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Trabalho nas Indústrias Culturais entre Independência e Precariedade

David Hesmondhalgh, professor da Universidade de Leeds, tem pesquisado o trabalho nas indústrias culturais/midiáticas/criativas – expressões com suas particularidades – especialmente na área de música. Ele conversou com DigiLabour sobre as mudanças no trabalho na indústria musical, o alcance da categoria de exploração para compreensão do trabalho na área da comunicação, a noção de criatividade no trabalho, e as representações midiáticas da classe trabalhadora. Em linhas gerais, Hesmondhalgh fala na complexidade de compreender o trabalho entre independência e precariedade e questiona os usos neoliberais da palavra “criatividade”.

 

 

DIGILABOUR: O que as mudanças na indústria da música têm a nos dizer sobre o trabalho nas indústrias midiáticas/ culturais/ criativas?

DAVID HESMONDHALGH: Uma coisa que nos dizem é que a digitalização não tem nada a ver com a força prometida pela digitalização há um tempo. Isso foi apresentado com grande certeza por muitos anos e ainda podem ser ouvidas, reconhecidamente de uma maneira mais qualificada, agora que a maioria das pessoas reconhece, mesmo que de maneiras confusas e variadas, as limitações das mídias digitais e sociais. É importante que os críticos do otimismo digital não cometam o erro de afirmar que nada mudou ou que não há potencial emancipatório nas mídias digitais. Eu acho que é plausível afirmar que agora, em parte como resultado das tecnologias digitais de comunicação, mais pessoas podem viver da música, como resultado de várias mudanças que ocorreram na produção e no consumo musical. Os custos de fazer música têm sido bastante baixos ao longo da História, em comparação com outros tipos de produção. Mas houve várias mudanças importantes nos últimos 30 ou 40 anos. Primeiro, as tecnologias digitais permitem que mesmo pessoas comuns gravem músicas com um nível bastante alto de sofisticação, embora isso obviamente esteja confinado principalmente à metade mais rica do planeta. Em segundo lugar, os meios de distribuição também se tornaram muito mais baratos. Terceiro, existem novos mecanismos de financiamento e marketing, como crowdfunding, e a promoção de shows ao vivo via mídias sociais. No entanto, existem muitas desvantagens. Primeiro, muitos desses desenvolvimentos agora ocorrem geralmente moldados pelas empresas de tecnologia dos Estados Unidos que dominam as mídias digitais e sociais, uma influência que é muito mais difundida na vida cotidiana em relação à maneira pela qual as empresas de eletrônicos dominaram a produção e o consumo musical no século XX, como disse em um artigo recente, escrito com Leslie Meier. Segundo, para ganhar a vida, os músicos e outros trabalhadores relacionados à música geralmente precisam  trabalhar muito, por exemplo, a fim de criar e sustentar uma reputação, formar uma audiência etc. Como vários críticos do trabalho cultural e do trabalho digital apontaram, isso também leva a uma erosão da solidariedade em favor de um ethos de autopromoção. Também requer que muitas pessoas gastem muita energia, geralmente com pouca esperança realista de recompensa. Assim, o número de pessoas atraídas para o mercado de trabalho aumentou, mas em muitos aspectos as condições de trabalho se deterioraram ainda mais. Embora exista alguma novidade nessa situação, também há muita continuidade, porque os músicos são, há muito tempo, um exemplo arquetípico de trabalho supostamente independente, mas altamente precário. Como muitos comentaristas já apontaram, essas características históricas do trabalho musical e mesmo cultural (independência e precariedade) agora se generalizaram para muitos outros setores da economia, à medida que as empresas buscam cada vez mais se libertar das obrigações básicas de emprego que foram cumpridas por, pelo menos, algumas empresas no período histórico anterior (que alguns ainda podem chamar de “fordismo”), como resultado de lutas trabalhistas.

 

 

DIGILABOUR: Para você, qual é o alcance da categoria de exploração para entender o trabalho na área da comunicação?

HESMONDHALGH: A exploração é um conceito necessário, mas não suficiente, para analisar o trabalho na área de comunicação. O termo precisa ser usado com mais cuidado e precisão do que costuma ser para que o termo seja criticamente útil. Parte do problema é que existe um modo muito especializado, quase técnico, pelo qual o termo é usado por alguns marxistas, que coexiste com um significado mais geral do termo, para significar algo como “tirar vantagem injustamente”. Ao ler contribuições de alguns debates críticos, parece que os autores geralmente não são claros em que sentido estão usando o termo, se no sentido específico marxista ou no seu uso cotidiano. Para alguns autores, praticamente todo esforço na vida de alguém fora do 1% mais rico, seja usuário do Facebook ou músico, parece ser entendido como exploração. Em tal situação, o termo corre o risco de perder sentido. Os melhores escritores marxistas, como Erik Olin Wright, foram extremamente úteis para refinar nossa noção de exploração, mas mesmo eles não conseguem abordar a questão dos graus de exploração. Então, acho que precisamos entender a exploração como centrada na vantagem injusta que é sistêmica e nos graus de sofrimento. Os trabalhadores chineses que cometeram suicídio me parecem um nível de exploração muito diferente do que acontece com usuários do Facebook ou recém-formados em busca de emprego na televisão. Há muitas razões para se preocupar com os últimos, mas se é exploração por si só é outra questão.

 

 

DIGILABOUR: Em sua visão, o que faz um trabalho ser criativo?

HESMONDHALGH: Todo trabalho tem elementos criativos, em maior ou menor grau. Meu interesse pessoal está na criatividade exercida por trabalhadores das indústrias culturais e criativas, que entendo como centradas no uso criativo e na manipulação de símbolos – linguísticos, visuais, auditivos etc. Alguns trabalhadores estão envolvidos no fornecimento de informação e conhecimento, geralmente com ênfase nas habilidades de explicação e avaliação. Outros estão envolvidos em atividades mais imaginativas e artísticas, criando objetos e eventos que procuram invocar prazer estético, choque, humor, e assim por diante. Existe uma divisão complexa do trabalho, com alguns trabalhadores envolvidos mais centralmente no conteúdo e nas performances reais, e outros assumindo papéis (que podem de fato ser tanto ou mais criativos, de forma geral), como trabalhadores de apoio aos primeiros. O que importa para mim é o grau em que as condições econômicas, políticas, culturais e tecnológicas permitem que as pessoas exerçam essa criatividade simbólica (ou apoiem essa criatividade) de maneiras que promovam ou inibam seu crescimento e o de outras pessoas. No livro que co-escrevi com Sarah Baker, Creative Labour, tentei fazer um esquema para considerar o que poderia constituir o que chamamos, por uma questão de simplicidade e lucidez, “bom trabalho” e “mau trabalho”, e nós procuramos aplicar isso a uma série de situações relacionadas ao trabalho nas indústrias culturais. Em nossa pesquisa, que envolveu etnografia e entrevistas, encontramos muitos exemplos de pessoas que encontraram elementos de crescimento e autorrealização em seus trabalhos nas indústrias culturais, mas também uma enorme quantidade de frustração, isolamento, precariedade e desespero. Agora, pode ser óbvio que ambos coexistem, mas o que realmente queríamos era abrir uma maneira de pensar sobre elementos positivos e negativos nos tipos de trabalhos que as pessoas realizam nas indústrias culturais, de modo a enriquecer debates críticos. Talvez seja desnecessário dizer que termos como “criatividade” e “inovação’ fazem parte do jargão neoliberal banal de um centrismo conformista que é surpreendentemente resiliente mesmo agora que populistas autoritários assumiram vários governos nacionais, incluindo Brasil e Reino Unido. Apesar da maneira como o termo criatividade foi apropriado, por exemplo, nos conceitos de indústrias criativas, cidades criativas, economia criativa e assim por diante, ad nauseum, precisamos nos apegar a uma noção positiva de criatividade como componente essencial de emancipação e conquista humanas. Não podemos prescindir do termo, mas ele deve ser reivindicado daqueles que incorporariam a criatividade artística e científica dentro das agendas de negócios. Os populistas autoritários não pretendem ter interesse ou respeito pela criatividade, e obviamente também precisam ser confrontados.

 

 

DIGILABOUR: Como lutar contra o trabalho não pago e o trabalho mal pago no setor cultural?

HESMONDHALGH: Precisamos encontrar maneiras de lutar para minimizar e impedir o trabalho não pago e o mal pago. Por exemplo, é necessário introduzir medidas que proíbam estágios não remunerados, exceto em circunstâncias excepcionai. Isso começou a acontecer em algumas jurisdições. Eu acho que há um terreno fértil no momento para um movimento que confronte os fundamentos ideológicos do individualismo possessivo que explora a si próprio, e que leva tantas pessoas a trabalharem muito na esperança de recompensas futuras, especialmente no setor cultural, embora seja difícil imaginar que esse aspecto do trabalho poderia ser eliminado e muitos de nós não desejaríamos isso. Essa fertilidade decorre do fato de que muitos jovens, aqueles que entendem a necessidade de solidariedade social, apreendem que algo está profundamente errado com as atitudes em relação ao trabalho moderno em geral, e que o setor cultural é particularmente problemático. Em tal situação, não há nada radical ou inovador nos pesquisadores que apontam a natureza precária do trabalho cultural contemporâneo. Precisamos avançar na agenda, apoiando-nos nas organizações dos trabalhadores culturais, incluindo sindicatos, para argumentar com confiança que os trabalhadores culturais merecem melhores salários e um melhor tratamento. A principal tarefa dos pesquisadores críticos, parece-me, é minar a base ideológica que sustenta as más condições de trabalho, ou seja, as ideologias do individualismo competitivo e da autopromoção, sem culpar as vítimas (por exemplo, castigando moralmente os millennials) e sem celebrar os influenciadores simplesmente porque são jovens e “inovadores”. Também existem medidas muito radicais, como a renda básica incondicional, que eu apoio. É uma aspiração a longo prazo, talvez, mas o fato disso estar sendo amplamente discutido em muitas áreas é encorajador.

 

 

DIGILABOUR: Você escreveu sobre o fracasso da mídia em representar a classe trabalhadora. Como enfrentar isso?

HESMONDHALGH: Sim, minha opinião é que na Europa e na América do Norte, pelo menos e possivelmente também em outros lugares (por favor, digam-me!), a mídia contribuiu para a pauperização da classe trabalhadora ao não representar adequadamente a complexidade, diversidade e riqueza de seus interesses, vidas e valores. Isso às vezes envolve sub-representação, às vezes má representação. Atribuir isso ao fato de a mídia ser dominada por pessoas relativamente privilegiadas é só o primeiro passo. A mídia na Grã-Bretanha há muito é dominada pelos privilegiados, mas o fracasso da representação midiática da classe trabalhadora se tornou substancialmente pior. Eu acho que um fator importante é o aumento do comercialismo. Além disso, os lugares em que os privilegiados às vezes são menos dominantes, como os jornais locais na Grã-Bretanha, não se saíram melhor em termos de representação das pessoas da classe trabalhadora. Grande parte do problema deriva dos sistemas educacionais ocidentais. O trabalho midiático geralmente depende da facilidade com símbolos (palavras, imagens, sons). Ao ensinar habilidades de criação de símbolos, os sistemas educacionais acabam desenraizando as pessoas da classe trabalhadora de suas comunidades. As pessoas da classe trabalhadora precisam receber as habilidades e a educação necessárias para se representar, sem esses efeitos de desenraizamento. Obviamente, isso requer uma profunda transformação da educação, e também depende de uma mudança de atitudes em relação à classe trabalhadora – que a mídia já fez tanto para prejudicar. De modo geral, as mudanças políticas minaram enormemente a crença da classe trabalhadora na produção cultural da própria classe trabalhadora. Voltamos novamente à necessidade de combinar uma reforma pragmática com o questionamento do sistema em um nível bastante profundo, mas sem recorrer aos dogmas da extrema esquerda.

Inteligência Artificial no Jornalismo: entrevista com Diakopoulos

Nicholas Diakopoulos é diretor do Laboratório de Jornalismo Computacional da Universidade de Northwestern, nos Estados Unidos. Autor do livro Automating the News: how algorithms are rewriting the media, ele pesquisa automação na produção jornalística, accountability e transparênncia dos algoritmos. Diakopoulos conversou com DigiLabour e também fala sobre a importância de data literacy e pensamento computacional para os jornalistas.

 

DIGILABOUR: Há muitos mitos em torno do papel da automação e da inteligência artificial no jornalismo. Para alguns, um sonho. Para outros, um pesadelo. O que a sua pesquisa revela sobre a automação na produção jornalística?

NICHOLAS DIAKOPOULOS: No domínio do jornalismo, o que descobri é que a inteligência artificial é mais valiosa como complemento ao esforço humano. Isso não quer dizer que não possa substituir o esforço humano em alguns casos, ou criar novos potenciais com base em velocidade, escala ou personalização. Mas por causa de exigências de precisão e do desejo de manter alta qualidade, maior originalidade e o escopo do jornalismo, a tecnologia pode ser efetivamente implantada como um complemento para atingir esses objetivos. Em outros domínios, a IA e a tecnologia robótica podem estar mais aptas a substituir o trabalho humano e, portanto, pode haver motivos de preocupação. No entanto, na produção jornalística, muitos medos de destruição de empregos pela inteligência artificial são exagerados.

 

 

DIGILABOUR: Como os algoritmos já reescrevem as práticas jornalísticas?

DIAKOPOULOS: Praticamente todos os aspectos da produção jornalística estão evoluindo com relação a algoritmos, automação e inteligência artificial. Isso inclui produção automatizada de conteúdo, além de aplicativos na descoberta de narrativas computacionais, no desenvolvimento de newsbots e na otimização algorítmica de conteúdo para distribuição. Atualmente, estamos vendo muita automação usada em editorias como esportes, economia e eleições. Principalmente, essa é a automação baseada em regras que envolve modelos pré-estabelecidos por jornalistas de dados e depois preenchidos com dados pela máquina. Em termos de criação automatizada de conteúdo, ainda não há sistemas de aprendizado de máquina que estejam operando em produção de larga escala. Isso tem a ver principalmente com o fato de que os sistemas de geração de texto a partir de aprendizado de máquina produzem erros estatísticos que podem criar preocupações em relação à precisão na produção jornalística. Como o jornalismo tem um nível muito alto de precisão, pode levar algum tempo até vermos o aprendizado de máquina sendo usado para produção e publicação direta de matérias jornalísticas.

 

 

DIGILABOUR: Como isso tem desafiado organizações, jornalistas e universidades?

DIAKOPOULOS: Há vários desafios no uso da produção automatizada de notícias pelas organizações jornalísticas. Em primeiro lugar, isso exige um fluxo de dados limpo e constante. Portanto, se você estiver trabalhando em um domínio em que os dados não são abundantes ou muitas vezes estão sujos e exigem muita normalização e limpeza, isso limitará o uso da automação. Outro grande problema é que a automação tem algo de frágil –geralmente só funciona no domínio restrito onde foi projetada. Esse é um grande problema no jornalismo, pois o mundo é um lugar dinâmico e pode haver muitas situações que quebram os limites projetados para o sistema. Em termos de desafios mais amplos para jornalistas e universidades, acho que há muito aprendizado e desenvolvimento de habilidades que precisam acontecer para tirar proveito dessas novas ferramentas. A primeira área seria a data literacy; ser capaz de trabalhar com dados, poder criticar dados, saber de onde vêm, se têm qualidade e integridade, se estão atualizados, porque as ferramentas de automação dependem muito dos dados. Por exemplo, se você possui dados tendenciosos que chegam ao seu sistema de aprendizado de máquina, você está acabará trazendo um modelo estatístico tendencioso. A segunda área seria o pensamento computacional, entendendo como resolver problemas na área de programação. Não estou afirmando que todos os jornalistas precisam saber como programar, mas precisam entender o que pode ser realizado com os códigos e compreender como seu problema específico em uma reportagem pode ser formulado de forma a permitir que um colaborador codifique algo. A terceira área é o que você pode chamar de pensamento estatístico avançado. Novamente, eu definitivamente não diria que todos os jornalistas precisam saber disso, mas acho que um pequeno número de jornalistas computacionais de elite deve realmente dominar o aprendizado avançado de máquinas e a metodologia estatística, para que possam inovar e impulsionar projetos em direções totalmente novas.

 

 

DIGILABOUR: O que você chama de accountability algorítmica e como os jornalistas podem se envolver com isso?

DIAKOPOULOS: Os softwares e algoritmos passaram a governar e influenciar aspectos importantes de nossas vidas, incluindo tudo, desde personalização de mecanismos de pesquisa e sistemas de publicidade até avaliação de professores, bancos e finanças, campanhas políticas e vigilância policial. Mas esses algoritmos podem cometer erros. Eles têm preconceitos. No entanto, eles são tratados como caixas negras opacas, por seu funcionamento interno, seus “pensamentos” ocultos atrás de camadas de complexidade. Como jornalistas, precisamos entrar nessa caixa preta, entender como os algoritmos podem exercer poder sobre nós, entender onde eles podem estar cometendo erros injustos e identificar as pessoas nesse complexo sistema sociotécnico para que possam ser responsabilizadas. A accountability algorítmica tenta resolver esse problema, propondo métodos práticos que os jornalistas podem empregar com base em sistemas de auditoria e crítica para utilizar na investigação de algoritmos.

 

Christian Fuchs: “Uma Internet alternativa deve combinar Internet como serviço público e cooperativas de plataforma”

Klassenkämpfe im digitalen Kapitalismus. Die Plattform als neue Fabrik?

 

Christian Fuchs, professor da University of Westminster, é um dos maiores pesquisadores da área de comunicação atualmente. Suas pesquisas têm se dedicado a compreender, a partir de uma perspectiva marxista, questões de mídias sociais, trabalho digital e teoria social. É autor de livros como Social Media: a critical introductionDigital Labour and Karl Marx e Critical Theory of Communication: New Readings of Lukács, Adorno, Marcuse, Honneth and Habermas in the Age of the Internet. Organizou recentemente o livro Digital Objects, Digital Subjects : Interdisciplinary Perspectives on Capitalism, Labour and Politics in the Age of Big Data. Fuchs é editor da revista tripleC e diretor do Instituto de Pesquisa em Comunicação e Mídia em Westminster. Lançará em outubro o livro Nationalism on the Internet: Critical Theory and Ideology in the Age of Social Media and Fake News.

Fuchs conversou com a DigiLabour sobre trabalho digital, cooperativismo de plataforma, socialismo, internet e comunicação alternativa e novos nacionalismos. Confira:

 

DIGILABOUR: Você foi um dos primeiros pesquisadores a escrever sobre trabalho digital. Desde então, apareceram expressões como uberização, capitalismo de plataforma e plataformização. Além disso, houve uma intensificação do trabalho precário, especialmente em países como o Brasil. Para você, qual é hoje a questão crucial para a pesquisa sobre trabalho digital?

CHRISTIAN FUCHS: O trabalho é uma relação social entre a classe dominante e a classe explorada. A questão-chave da pesquisa sobre trabalho digital é entender como as relações de classes estão se transformando no capitalismo contemporâneo, o que inclui o capitalismo digital como uma das várias dimensões que moldam a vida dos seres humanos. A classe é um aspecto objetivo da existência dos seres humanos na sociedade de classes, e também é, como aprendemos com E.P. Thompson, uma experiência de classe. Uma questão importante para a pesquisa é como o trabalho digital é vivenciado por trabalhadores em todo o mundo, quais são os pontos em comum e as diferenças de certas formas de trabalho digital em diferentes países e partes do mundo, e como essas experiências e lutas reais ou potenciais interagem com o capital.

 

DIGILABOUR: Temos observando movimentos em torno de organização coletiva dos trabalhadores das plataformas e a emergência de novas formas de organização do trabalho, como o cooperativismo de plataforma. Como você compreende esses movimentos, incluindo suas contradições, em relação ao seu potencial emancipatório?

FUCHS: As cooperativas têm sido importantes ao longo da história da classe trabalhadora. Marx escreveu que as cooperativas “são, dentro da antiga forma, a primeira ruptura do modelo anterior, apesar de que, em sua organização real, reproduzam e tenham de reproduzir por toda parte, naturalmente, todos os defeitos do sistema existente”. As cooperativas de plataforma, cooperativas digitais e cooperativas culturais são uma expressão do desejo e da tentativa de uma economia cooperativa que vá além do capitalismo. Ao mesmo tempo, elas operam em condições de trabalho assalariado e em contexto competição, o que pode facilmente tornar o trabalho precário e marginal. Além disso, há o perigo, como ressalta Marisol Sandoval, de se transformarem em projetos ligados ao empreendedorismo e ao individualismo. As cooperativas só podem apresentar um potencial progressista se fizerem parte de um movimento socialista rumo a uma sociedade socialista, lutando com outras pessoas contra o capital em campanhas políticas coletivas, ou seja, se são projetos políticos e não apenas econômicos.

 

DIGILABOUR: Você coordenou uma equipe de pesquisadores no projeto netCommons, que mostra que a maioria das pessoas está interessada em alternativas às plataformas comerciais. Como podemos avançar nesta questão?

FUCHS: netCommons foi um projeto financiado pela União Europeia entre 2016 e 2018 com equipes nos seguintes países: França, Grécia, Itália, Espanha, Suíça, Grécia e Reino Unido. A pesquisa estudou o comum em rede, especialmente redes comunitárias, que são projetos alternativos à infraestrutura da rede de computadores. A tarefa da equipe da Universidade de Westminster, que eu liderei, era trazer uma perspectiva ligada à economia política para o projeto. Estávamos interessados em alternativas para a Internet em geral. Tais alternativas que promovem o comum digital são importantes nos níveis de infraestrutura, software e conteúdo. O que descobrimos é que há interesse dos usuários em alternativas. Mas alternativas também são difíceis de organizar. Os usuários temem que, se essas alternativas forem organizadas apenas no nível local, isso resulte em formas de nacionalismo no nível local (um localismo de mente estreita). Com isso, temem não conseguir desafiar o poder das corporações globais monopolistas do capitalismo digital. Como consequência, é importante que a sociedade civil e projetos por uma Internet sem fins lucrativos que tentam promover o comum digital cooperem com o serviço público e as organizações municipais e que as transformações não sejam vistas como uma questão puramente econômica, mas também como uma necessidade de transformar políticas públicas e a legislação de tal maneira que as alternativas sejam melhor apoiadas, que as empresas digitais e de comunicação sejam tributadas adequadamente, etc. Há também o perigo de que as alternativas à Internet se transformem em comunidades de nerds limitadas a eles como insiders, impedindo as pessoas comuns que não são nerds da computação de verem seus interesses nisso. Os projetos autonomistas geralmente enfrentam o mesmo problema quando eles se transformam, como critica Murray Bookchin, em estilos de vida. Portanto, é importante que projetos alternativos sejam baseados em uma cultura inclusiva. Para superar a marginalização econômica (redes pequenas, baixo número de usuários, falta de expansão, falta de recursos) e a marginalização política (falta de voz política), um projeto alternativo pode cooperar com campanhas, grupos de advocacy, sociedade civil, municípios, e instituições públicas. Os projetos ligados ao comum digital devem formar híbridos com projetos sociais, urbanos e outros projetos em torno do comum, para que sejam movimentos híbridos que façam demandas híbridas.

 

 

DIGILABOUR: Você tem defendido a Internet como serviço público e a slow media como alternativas ao cenário atual. Isso parece muito distante da realidade brasileira…

FUCHS: A Internet capitalista domina globalmente, não apenas no Ocidente e não somente no Sul Global. A luta por alternativas é necessária em todas as partes do mundo. Uma Internet alternativa deve ser uma combinação entre plataformas de Internet como serviço público e cooperativas de plataforma. Onde quer que os usuários/cidadãos estejam começando a confrontar a Internet capitalista e o capitalismo, há a possibilidade de mudanças progressistas, com demandas políticas que promovam alternativas, começando a construir alternativas. No final, a luta por uma Internet alternativa e por uma comunicação alternativa só é possível como parte da luta mais ampla pelo socialismo. E o socialismo é necessário em todos os lugares. O socialismo é a luta pela democracia na economia, na política e na cultura. Uma esfera pública democrática faz parte do socialismo como democracia participativa.

 

 

DIGILABOUR: Você está para lançar um livro sobre novos nacionalismos e têm falado sobre capitalismo autoritário. Como compreender isso, em um cenário de Bolsonaro, Trump e Brexit?

FUCHS: Em muitas partes do mundo, experimentamos a ascensão de formas autoritárias de capitalismo. O surgimento de novos nacionalismos é o aspecto mais perturbador e preocupante da política contemporânea. A Internet é um espaço onde o nacionalismo e o autoritarismo são comunicados, experienciados, contestados e confrontados. Ao teorizar criticamente sobre os nacionalismos e autoritarismos contemporâneos, eu estou interessado em desenvolver e atualizar as abordagens de autores como Karl Marx, Rosa Luxemburgo, Eric Hobsbawm, Franz Neumann, C.L.R. James, M.N. Roy, Erich Fromm, Theodor W. Adorno, Max Horkheimer, Herbert Marcuse, Wilhelm Reich, Klaus Theweleit e outros. A História nos diz que o nacionalismo e o autoritarismo não são pacíficos, mas geralmente resultam em guerras. E esse é o verdadeiro perigo dos novos nacionalismos. Eles têm potenciais fascistas. Mais uma vez, como diz Rosa Luxemburgo, estamos na encruzilhada da “transição para o socialismo ou da regressão à barbárie”. As lutas sociais pelo socialismo democrático são o único antídoto ao nacionalismo, ao autoritarismo e ao fascismo.

 

 

O Trabalho dos Moderadores de Conteúdo: entrevista com Sarah Roberts

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Sarah Roberts, professora da University of California, Los Angeles, é uma pioneira na pesquisa sobre o trabalho dos moderadores de conteúdo das mídias sociais. Ela chama atenção especialmente para a moderação realizada por terceirizados de grandes empresas, como Facebook Google. Foi uma das entrevistadas do filme The Cleaners e lançou em junho o livro Behind the Screen: Content Moderation in the Shadows of Social Media, resultado de oito anos de pesquisa nos Estados Unidos e nas Filipinas.

Roberts afirma que a moderação de conteúdo não é algo novo, remontando a algo feito há quatro décadas. Para ela, o novo é a sua escala industrial, sendo um poderoso mecanismo de controle. Como já discutimos na DigiLabour desde o início, é o trabalho humano por trás da chamada “inteligência artificial”. Pessoas que trabalham em lugares como call centers e também em plataformas de microtrabalho como Amazon Mechanical Turk. Passam o dia vendo cerca de 1500 fotos e vídeos para decidir o que manter e o que deletar das plataformas digitais. Para Roberts, o trabalho de moderação comercial de conteúdo reforça a Internet como lugar de controle, vigilância, intervenção e circulação da informação como mercadoria.

Conversamos com Sarah Roberts e você pode conferir os áudios abaixo:

Cobertura midiática sobre os moderadores de conteúdo
Tipologia dos moderadores de conteúdo nas mídias sociais
Mudanças na moderação comercial de conteúdo
Futuro da moderação comercial de conteúdo

Se quiser ler outra entrevista com Sarah Roberts, acompanhe aqui.

Trabalho Transmídia: Entrevista com Karin Fast

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Karin Fast é professora da Karlstad University, na Suécia, e pesquisa temas como midiatização, trabalho midiático e transmídia. Lançou em abril deste ano, junto com André Jansson, o livro Transmedia Work: privilege and precariousness in digital modernity. O livro discute termos como trabalho transmídia e transmidiatização a partir de pesquisa realizada com trabalhadores das áreas de cultura e negócios, expatriados e discursos corporativos, especialmente de coworking. Confira abaixo a entrevista de Fast à DigiLabour:

 

DIGILABOUR: O que é trabalho transmídia?

KARIN FAST: Trabalho transmídia é um termo que eu e André Jansson usamos para nos referirmos às condições de trabalho saturadas por mídias. Não se refere a uma categoria específica de trabalho, nem a atividades de trabalho específicas. Em vez disso, usamos “trabalho transmídia” para problematizar as normas contemporâneas sobre como devemos trabalhar e nos relacionar com outros por meio das mídias. Por fim, acreditamos que o trabalho transmídia é um conceito útil para formular uma crítica social do trabalho no contexto da modernidade digital. Em nosso novo livro, definimos o trabalho transmídia como uma nova condição social saturada por: 1) práticas de compartilhamento on-line que 2) tornam o trabalho e os trabalhadores visíveis para outros usuários e 3)possibilitam feedback em tempo real sobre o conteúdo circulado, o que, por sua vez, facilita 4) processos automatizados de vigilância e, finalmente, 5) a mercantilização das práticas e relações sociais em geral. Deixe-me ilustrar isso com um exemplo. Imagine que você compartilha uma selfie tirada em um congresso no Facebook. No momento em que você a compartilha, seu trabalho se torna visível para outros usuários. Qualquer colega ou chefe que você tenha como “amigo” pode ver que você está ocupado trabalhando. Potencialmente, eles também podem ver onde você está trabalhando, com quem e com o que. Além disso, os amigos do Facebook podem “curtir” ou comentar sua foto, fornecendo feedback tem tempo real. Além disso, a partir do momento em que você publica sua foto no Facebook, ela se torna parte de processos automatizados de vigilância. Como um pedaço de big data, a sua selfie – e o trabalho por trás dela – acaba se tornando parte da mercantilização das práticas e relações sociais em geral. Ao mesmo tempo, você pode obter algum tipo de reconhecimento social e auto-estima que pode ser benéfico para sua carreira. Conforme enfatizamos em nosso livro, as pressões sociais e as lógicas comerciais interagem com o avanço tecnológico na criação do trabalho transmídia. Utilizamos o conceito de transmidiatização para nos referir à normalização dessa condição social. Um argumento importante que desenvolvemos em nosso livro é que diferentes grupos de trabalhadores são diferentemente “vulneráveis” às pressões da transmidiatização.

 

DIGILABOUR: Qual poderia ser uma tipologia de trabalho transmídia?

FAST: Distinguimos quatro tipos elementares de trabalho transmídia. O trabalho “dedicado” pode ser encontrado entre os grupos de trabalhadores que também estão mais envolvidos no trabalho de reconhecimento, como empreendedores culturais independentes, impulsionados por valores intrínsecos enquanto trabalham em condições relativamente precárias. O trabalho forçado corresponde a condições nas quais os trabalhadores têm pouco controle sobre sua situação de trabalho e em que o trabalho é principalmente impulsionado por necessidades materiais. Para esses trabalhadores, a questão transmídia é essencial. Por exemplo, os trabalhadores da gig economy normalmente conseguem suas atividades de trabalho por meio de plataformas online (por exemplo, TaskRabbit ou Gigstr). Em ambientes não precários, onde as pessoas experimentam um forte senso de autorrealização e investem grande parte de suas identidades em suas vidas profissionais, podemos falar em trabalho eletivo na relação com transmídia. Aqui, o trabalho transmídia é uma tarefa menos obrigatória. O trabalho embrionário, por fim, é mais provável de se manifestar em locais onde os empregos são relativamente seguros, mas as oportunidades de autorrealização são pequenas. Sob tais condições de trabalho, que ainda caracterizam grande parte do mercado de trabalho, o trabalho de reconhecimento deve ser mantido em um nível baixo e orientado para realizações práticas, em vez de ser uma “marca pessoal”. Esses tipos de configurações são, portanto, relativamente pouco afetados pela transmidiatização. Embora reconheçamos que pode ser difícil categorizar trabalhadores ou grupos individuais de acordo com o nosso modelo, acreditamos que isso pode ser útil para estudar variações em termos de como a transmidiatização ocorre socialmente.

 

DIGILABOUR: De quais maneiras e com quais sentidos têm circulado as ideias dominantes e as mitologias do trabalho transmídia?

FAST: Existem muitos “interessados ​​em transmidiatização” por aí. Isto é, vários atores que têm interesse direto em cultivar dependências transmidiáticas. Deixe-me mencionar aqui três partes distintas interessadas nisso e os tipos de mitologias que elas tendem a desenvolver. Primeiro, e talvez mais evidentemente, temos o negócio de tecnologias de informação e comunicação (TIC), cuja razão de ser envolve o desenvolvimento das tecnologias transmídia. O discurso contemporâneo sobre tecnologia sugere que o mundo está passando por mudanças significativas e rápidas devido aos avanços no domínio das tecnologias móveis conectadas. Smartphones, laptops, tablets, soluções em nuvem,  relógios inteligentes etc. são representados como meios de transformação social radical. Diz-se que a tecnologia “capacita” as pessoas, “faz crescer” a economia e, finalmente, cria o tipo de “aldeia global” que McLuhan imaginou na década de 1960. No campo do trabalho, especificamente, a retórica das TIC tende a destacar horários e locais de trabalho “flexíveis”, bem como a derrubada das hierarquias organizacionais. Como exemplo, uma das principais empresas de TIC, a Ericsson, fornece um “Guia de Sobrevivência” para a “Vida Profissional da Próxima Geração”, que aconselha os trabalhadores a “se reconstruírem constantemente”, para se tornar seu próprio “gerente de marca pessoal”. ”E para aumentar sua “network pessoal ”. Em panfletos desse tipo, os negócios de TIC quase disfarçam o sindicato dos trabalhadores – com a diferença significativa de que a ênfase está no indivíduo e não no coletivo (ou seja, você deve assumir total responsabilidade por suas condições de trabalho). Assim, as empresas de TIC estão altamente envolvidas em um processo de definir o que significa ser trabalhador na era da aceleração da transmidiatização. Em segundo lugar, temos a ampla categoria de atores que capitalizam mais indiretamente a transmidiatização, oferecendo “abrigo” aos trabalhadores transmídia estressados. Os chamados espaços de coworking representam um desses atores. Essas empresas oferecem aos trabalhadores móveis e isolados – normalmente trabalhadores brancos ou “sem colarinho” – o aluguel de uma mesa, um escritório ou um estúdio por um período limitado. As tecnologias transmídia constituem a espinha dorsal (i)material da indústria espacial do coworkinge, portanto, o discurso sobre coworking é rico em sugestões sobre o que implica o trabalho transmídia. Ao se apresentarem como meio “amigável”, “acolhedor”, “atencioso” e “divertido”, os espaços de coworking efetivamente constroem o mundo “normal” do trabalho como solitário, frio, competitivo e alienante. Os chamados empreendedores de detox digital, para dar outro exemplo, contribuem para o mesmo tipo de criação de mitos. Eles projetam suas ofertas – ambientes relaxados e desconectados – em oposição ao mundo normal do trabalho, que é descrito como estressante, competitivo e muito exigente. O que os espaços de coworking e os empreendedores de desintoxicação digital têm em comum é que afirmam se revoltar contra os principais meios de subsistência transmidiatizados. No entanto, eles também se alimentam da transmidiatização e de suas consequências sociais.

 

DIGILABOUR: Você mostra sete exemplos de metáforas de trabalho não pago no setor midiático. Como avançar nesse debate?

FAST: O free labor se desenvolveu como um conceito analítico importante para reconhecer e criticar novas ou semi-novas formas de trabalho na modernidade digital. O objetivo de nosso artigo sobre isso foi criticar e avançar esse conceito apresentando uma tipologia historicamente fundamentada do free labor que também destaca dois problemas principais com os usos atuais do conceito. Antes de tudo, a crescente literatura que teoriza sobre free labor tende a usar o termo de forma muito indiscriminada. Afirmamos que apertar o botão de curtir no Facebook – uma atividade que foi corretamente identificada como free labor – é um tipo muito diferente de free labor do que, por exemplo, trabalhar ininterruptamente com o desenvolvimento de um novo game durante um hackaton. De maneira semelhante, afirmamos – em oposição à definição seminal de Tiziana Terranova – que nem todo free labor é “voluntariamente dado e não remunerado, desfrutado e explorado”. O free labor, como exemplificamos, nem sempre pode ser voluntariamente dado, nem é necessariamente sempre desfrutado. Além disso, o nível de “liberdade” experimentado pelo trabalhador pode variar.Muitas formas de free labor são monitoradas, estruturadas e gerenciadas de perto, de acordo com o interesse do empregador. O segundo problema é que o free labor é representado principalmente como um novo fenômeno, apesar de existirem equivalentes históricos. Ao desenvolver um conceito mais historicamente ancorado, queríamos mostrar a heterogeneidade do amplo conjunto de práticas que poderíamos chamar de free labor. Assim, nossa tipologia apresenta sete metáforas do free labor, baseadas em instâncias históricas de papéis que as pessoas assumem ao realizar trabalhos não remunerados: os de EscravoCuidadorAprendizProspectorTrabalho por HobbyVoluntário e Idiota.

 

DIGILABOUR: O que são tecnologias geomidiáticas?

FAST: As tecnologias geomidiáticas são um conceito abrangente para uma ampla variedade de dispositivos, hardwares e softwares que têm uma coisa em comum: são contingentes. Em resumo, isso significa que elas rastreiam, registram e exploram automaticamente a posição geográfica dos usuários, para vários propósitos. Embora as formas analógicas de tecnologias geomidiáticas existam há muito tempo, a disseminação de dispositivos conectados, portáteis, digitais e relativamente acessíveis – como relógios inteligentes, smartphones, laptops e tablets – nos levou a uma fase de aceleração da geomidiatização. Isso implica que as tecnologias geomidiáticas, em interação com as forças sociais, culturais, econômicas e políticas, afetaram a maneira como fazemos as coisas – como navegar, namorar, fazer compras, socializar, trabalhar, viajar etc. etc. Podemos, por exemplo, confiar em tecnologias geomidiáticas ao procurar restaurantes próximos, encontros em potencial ou estacionamentos disponíveis, ao medir a distância do ponto A ao ponto B ou ao jogar um game de realidade aumentada. As tecnologias geomidiáticas, para falar com Raymond Williams, tornaram-se “ordinárias”. Para certos tipos de tecnologias geomidiáticas – podemos chamá-las de “tecnologias geomidiáticas não comprometedoras” – o lugar da contingência é um atributo-chave. Softwares como Pokémon Go, Google Maps ou Run Keeper, por exemplo, seriam inúteis se fossem roubados de sua capacidade de detectar e ajustar seu conteúdo à posição do usuário. Outras tecnologias de geomídia, como as mídias sociais baseadas em localização, permitem e nos incentivam a fazer “check-in” em locais e a “marcar tags” em nossas fotos, mas têm mais do que contingências. O Facebook e o Instagram, por exemplo, ainda aceitam fotos sem identificação geográfica, e o Snapchat continua funcionando mesmo quando o acesso à posição do usuário é negado. Poderíamos, portanto, nos referir a este último grupo como “tecnologias geomidiáticas comprometedoras”. Normalmente, um contêiner de tecnologias geomidiáticas não comprometedoras e comprometedoras, o smartphone é indiscutivelmente o “garoto-propaganda” das tecnologias geomidiáticas. Para falar com Scott McQuire, o smartphone é sintomático de todos os quatro desenvolvimentos tecnologicamente induzidos que marcam a mudança de “mídia” para “geomídia”: onipresença, reconhecimento de localização, feedback em tempo real e convergência. No entanto, embora fosse fácil pensar na geomidiatização como primeira e acima de tudo um processo tecnológico, eu gostaria – em simpatia com a teorização de McQuire sobre geomídia e teorizações já feitas sobre midiatização – de enfatizar sua dimensão social. As tecnologias geomidiáticas só se tornam poderosas quando “acontecem” na vida cotidiana das pessoas.

 

Eubanks: Automatizando as Desigualdades

9781250074317

 

Como os algoritmos, construídos por seres humanos, podem intensificar desigualdades? Em 2018, dois livros foram destaque nesse assunto. Um é Algorithms of Oppression, de Safiya Noble, sobre como os mecanismos de busca reforçam o racismo. Outro é Automating Inequality, de Virginia Eubanks. Como a automatização e o uso de algoritmos nos serviços públicos tem reforçado e acelerado desigualdades, com a vigilância e o perfilamento dos pobres?

Segundo Eubanks, a automatização dos serviços públicos começou nos anos 1960 nos Estados Unidos e intensificou-se nos últimos anos, criando uma aura de eficiência, objetividade e infalibilidade. Mas, na verdade, isso estaria criando uma versão digital das poorhouses no país, punindo as pessoas por serem pobres.

Quais os valores e crenças embutidos nos algoritmos? Como isso tem reforçado as desigualdades? Como confrontar essas lógicas? Eubanks, que é professora de Ciência Política da State University of New York, em Albânia, conversou com a DigiLabour sobre esses assuntos presentes em Automating Inequality. Confira abaixo em aúdio:

 

Digital Poorhouse

 

Automatização dos serviços públicos e intensificação das desigualdades

 

Noções de classe e classe trabalhadora em contexto de desigualdades automatizadas

 

Como desmantelar o digital poorhouse?

 

Dubal: regulação das plataformas de trabalho

Veena Dubal é professora de Direito da University of California e pesquisa as relações entre Direito, tecnologia e trabalho precário. Alguns de seus artigos:

 

Confira entrevista de Dubal à DigiLabour:

DIGILABOUR: Hoje quais são os principais desafios para regulação do trabalho em plataformas digitais?

VEENA DUBAL: Os principais desafios não são de ordem legal, mas estão enraizados no poder estrutural e instrumental das principais plataformas digitais. Empresas como Uber e Amazon alavancaram seus ativos significativos de forma a impedir a aplicação das leis trabalhistas existentes. Elas fazem de tudo para favorecer seus modelos de negócios exploradores. Grande parte do trabalho realizado por meio de plataformas digitais não é tão diferente para fins regulatórios de outros tipos de trabalho realizados na economia de serviços. De fato, as plataformas poderiam potencialmente dar aos reguladores acesso a segmentos da economia de serviços que têm ficado cada vez mais informais. Mas, em vez de usar tecnologias digitais para reduzir o mercado de trabalho informal, as plataformas de trabalho escolheram a arbitragem regulatória, escondendo-se atrás da fachada da tecnologia para afirmar que o trabalho nas plataformas é, de alguma maneira, novo ou inovador e não deve ser regulamentado da maneira tradicional.

 

 

DIGILABOUR: Você tem analisado em sua pesquisa atual os sentidos da lei para os trabalhadores precários. Como isso tem se dado?

DUBAL: A visão predominante nos Estados Unidos é a de que a maioria dos trabalhadores da gig economy quer ser autônomo/independente porque deseja a flexibilidade associada a esse status legal. Eu tenho feito pesquisa etnográfica por anos com motoristas da Uber e da Lyft em San Francisco, e minhas descobertas são muito diferentes. Acho que, para fins de políticas públicas, as próprias palavras – empregado ou prestador de serviços independente – são uma falácia. Os trabalhadores têm medo de que, se forem considerados “empregados”, as empresas serão ainda mais exploradoras do que já são. Alguns também apreciam o capital cultural associado a ser alguém “independente”. Especialmente em uma força de trabalho sindicalizada com trabalhadores atomizados, ser um “pequeno empresário” oferece um pouco de dignidade a muitas pessoas. Mas, independentemente do que eles possam querer ser chamados, os trabalhadores precários desejam os benefícios que as leis trabalhistas pretendem proporcionar – os direitos a um piso salarial, a negociação coletiva, o seguro-desemprego. Para os formuladores de políticas, esse deve ser o ponto a ser considerado.

DIGILABOUR: Como você tem analisado os movimentos que têm acontecido para enfrentar o atual cenário do trabalho digital, especialmente no campo jurídico?

DUBAL: Os movimentos trabalhistas no mundo digital que me inspiram são de natureza internacionalista. A greve global massiva contra a Uber no dia 8 de maio foi uma delas. Isso refletiu as conexões feitas pelas organizações de base dos motoristas em diferentes continentes. O fato de que esses trabalhadores de aplicativos atomizados foram capazes de coordenar uma ação global direta contra uma multinacional gigante foi incrível e sem precedentes. Acho que isso nunca aconteceu antes. Também fiquei muito impressionada com a Tech Workers’ Coalition nos EUA. Voluntários coordenaram o Google Walkout, que também foi global. Além disso, eles fizeram um trabalho incrível ao ajudar os trabalhadores de tecnologia de “colarinho branco” a perceberem que, se criarem solidariedade uns com os outros e com trabalhadores da área de tecnologia de maneira mais ampla (incluindo os precários), eles terão uma quantidade tremenda de poder. E esses voluntários da Tech Workers’ Coalition visam não apenas reduzir as práticas trabalhistas exploradoras, mas também usar seu poder para conter manifestações perigosas do capitalismo de vigilância. Esta, na minha opinião, é provavelmente a organização mais importante atualmente. Notavelmente, esses dois grupos – os motoristas do Uber e os trabalhadores da tecnologia – conseguiram crescer e se mobilizar, apesar das limitações que a legislação trabalhista dos Estados Unidos impõe sobre suas atividades.