, por exemplo, nos parece correr o risco de homogeneizar tudo sem fazer as distinções necessárias.

 

 

DIGILABOUR: O que a pesquisa revela sobre as possibilidades de resistência coletiva ao capitalismo de plataforma?

ABDELNOUR, MÉDA, BERNARD e RODET: Com a expansão acelerada do modelo de economia de plataforma, os trabalhadores se organizaram rapidamente para resistir à influência desses novos intermediários. A ação coletiva desses trabalhadores “autônomos”, no entanto, enfrentou grandes obstáculos, pois estão fora, a priori, do escopo da legislação trabalhista e das organizações sindicais dos assalariados. Além disso, é provável que a concorrência torne a mobilização coletiva improvável. E, no entanto, se considerarmos a França, no outono de 2015, os motoristas se reuniram na sede da Uber em Paris para denunciar o declínio nas taxas que foram decididas unilateralmente pela empresa. A partir de então, as mobilizações têm ocorrido regularmente na França, como em outros países da Europa e América. No caso francês, quais recursos permitiram a emergência e a sustentação de ações contestatórias? Isso se deve ao fato de que grupos de motoristas foram formados rapidamente no verão de 2015, sendo alguns próximos a sindicatos, ou que contaram, pelo menos, com motoristas com experiência em conflitos de trabalho. Por outro lado, e não relacionados ao surgimento desses coletivos, os motoristas compartilham uma posição social comum, uma mistura de origens sociais, trajetórias profissionais, origens migratórias e identidade masculina, que aparecem em suas práticas e seus discursos. A narrativa das mobilizações destaca os coletivos formados ad hoc, mas também mostra os atores mais tradicionais da representação dos trabalhadores: os sindicatos. Embora os grupos de motoristas pudessem usar o apoio das centrais sindicais, isso não foi isento de tensões. Os sindicalistas são, muitas vezes, suspeitos de não representarem a base dos motoristas, e isso também acontece com as confederações. Assim, os sindicatos buscam seu lugar nesse novo mundo do trabalho nos quais os empregadores ignoram as leis trabalhistas e as organizações coletivas. Ao defender os salários ou buscar alternativas, essas organizações tentam defender esses trabalhadores “autônomos” altamente controlados, que procuram proteção, mas que nem sempre se reconhecem nas organizações tradicionais.

Srnicek: “Os principais tipos de plataformas foram reduzidos para três”

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Nick Srnicek, professor de economia digital no King’s College, é um dos teóricos relacionados ao aceleracionismo. Junto com Alex Williams, seu companheiro de manifesto aceleracionista, publicou Inventing the Future: postcapitalism and a world without work.

No Brasil, Srnicek é mais famoso pelo livro Platform Capitalism, publicado no fim de 2016. Na obra, trata das lógicas de extração de valor nas plataformas – em seus diversos tipos – e argumenta por uma coletivização das plataformas.

Em 2020, sairá seu novo livro, com Helen Hester, chamado After Work: the politics of free time, em que tratam de automatização do trabalho doméstico e suas implicações para questões de gênero, em direção a um mundo “pós-trabalho”.

Além disso, em setembro deste ano, Srnicek publicou um relatório sobre criação e captura de valor na economia digital, com especial atenção para os países em desenvolvimento.

Em entrevista à DigiLabour, Nick Srnicek fala sobre mudanças na economia digital, inclusive em sua tipologia de plataformas, coletivização das plataformas e seu novo livro.

 

DIGILABOUR: O livro Platform Capitalism tornou-se uma referência e a expressão ficou na moda. De lá para cá, quais mudanças aconteceram no cenário e como isso tem afetado seu diagnóstico?

NICK SRNICEK: Houve algumas mudanças significativas no meu pensamento desde que escrevi o livro. Em primeiro lugar, acho que os principais tipos de plataforma foram reduzidos para três: plataformas de publicidade, plataformas de nuvem – incluindo o que eu chamei de plataformas industriais – e plataformas lean. As de publicidade estão atingindo seus limites de mercado, com empresas como Facebook e Google dominando o mercado (anglófono) de publicidade digital. As plataformas lean têm enfrentado lutas significativas – o preço das ações da Uber tem sofrido impactos expressivos desde sua abertura de capital e outras empresas chamadas “unicórnios” estão cada vez mais cautelosas em enfrentar o escrutínio do mercado de ações. As plataformas de nuvem, por outro lado, têm crescido em tamanho e poder aos trancos e barrancos. A Amazon deixou de ser uma empresa de e-commerce e agora se tornou, de fato, uma empresa de nuvem. A Microsoft ressuscitou dos mortos por meio de sua mudança para a computação em nuvem. E o Google está cada vez mais concentrando seus esforços no desenvolvimento de seu braço envolvendo a nuvem. A fusão com as plataformas de nuvem é o modelo de “inteligência artificial como serviço”, com várias empresas capazes de oferecer serviços corporativos de aprendizado de máquina (machine learning) em escala global. Em nível global, há somente um pequeno número de empresas, que estão cada vez mais poderosas, capazes de fazer isso: Amazon, Google, Microsoft, Alibaba e, sem dúvida, algumas outras. Eu acho que a dinâmica monopolizadora de plataformas está se tornando ainda mais intensa nessas empresas.

Uma segunda grande mudança é que tenho tentado estender minha análise além do foco local. Em outras palavras, o que acontece – e o que é diferente – quando essas plataformas surgem além de suas fronteiras (geralmente americanas)? Eu acho que há uma série de fenômenos notáveis que vêm à tona quando você adota uma perspectiva internacional. Em primeiro lugar, o significado dos acordos comerciais para essas empresas. Em todo o mundo, os últimos acordos comerciais tem incluído seções novas sobre o fluxo livre de dados – e isso significa que, em um mundo tecnológico centrado nos Estados Unidos, o fluxo livre de dados realmente será para os Estados Unidos. As maiores plataformas estão pressionando para que essas ideias sejam incluídas nos acordos comerciais e estão resistindo aos esforços envolvidos na localização de dados (segundo a qual há restrições no fluxo de dados através das fronteiras). Efetivamente, o fluxo livre de dados é um elemento essencial (embora não indispensável) das operações internacionais dessas empresas.

O segundo ponto importante está relacionado a isso: muitas dessas empresas estão oferecendo serviços e/ou tecnologias baratas (ou mesmo gratuitas) aos países em desenvolvimento em troca de seus dados. O caso mais claro disso pode ser o da empresa chinesa de inteligência artificial que forneceu tecnologia de reconhecimento facial ao Zimbábue em troca do acesso aos dados que o sistema de vigilância coleta. Mas ideias semelhantes mostram os esforços do Facebook e do Google para fornecer internet “gratuita” ao mundo em desenvolvimento, e há uma variedade de outros mecanismos pelos quais isso também está acontecendo. Em geral, está sendo construída uma relação em que os países em desenvolvimento fornecem dados aos Estados Unidos (e China, cada vez mais) e esses países licenciam ou alugam serviços aos países em desenvolvimento. Como esses países não têm esperança de alcançar os que comandam as plataformas, isso é efetivamente um sistema moderno de subdesenvolvimento forçado em relação aos dados.

Meu último argumento seria o que muitos já falaram: o papel que os paraísos fiscais desempenham na captura e retenção desses lucros. Rastrear como e onde isso está acontecendo é importante, não apenas para compreender, mas também para esboçar uma resposta significativa. Particularmente, as discussões atuais na OCDE sobre tributação digital são muito fracas, oferecendo principalmente gestos simbólicos para reter alguns dos piores excessos, deixando a maior parte do mundo incapaz de cobrar impostos. Portanto, seguir essa linha de pensamento tem implicações importantes sobre o fluxo de capital em relação aos países centrais.

 

 

DIGILABOUR: Em relação ao futuro do capitalismo de plataforma, você afirma que precisamos construir plataformas pós-capitalistas e coletivizar as plataformas. Como?

SRNICEK: Imaginar plataformas alternativas é um problema difícil e que ainda precisa ser melhor resolvido. Mas alguns exemplos podem ser suficientes para apontar para as direções certas. Primeiro, podemos imaginar versões municipais das plataformas populares de transporte. Em vez da Uber explorar demais seus trabalhadores e usar brechas fiscais para desviar as receitas aos seus investidores, poderíamos imaginar um município possuindo a plataforma, pagando bem aos motoristas, dando-lhes direitos trabalhistas e usando qualquer receita excedente para ser reintegrada à plataforma, melhorando-a. Ou, em outra escala, podemos imaginar plataformas de nuvem regionais (como a União Europeia está desenvolvendo) que fornecem aos pesquisadores e outros usuários um poder computacional que não seja dependente do gigante de Bezos. Em geral, a ideia de nacionalizar algo como o Google não faz sentido. Mas, quando analisamos as partes constituintes dessas empresas, podemos começar a imaginar maneiras de criar alternativas de propriedade pública, de propriedade de trabalhadores ou de usuários, evitando todos os problemas que essas empresas estão criando.

 

DIGILABOUR: Em sua visão, é necessário nacionalizar as plataformas?

SRNICEK: Não é necessário, mas em alguns casos pode ser muito útil. O que eu acho importante sobre o Estado é que ele é um dos poucos atores que parece ter os recursos e poderes necessários para assumir o controle das plataformas de primeira linha. Isso pode significar que é taticamente útil nacionalizar algumas plataformas (por exemplo, criar um Uber que seja de propriedade e operação pública), mas também pode significar que é mais uma questão de canalizar recursos estatais para plataformas pertencentes a outros meios (por exemplo, cooperativas ou modelos de código aberto ou baseados em token).

 

 

DIGILABOUR: Quais são as linhas gerais do seu próximo livro, After Work, junto com Helen Hester?

SRNICEK: Meu próximo livro com Helen Hester é uma tentativa de ver como os princípios do “pós-trabalho” podem ser aplicados ao trabalho de reprodução social (por exemplo, limpar, cuidar, cozinhar, etc.). Normalmente, a automação desse trabalho é vista como impossível ou moralmente suspeita – e, portanto, geralmente se pensa que os princípios do “pós-trabalho” não se aplicam realmente a esse tipo de trabalho (ou, pior ainda, o trabalho reprodutivo é considerado algum tipo de atividade virtuosa). Nosso argumento é que as ideias de “pós-trabalho” podem ser aplicadas ao trabalho reprodutivo, mas elas precisam ser modificadas para isso. Em termos gerais – e sem revelar muito do livro – defendemos a coletivização desse trabalho, a reorientação da arquitetura para o luxo público, o desenvolvimento de uma assistência tecnológica liderada por trabalhadores e a gestão consciente dos padrões de expectativas. Cada uma dessas ideias está muito condensada aqui, mas o livro tentará definir o que queremos dizer com cada uma dessas metas.

 

“A uberização é uma extensão da racionalidade empreendedora”, afirma Laval

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Christian Laval é professor do departamento de sociologia da Université Paris Nanterre e conhecido por seus trabalhos com Pierre Dardot, como A Nova Razão do Mundo e Comum. Lançou há pouco no Brasil o livro “A escola não é uma empresa”, também pela editora Boitempo.

Em entrevista à DigiLabour, Laval fala sobre:

  • Totalização da racionalidade e possíveis brechas para projetos alternativos;
  • O papel da comunicação na circulação da racionalidade empreendedora e o léxico empresarial;
  • Uberização e racionalidade empreendedora;
  • Comum na vida cotidiana;
  • Comum como princípio de luta e de instituição

 

DIGILABOUR: Um dos principais dilemas no confronto à racionalidade empreendedora é que mesmo projetos alternativos precisam, até certo ponto, do “espírito empreendedor” para obter financiamento de projetos. A racionalidade empreendedora realmente é algo totalizante ou há brechas?

CHRISTIAN LAVAL: A racionalidade empreendedora tende a prevalecer quando depende de subsídios estatais, como acontece na França para muitas associações de economia solidária ou quando uma cooperativa é exposta a uma competição ou procura desenvolver-se globalmente, como aconteceu com o grupo cooperativista basco-espanhol Mondragón. Esse é um processo bem conhecido dos especialistas em organizações, a que chamam de isomorfismo institucional. Isso leva uma cooperativa ou uma associação a imitar o comportamento de uma empresa. Este fenômeno também é perfeitamente observável na França. Mas generalizar essa reflexão levaria a esquecer duas coisas. Em primeiro lugar, o poder da motivação política das pessoas envolvidas em iniciativas “alternativas” que devem ser espertas para preservar, em um contexto de burocracia e em relações de forças concorrenciais desfavoráveis, “o espírito do comum”. Em segundo lugar, a dimensão da luta social e política de qualquer alternativa. Há certa ingenuidade no mundo alternativo, que provoca desmoralização quando a dificuldade de “fazer o contrário” não é suficientemente antecipada em uma estrutura dominada pelo capitalismo e pela burocracia estatal. Em outras palavras: o comum é uma luta, e uma luta não apenas ideológica, mas prática.

 

 

DIGILABOUR: Como você vê o papel da comunicação na circulação da racionalidade empreendedora?

LAVAL: O que se chama “comunicação” nas empresas, ou nos partidos políticos que buscam imitar as empresas capitalistas, está além da publicidade e da propaganda, que são os primeiros motores. É uma concepção do mundo segundo o qual o empreendedor é a fonte de todas as ideias, invenções e riquezas. Seria necessário examinar vários aspectos, é claro, a comunicação interna e a comunicação externa da empresa. Essa comunicação empreendedora e empresarial tende a se impor muito além do campo gerencial, principalmente por uma certa maneira de falar que se tornou habitual. O léxico cotidiano agora está cheio de termos que eram específicos do mundo empresarial e do mercado, como se a linguagem que se fala agora tivesse o efeito de “naturalizar” as relações sociais internas da empresa. Podemos, portanto, dizer, como fizemos em “A Nova Razão do Mundo,” que uma “subjetivação neoliberal” está se desenvolvendo por meio da circulação dos temas e vocabulários do mundo da gestão. No entanto, será que isso é tão generalizante quando percebemos e, então, deploramos sua onipresença nos modos de falar e pensar? Fico impressionado ao conversar com pessoas que trabalham em empresas o quanto elas sabem que isso se trata de uma remenda linguística, uma máscara. Isso sempre aparece nas entrevistas, como uma enrolação, uma langue de bois (língua de madeira, em tradução literal). Muitos deles mantém uma relação, se não esquizofrênica, pelo menos cínica com essa comunicação empreendedora e empresarial, e é essa distância que os salva da completa alienação e até de uma estupidez quase patológica.

 

 

DIGILABOUR: Como você vê o processo que chamam de uberização do trabalho?

LAVAL: Não tenho uma posição muito original sobre a uberização do trabalho. Estamos lidando com um novo “capitalismo de plataforma”, cuja característica histórica é explodir a forma salarial da relação entre capital e trabalho, privilegiando a missão, a operação, a corrida, ou seja, microtarefas pagas por unidade e pelas quais a plataforma cobra uma comissão. É o novo mundo dos proletários sem segurança, transformados em “autoempreendedores” superexplorados, e tendo como compensação apenas a liberdade ilusória de trabalhar à vontade. Mas o que é absolutamente notável do ponto de vista histórico é a combinação entre a ideologia empreendedora e os dispositivos digitais. Isso permitiu sua concretização econômica e sua sistematização social. Por racionalidade empreendedora, não queremos dizer apenas um conjunto coerente de ideias, mas um conjunto de questões teóricas e práticas reais que orientam a conduta. A uberização é, portanto, um dos meios pelos quais essa racionalidade se estende, e agora afeta, nos países desenvolvidos, as frações jovens das classes trabalhadoras que nunca conheceram uma condição salarial relativamente protegida por leis trabalhistas e sindicatos.

 

 

DIGILABOUR: Em “Comum”, você e Pierre Dardot falam do comum como um projeto político que também envolve a organização do trabalho. Como você vê a concretização desse “comum” na vida cotidiana?

LAVAL: “Comum” é o nome que demos a um regime muito amplo e muito diversificado de práticas, lutas, experiências, instituições e pesquisas que visam passar para um mundo que vá além do capitalismo, e mesmo além do Estado burocrático, ou pelo menos os primeiros marcos práticos dessa superação. É, se você preferir, um tipo de bússola ou grade de leitura que permite ver como conectam experiências de economia social, certas instituições cooperativas, ocupações de fábricas, lutas de trabalhadores organizadas democraticamente, mobilizações etc. O comum é o que une todas essas práticas, duas dimensões que, para nós, formam um único princípio: uma exigência de autogoverno e ao mesmo tempo, um predomínio do uso coletivo de recursos ou espaços em relação à propriedade privada. Se tomarmos o exemplo dos “Coletes Amarelos” (Gilet jaunes) na França, essas duas dimensões estão muito presentes em sua revolta: é uma luta pela igualdade na partilha da riqueza e, ao mesmo tempo, uma luta pela “democracia real”.

 

 

DIGILABOUR: Como compreender o comum sem idealizações?

LAVAL: Não há ideologia ou idealização em relação ao comum. Insistimos que o comum não é algo dado, nem poderia ser encarnado dentro de uma comunidade tradicional. É um princípio de luta ao mesmo tempo que um princípio de instituição. Não procuramos espalhar um ideal, mas mostrar o que acontece em lutas ou experimentos, de acordo com um método materialista que chamamos entre nós – de forma descontraída, porque é muito pretensioso – de “materialismo das práticas”. Poderíamos complementar ou esclarecer dizendo que o que importa para nós é o caráter institucional das práticas de lutas, resistências ou experiências alternativas: de que maneira elas levam à criação de outra realidade institucional e, portanto, social? Este é o critério decisivo para nós em qualquer análise. E é, a nosso ver, a melhor forma de autoanálise que qualquer movimento ou experimentação social deve fazer, perguntando-se qual forma institucional antiga foi questionada e qual nova forma institucional o grupo ajudou a criar.

A Retórica da Economia do Compartilhamento

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Athina Karatzogianni é professora de Comunicação da University of Leicester e tem pesquisado temas relacionados às teorias de novas mídias, redes de resistências e políticas globais. Ela é uma das autoras do livro Platform Economics: rethoric and reality in the sharing economy, junto com Cristiano Codagnone e Jacob Matthews. A obra destrincha as narrativas sobre a economia digital e suas alternativas, como a questão do comum o cooperativismo de plataforma.

 

DIGILABOUR: Você e os coautores do livro Platform Economics identificaram três grandes narrativas sobre a economia de plataforma: utopia social, otimismo em relação aos negócios à economia, e pessimismo social. Do que se tratam?

ATHINA KARATZOGIANNI: Nós identificamos esses aspectos discursivos e retóricos e, partir dessas três vertentes, selecionamos e discutimos os temas mais controversos, que contrastamos com as evidências empíricas. Entre a análise da retórica e da empiria, também mostramos como isso foi usado no que chamamos de “lobby como enquadramento”. Além disso, realizamos uma análise da produção ideológica em relação aos atores da economia do compartilhamento – discursos a partir do neoliberalismo, do comum e do cooperativismo de plataforma, a partir do trabalho de campo que realizamos em Barcelona, Paris e Berlim. Cada uma delas pode ser associada a grandes narrativas sobre o futuro: grande transformação (utopia social), globalização orientada para o crescimento (otimismo em relação aos negócios e laissez faire econômico) e barbárie ou uberização (pessimismo social). A primeira é uma visão de mudança inteiramente liderada pela comunidade, pela qual a reinserção social da economia é alcançada inteiramente por causa de mudanças no comportamento e na cultura. No segundo item, os indivíduos e as empresas inovadoras são capacitados de maneira mais competitiva e individualista e, então, as forças de mercado são deixadas descontroladas. O terceiro vê as empresas e o trabalho como sendo desintermediados, descentralizados e desconstruídos em elementos menores, a serem novamente mediados por meio de controle panóptico ativado algoritmicamente. É o mundo do “cognitariado lumpen”, do “assalariado algorítmico” e da “algocracia”. Os trabalhos são substituídos por robôs ou transformados em “robôs” (como na Amazon Mechanical Turk), realizando microtarefas altamente rotinizadas e repetitivas. Isso tem aumentado o desemprego e a desigualdade a níveis sem precedentes e alimentado ainda mais sentimentos antagônicos não apenas em relação aos “grupos externos” (ou seja, imigrantes), mas também aos “grupos internos”. No livro, destacamos cinco temas que desenvolvemos:

  1. Cooptação neoliberal da retórica e do movimento da “economia do compartilhamento”;
  2. Capital social e ressurgimento da questão da comunidade;
  3. Efeitos da estratificação e da distribuição de renda (isto é, desigualdade, discriminação racial e questões trabalhistas);
  4. Impactos ambientais (negócios mais ecológicos, menos emissões de CO2…) e socioeconômicos (bem-estar dos consumidores, ganhos de eficiência, impactos em indústrias disruptivas…);
  5. Regulação (ou seja, ranqueamentos e classificações como formas de auto-regulação);

 

DIGILABOUR: Vocês também identificaram oito temas retóricos em relação à economia do compartilhamento. Quais são eles?

KARATZOGIANNI: O movimento de “compartilhamento” surgiu como uma forma de utopia social a partir de uma narrativa mais ampla acerca da sabedoria das multidões e a criatividade do comum. Depois que o desenvolvimento de plataformas de “compartilhamento” deu uma guinada mais “comercial”, o desencanto trouxe cada vez mais críticas. Outros interesses (de indústrias disruptivas, por exemplo) e preocupações (por alguns formuladores de políticas públicas, especialmente por defensores de consumidores e sindicalistas) mais tangíveis exacerbaram o conflito no debate que envolve atualmente a “economia do compartilhamento”. Isso inclui, além da ativação política das empresas disruptivas, as tensões urbanas relacionadas às externalidades negativas causadas por serviços de transporte e hospedagem. O fato de as plataformas de “compartilhamento” operarem em uma “área cinzenta” onde não são legais nem ilegais, mas às vezes violam as leis locais, também levanta preocupações genuínas ou instrumentais em relação à proteção dos consumidores e aos direitos dos trabalhadores “independentes” ou “sob demanda”. Combinando uma análise geral com uma análise do trabalho digital, identificamos oito temas retóricos:
1) Plataformas que ajudam a ressurgir a questão das comunidades, fortalecendo o capital social e aumentando a confiança generalizada;
2) Queda nos benefícios, especialmente para os mais necessitados;
3) Promessas de consumo verde (efeitos ambientais positivos) e ganhos de bem-estar socioeconômico;
4) Retórica de um mundo que permita a migração do trabalho digital sem fronteiras, com uma meritocracia mundial online, o que está presente no mercado de trabalho digital, no trabalho de economistas e em documentos de relações públicas;
5) Dinheiro extra como motivação para as pessoas flexíveis trabalharem no mercado digital (estudantes, aposentados, pais que ficam em casa, etc.);
6) A alegada contribuição da economia digital de trazer de volta ao trabalho os desempregados e os subempregados;
7) Discurso sobre flexibilidade, autonomia e criatividade que supostamente essas plataformas oferecem;
8) Produção ideológica ilusória e otimista de que os avanços tecnológicos e a organização alternativa do trabalho digital baseada em modelos inovadores de produção (comum ou cooperativismo de plataforma) podem “transformar” o capitalismo como modelo rumo à melhoria da comunidade e a uma sociedade mais justa.

 

DIGILABOUR: Como se deu a metodologia da pesquisa?

KARATZOGIANNI: A partir de três conjuntos de literatura (economia crítica da plataformização, organização do trabalho e ativismo digital), usamos uma estrutura integrada para analisar a produção ideológica em plataformas digitais, particularmente em relação à economia compartilhada. Analisamos documentos, entrevistas feitas em campo com 28 pessoas e observação de eventos em Barcelona, ​​Paris e Berlim entre 2015 e 2017. Descobrimos que existem três vertentes ideológicas dominantes: “economia compartilhada”, “comum” e “cooperativismo de plataforma”, dentro de um espectro que varia desde legitimar o neoliberalismo e/ou reafirmar um capitalismo reformista e mais humano até visões mais radicais: uma sociedade cooperativa orientada ao comum e resistência à privatização por meio da recuperação do espaço público como comum. Apesar da óbvia diferenciação entre plataformas empresariais da gig economy e pequenas plataformas orientadas para a comunidade, no estilo cooperativista, e as várias modalidades intermediárias, a gestão de trabalho interno e externo não é um mero exercício de produção de valor, pois afeta condições estruturais que atravessam setores industriais, mas também produz discursos ideológicos e culturais particulares, atualmente envolvendo a recuperação dos comum, usado a partir do que Boltanski e Thévenot chamam de “registro de justificativa moral”. Investigamos mais profundamente a produção ideológica e as estratégias agressivas de players intermediários que operam dentro do que Kenney e Zysman chamam de “ecossistemas” baseados em plataforma gerados de forma privada. Também investigamos a produção ideológica de alternativas, como o comum e o cooperativismo de plataforma, em termos de resistência digital ao trabalho e novas linhas de ação possíveis.

 

DIGILABOUR: Quais são as contradições presentes no “comum”?

KARATZOGIANNI: Entrevistamos um usuário do Goteo, um artista e ativista de jogos digitais que levantou fundos para a produção de um documentário que ilustra a implementação de redes mesh em comunidades rurais no norte da Grécia, e como isso também contribuiu para a desenvolvimento de processos produtivos mais ou menos autônomos, principalmente nos campos da agricultura e do artesanato. Ele afirma: “achamos que era uma boa ocasião para lançar não apenas essa campanha de crowdfunding para o documentário, mas também, em geral, a ideia de crowdfunding para movimentos sociais gregos”. Vale a pena notar que ele considera que sua própria experiência de financiar um documentário usando o Goteo pode ser transferida para a totalidade dos “movimentos sociais gregos” e que essa coleção de financiamento (e trabalho) baseado em plataformas representaria um remédio contra o esgotamento de grupos sociais e políticos que antes se baseavam na captação de recursos de forma tradicional por meio de doações físicas e organização de eventos. Ele menciona as medidas de controle de capital instigadas pelo Banco Central Europeu e pelo Fundo Monetário Internacional (FMI) em junho de 2015 e aponta para um paradoxo: “Embora os gregos não pudessem usar seus cartões de débito diretamente, eles poderiam usar o Paypal.” Em seguida, ele declara: “Em geral, as pessoas que estão em organizações, campanhas e plataformas de financiamento coletivo apresentam um espírito do que é chamado de ‘tecno-otimismo’. Esse espírito significa que, com as ferramentas certas e o conhecimento certo sobre conexões de redes, podemos resolver problemas. Percebemos que se as elites financeiras internacionais desejam atuar em um país, em uma rede, em um sistema e tomar decisões no nível financeiro, qualquer tipo de plataforma chega a seu limite”. De fato, a equipe do Goteo não enfrentou antes o problema dos controles de capital. Em relação a isso, ele argumenta: “é necessário que a organização política exerça pressão, pois nada pode continuar se não houver um órgão político que funcione fora da nuvem e não dependa da nuvem sabendo pressionar estruturas de poder”. Esse ativista experiente e usuário de crowdfunding continua expressando o que considera um dos principais problemas disso: “Projetos de economia colaborativa são cada vez mais reapropriados pelas instituições privadas, não apenas como métodos e como trabalho de multidão, como dinheiro finalmente, mas também como estruturas linguísticas e semânticas. Por exemplo, há três dias, recebi um e-mail de uma grande organização cultural privada em Atenas que é muito agressiva para o espaço público. Quero dizer que eles estão fazendo uma campanha de financiamento coletivo para um de seus projetos. E eles usam o mesmo idioma, o mesmo vocabulário que usamos na nossa campanha de crowdfunding. Pode até ser “copiar e colar”. Não quero dizer com isso que eles copiam de mim ou de nossa organização. Mas eles copiam e colam o movimento da mesma maneira que o Syriza no governo copiou e colou os slogans usados na Praça Syntagma há cinco anos”.

 

DIGILABOUR: E em relação ao cooperativismo de plataforma?

KARATZOGIANNI: A Catalunha, onde ocorreu um número significativo de nossas entrevistas, tem sido historicamente marcada pelo cooperativismo em suas formas anarquistas e libertárias desde a segunda metade do século XIX e, em particular, durante a revolução espanhola do final da década de 1930. A esse respeito, foi interessante observar a apreciação um tanto condescendente de um dos entrevistados, vindo do chamado movimento cooperativista “tradicional”, cuja presença é forte na coalizão de esquerda radical que atualmente governa Barcelona: “o cooperativismo tem sido muito forte nesta região por muitas e muitas décadas, mas de uma forma muito tradicional. Essas pessoas ainda estão ligadas a essa forma muito tradicional de grandes reuniões com baixa tecnologia e grande consenso e agora estão um pouco em conflito com a tecnologia”. No entanto, esse entrevistado afirmou que parte de sua “missão” foi conciliar o que ele afirma ser duas correntes de cooperativismo: “cada um dos grupos pode aprender com o outro. Assim, os capitalistas podem aprender como ter uma melhor governança e uma melhor distribuição de valor nas cooperativas, e as cooperativas podem aprender com os capitalistas a como ter escala e impacto”. Portanto, “quando vou a um movimento cooperativista, sou o capitalista. Quando estou no movimento OuiShare, sou um pouco cooperativista”.

 

DIGILABOUR: Essas contradições te surpreenderam? Como?

KARATZOGIANNI: Em primeiro lugar, notamos a importância da produção ideológica nos players que entrevistamos. Podemos argumentar que essa é sua principal atividade, bem como a execução de instrumentos para transação e organização do trabalho. Um elemento chave que encontramos em todos os discursos é a imprecisão e a confusão das formas ideológicas produzidas e, em particular, formas (modelos e termos) usadas ​​para descrever as relações de produção. Simultaneamente, todas essas plataformas são pelo menos parcialmente dependentes da troca de mercadorias. O trabalho continua sendo mercantilizado e nenhum de nossos entrevistados propõe ainda qualquer forma de plano coerente para transformar efetivamente as relações de produção. De fato, a intercambialidade ideológica exibida por esses atores tem uma base objetiva na produção material, e podemos ver em nossas entrevistas que eles estão em uma posição de domínio relativo, em comparação com a massa maior de usuários de redes e plataformas e, em particular, aos trabalhadores manuais cuja atividade é organizada por meio dessas “ferramentas”. Em segundo lugar, esses atores também estão fortemente envolvidos na criação de novos aparatos sociotecnicos, que são, ao mesmo tempo, sobre isso que eles falam, agitam e o que lhes permite tirar alguma renda, ainda que pouca, os processos de exploração do trabalho. Eles são, do ponto de vista material, dependentes desses aparatos e plataformas para sobreviver em sua condição atual. Configurar e administrar plataformas e gastar grande parte do tempo de trabalho em agitação é fundamental para a sobrevivência individual, mas serve a uma meta que é muito mais ampla do que simplesmente servir indivíduos ou mesmo grupos mais amplos (“ativistas digitais orientados ao comum”, “ecossistema colaborativo”). Nossa hipótese é que esses atores estão, de certo modo, inadvertidamente (ou, como diz Marx, como “promoção involuntária”), servindo ao capital comunicativo. Nesse sentido, nossa pesquisa aponta para a natureza intermediária desses atores. Obviamente, isso abre uma nova área de pesquisa, que é precisamente onde essa investigação nos levou: os agitadores da “economia do compartilhamento”, do “comum” e do “cooperativismo de plataforma”, embora com notáveis exceções, parecem ser pontas de lança desse enquadramento de classe, espalhando a palavra para outras membros de sua classe, consolidando a deterioração da classe trabalhadora, mas com alguns “danos colaterais” inevitáveis dentro de seu próprio grupo.

Trabalho nas Indústrias Culturais entre Independência e Precariedade

David Hesmondhalgh, professor da Universidade de Leeds, tem pesquisado o trabalho nas indústrias culturais/midiáticas/criativas – expressões com suas particularidades – especialmente na área de música. Ele conversou com DigiLabour sobre as mudanças no trabalho na indústria musical, o alcance da categoria de exploração para compreensão do trabalho na área da comunicação, a noção de criatividade no trabalho, e as representações midiáticas da classe trabalhadora. Em linhas gerais, Hesmondhalgh fala na complexidade de compreender o trabalho entre independência e precariedade e questiona os usos neoliberais da palavra “criatividade”.

 

 

DIGILABOUR: O que as mudanças na indústria da música têm a nos dizer sobre o trabalho nas indústrias midiáticas/ culturais/ criativas?

DAVID HESMONDHALGH: Uma coisa que nos dizem é que a digitalização não tem nada a ver com a força prometida pela digitalização há um tempo. Isso foi apresentado com grande certeza por muitos anos e ainda podem ser ouvidas, reconhecidamente de uma maneira mais qualificada, agora que a maioria das pessoas reconhece, mesmo que de maneiras confusas e variadas, as limitações das mídias digitais e sociais. É importante que os críticos do otimismo digital não cometam o erro de afirmar que nada mudou ou que não há potencial emancipatório nas mídias digitais. Eu acho que é plausível afirmar que agora, em parte como resultado das tecnologias digitais de comunicação, mais pessoas podem viver da música, como resultado de várias mudanças que ocorreram na produção e no consumo musical. Os custos de fazer música têm sido bastante baixos ao longo da História, em comparação com outros tipos de produção. Mas houve várias mudanças importantes nos últimos 30 ou 40 anos. Primeiro, as tecnologias digitais permitem que mesmo pessoas comuns gravem músicas com um nível bastante alto de sofisticação, embora isso obviamente esteja confinado principalmente à metade mais rica do planeta. Em segundo lugar, os meios de distribuição também se tornaram muito mais baratos. Terceiro, existem novos mecanismos de financiamento e marketing, como crowdfunding, e a promoção de shows ao vivo via mídias sociais. No entanto, existem muitas desvantagens. Primeiro, muitos desses desenvolvimentos agora ocorrem geralmente moldados pelas empresas de tecnologia dos Estados Unidos que dominam as mídias digitais e sociais, uma influência que é muito mais difundida na vida cotidiana em relação à maneira pela qual as empresas de eletrônicos dominaram a produção e o consumo musical no século XX, como disse em um artigo recente, escrito com Leslie Meier. Segundo, para ganhar a vida, os músicos e outros trabalhadores relacionados à música geralmente precisam  trabalhar muito, por exemplo, a fim de criar e sustentar uma reputação, formar uma audiência etc. Como vários críticos do trabalho cultural e do trabalho digital apontaram, isso também leva a uma erosão da solidariedade em favor de um ethos de autopromoção. Também requer que muitas pessoas gastem muita energia, geralmente com pouca esperança realista de recompensa. Assim, o número de pessoas atraídas para o mercado de trabalho aumentou, mas em muitos aspectos as condições de trabalho se deterioraram ainda mais. Embora exista alguma novidade nessa situação, também há muita continuidade, porque os músicos são, há muito tempo, um exemplo arquetípico de trabalho supostamente independente, mas altamente precário. Como muitos comentaristas já apontaram, essas características históricas do trabalho musical e mesmo cultural (independência e precariedade) agora se generalizaram para muitos outros setores da economia, à medida que as empresas buscam cada vez mais se libertar das obrigações básicas de emprego que foram cumpridas por, pelo menos, algumas empresas no período histórico anterior (que alguns ainda podem chamar de “fordismo”), como resultado de lutas trabalhistas.

 

 

DIGILABOUR: Para você, qual é o alcance da categoria de exploração para entender o trabalho na área da comunicação?

HESMONDHALGH: A exploração é um conceito necessário, mas não suficiente, para analisar o trabalho na área de comunicação. O termo precisa ser usado com mais cuidado e precisão do que costuma ser para que o termo seja criticamente útil. Parte do problema é que existe um modo muito especializado, quase técnico, pelo qual o termo é usado por alguns marxistas, que coexiste com um significado mais geral do termo, para significar algo como “tirar vantagem injustamente”. Ao ler contribuições de alguns debates críticos, parece que os autores geralmente não são claros em que sentido estão usando o termo, se no sentido específico marxista ou no seu uso cotidiano. Para alguns autores, praticamente todo esforço na vida de alguém fora do 1% mais rico, seja usuário do Facebook ou músico, parece ser entendido como exploração. Em tal situação, o termo corre o risco de perder sentido. Os melhores escritores marxistas, como Erik Olin Wright, foram extremamente úteis para refinar nossa noção de exploração, mas mesmo eles não conseguem abordar a questão dos graus de exploração. Então, acho que precisamos entender a exploração como centrada na vantagem injusta que é sistêmica e nos graus de sofrimento. Os trabalhadores chineses que cometeram suicídio me parecem um nível de exploração muito diferente do que acontece com usuários do Facebook ou recém-formados em busca de emprego na televisão. Há muitas razões para se preocupar com os últimos, mas se é exploração por si só é outra questão.

 

 

DIGILABOUR: Em sua visão, o que faz um trabalho ser criativo?

HESMONDHALGH: Todo trabalho tem elementos criativos, em maior ou menor grau. Meu interesse pessoal está na criatividade exercida por trabalhadores das indústrias culturais e criativas, que entendo como centradas no uso criativo e na manipulação de símbolos – linguísticos, visuais, auditivos etc. Alguns trabalhadores estão envolvidos no fornecimento de informação e conhecimento, geralmente com ênfase nas habilidades de explicação e avaliação. Outros estão envolvidos em atividades mais imaginativas e artísticas, criando objetos e eventos que procuram invocar prazer estético, choque, humor, e assim por diante. Existe uma divisão complexa do trabalho, com alguns trabalhadores envolvidos mais centralmente no conteúdo e nas performances reais, e outros assumindo papéis (que podem de fato ser tanto ou mais criativos, de forma geral), como trabalhadores de apoio aos primeiros. O que importa para mim é o grau em que as condições econômicas, políticas, culturais e tecnológicas permitem que as pessoas exerçam essa criatividade simbólica (ou apoiem essa criatividade) de maneiras que promovam ou inibam seu crescimento e o de outras pessoas. No livro que co-escrevi com Sarah Baker, Creative Labour, tentei fazer um esquema para considerar o que poderia constituir o que chamamos, por uma questão de simplicidade e lucidez, “bom trabalho” e “mau trabalho”, e nós procuramos aplicar isso a uma série de situações relacionadas ao trabalho nas indústrias culturais. Em nossa pesquisa, que envolveu etnografia e entrevistas, encontramos muitos exemplos de pessoas que encontraram elementos de crescimento e autorrealização em seus trabalhos nas indústrias culturais, mas também uma enorme quantidade de frustração, isolamento, precariedade e desespero. Agora, pode ser óbvio que ambos coexistem, mas o que realmente queríamos era abrir uma maneira de pensar sobre elementos positivos e negativos nos tipos de trabalhos que as pessoas realizam nas indústrias culturais, de modo a enriquecer debates críticos. Talvez seja desnecessário dizer que termos como “criatividade” e “inovação’ fazem parte do jargão neoliberal banal de um centrismo conformista que é surpreendentemente resiliente mesmo agora que populistas autoritários assumiram vários governos nacionais, incluindo Brasil e Reino Unido. Apesar da maneira como o termo criatividade foi apropriado, por exemplo, nos conceitos de indústrias criativas, cidades criativas, economia criativa e assim por diante, ad nauseum, precisamos nos apegar a uma noção positiva de criatividade como componente essencial de emancipação e conquista humanas. Não podemos prescindir do termo, mas ele deve ser reivindicado daqueles que incorporariam a criatividade artística e científica dentro das agendas de negócios. Os populistas autoritários não pretendem ter interesse ou respeito pela criatividade, e obviamente também precisam ser confrontados.

 

 

DIGILABOUR: Como lutar contra o trabalho não pago e o trabalho mal pago no setor cultural?

HESMONDHALGH: Precisamos encontrar maneiras de lutar para minimizar e impedir o trabalho não pago e o mal pago. Por exemplo, é necessário introduzir medidas que proíbam estágios não remunerados, exceto em circunstâncias excepcionai. Isso começou a acontecer em algumas jurisdições. Eu acho que há um terreno fértil no momento para um movimento que confronte os fundamentos ideológicos do individualismo possessivo que explora a si próprio, e que leva tantas pessoas a trabalharem muito na esperança de recompensas futuras, especialmente no setor cultural, embora seja difícil imaginar que esse aspecto do trabalho poderia ser eliminado e muitos de nós não desejaríamos isso. Essa fertilidade decorre do fato de que muitos jovens, aqueles que entendem a necessidade de solidariedade social, apreendem que algo está profundamente errado com as atitudes em relação ao trabalho moderno em geral, e que o setor cultural é particularmente problemático. Em tal situação, não há nada radical ou inovador nos pesquisadores que apontam a natureza precária do trabalho cultural contemporâneo. Precisamos avançar na agenda, apoiando-nos nas organizações dos trabalhadores culturais, incluindo sindicatos, para argumentar com confiança que os trabalhadores culturais merecem melhores salários e um melhor tratamento. A principal tarefa dos pesquisadores críticos, parece-me, é minar a base ideológica que sustenta as más condições de trabalho, ou seja, as ideologias do individualismo competitivo e da autopromoção, sem culpar as vítimas (por exemplo, castigando moralmente os millennials) e sem celebrar os influenciadores simplesmente porque são jovens e “inovadores”. Também existem medidas muito radicais, como a renda básica incondicional, que eu apoio. É uma aspiração a longo prazo, talvez, mas o fato disso estar sendo amplamente discutido em muitas áreas é encorajador.

 

 

DIGILABOUR: Você escreveu sobre o fracasso da mídia em representar a classe trabalhadora. Como enfrentar isso?

HESMONDHALGH: Sim, minha opinião é que na Europa e na América do Norte, pelo menos e possivelmente também em outros lugares (por favor, digam-me!), a mídia contribuiu para a pauperização da classe trabalhadora ao não representar adequadamente a complexidade, diversidade e riqueza de seus interesses, vidas e valores. Isso às vezes envolve sub-representação, às vezes má representação. Atribuir isso ao fato de a mídia ser dominada por pessoas relativamente privilegiadas é só o primeiro passo. A mídia na Grã-Bretanha há muito é dominada pelos privilegiados, mas o fracasso da representação midiática da classe trabalhadora se tornou substancialmente pior. Eu acho que um fator importante é o aumento do comercialismo. Além disso, os lugares em que os privilegiados às vezes são menos dominantes, como os jornais locais na Grã-Bretanha, não se saíram melhor em termos de representação das pessoas da classe trabalhadora. Grande parte do problema deriva dos sistemas educacionais ocidentais. O trabalho midiático geralmente depende da facilidade com símbolos (palavras, imagens, sons). Ao ensinar habilidades de criação de símbolos, os sistemas educacionais acabam desenraizando as pessoas da classe trabalhadora de suas comunidades. As pessoas da classe trabalhadora precisam receber as habilidades e a educação necessárias para se representar, sem esses efeitos de desenraizamento. Obviamente, isso requer uma profunda transformação da educação, e também depende de uma mudança de atitudes em relação à classe trabalhadora – que a mídia já fez tanto para prejudicar. De modo geral, as mudanças políticas minaram enormemente a crença da classe trabalhadora na produção cultural da própria classe trabalhadora. Voltamos novamente à necessidade de combinar uma reforma pragmática com o questionamento do sistema em um nível bastante profundo, mas sem recorrer aos dogmas da extrema esquerda.

Inteligência Artificial no Jornalismo: entrevista com Diakopoulos

Nicholas Diakopoulos é diretor do Laboratório de Jornalismo Computacional da Universidade de Northwestern, nos Estados Unidos. Autor do livro Automating the News: how algorithms are rewriting the media, ele pesquisa automação na produção jornalística, accountability e transparênncia dos algoritmos. Diakopoulos conversou com DigiLabour e também fala sobre a importância de data literacy e pensamento computacional para os jornalistas.

 

DIGILABOUR: Há muitos mitos em torno do papel da automação e da inteligência artificial no jornalismo. Para alguns, um sonho. Para outros, um pesadelo. O que a sua pesquisa revela sobre a automação na produção jornalística?

NICHOLAS DIAKOPOULOS: No domínio do jornalismo, o que descobri é que a inteligência artificial é mais valiosa como complemento ao esforço humano. Isso não quer dizer que não possa substituir o esforço humano em alguns casos, ou criar novos potenciais com base em velocidade, escala ou personalização. Mas por causa de exigências de precisão e do desejo de manter alta qualidade, maior originalidade e o escopo do jornalismo, a tecnologia pode ser efetivamente implantada como um complemento para atingir esses objetivos. Em outros domínios, a IA e a tecnologia robótica podem estar mais aptas a substituir o trabalho humano e, portanto, pode haver motivos de preocupação. No entanto, na produção jornalística, muitos medos de destruição de empregos pela inteligência artificial são exagerados.

 

 

DIGILABOUR: Como os algoritmos já reescrevem as práticas jornalísticas?

DIAKOPOULOS: Praticamente todos os aspectos da produção jornalística estão evoluindo com relação a algoritmos, automação e inteligência artificial. Isso inclui produção automatizada de conteúdo, além de aplicativos na descoberta de narrativas computacionais, no desenvolvimento de newsbots e na otimização algorítmica de conteúdo para distribuição. Atualmente, estamos vendo muita automação usada em editorias como esportes, economia e eleições. Principalmente, essa é a automação baseada em regras que envolve modelos pré-estabelecidos por jornalistas de dados e depois preenchidos com dados pela máquina. Em termos de criação automatizada de conteúdo, ainda não há sistemas de aprendizado de máquina que estejam operando em produção de larga escala. Isso tem a ver principalmente com o fato de que os sistemas de geração de texto a partir de aprendizado de máquina produzem erros estatísticos que podem criar preocupações em relação à precisão na produção jornalística. Como o jornalismo tem um nível muito alto de precisão, pode levar algum tempo até vermos o aprendizado de máquina sendo usado para produção e publicação direta de matérias jornalísticas.

 

 

DIGILABOUR: Como isso tem desafiado organizações, jornalistas e universidades?

DIAKOPOULOS: Há vários desafios no uso da produção automatizada de notícias pelas organizações jornalísticas. Em primeiro lugar, isso exige um fluxo de dados limpo e constante. Portanto, se você estiver trabalhando em um domínio em que os dados não são abundantes ou muitas vezes estão sujos e exigem muita normalização e limpeza, isso limitará o uso da automação. Outro grande problema é que a automação tem algo de frágil –geralmente só funciona no domínio restrito onde foi projetada. Esse é um grande problema no jornalismo, pois o mundo é um lugar dinâmico e pode haver muitas situações que quebram os limites projetados para o sistema. Em termos de desafios mais amplos para jornalistas e universidades, acho que há muito aprendizado e desenvolvimento de habilidades que precisam acontecer para tirar proveito dessas novas ferramentas. A primeira área seria a data literacy; ser capaz de trabalhar com dados, poder criticar dados, saber de onde vêm, se têm qualidade e integridade, se estão atualizados, porque as ferramentas de automação dependem muito dos dados. Por exemplo, se você possui dados tendenciosos que chegam ao seu sistema de aprendizado de máquina, você está acabará trazendo um modelo estatístico tendencioso. A segunda área seria o pensamento computacional, entendendo como resolver problemas na área de programação. Não estou afirmando que todos os jornalistas precisam saber como programar, mas precisam entender o que pode ser realizado com os códigos e compreender como seu problema específico em uma reportagem pode ser formulado de forma a permitir que um colaborador codifique algo. A terceira área é o que você pode chamar de pensamento estatístico avançado. Novamente, eu definitivamente não diria que todos os jornalistas precisam saber disso, mas acho que um pequeno número de jornalistas computacionais de elite deve realmente dominar o aprendizado avançado de máquinas e a metodologia estatística, para que possam inovar e impulsionar projetos em direções totalmente novas.

 

 

DIGILABOUR: O que você chama de accountability algorítmica e como os jornalistas podem se envolver com isso?

DIAKOPOULOS: Os softwares e algoritmos passaram a governar e influenciar aspectos importantes de nossas vidas, incluindo tudo, desde personalização de mecanismos de pesquisa e sistemas de publicidade até avaliação de professores, bancos e finanças, campanhas políticas e vigilância policial. Mas esses algoritmos podem cometer erros. Eles têm preconceitos. No entanto, eles são tratados como caixas negras opacas, por seu funcionamento interno, seus “pensamentos” ocultos atrás de camadas de complexidade. Como jornalistas, precisamos entrar nessa caixa preta, entender como os algoritmos podem exercer poder sobre nós, entender onde eles podem estar cometendo erros injustos e identificar as pessoas nesse complexo sistema sociotécnico para que possam ser responsabilizadas. A accountability algorítmica tenta resolver esse problema, propondo métodos práticos que os jornalistas podem empregar com base em sistemas de auditoria e crítica para utilizar na investigação de algoritmos.