Gianmarco Cristofari
A introdução de Tribulações Digitais, uma série de entrevistas sobre os desenvolvimentos da soberania digital na América Latina, pode ser lida aqui.
Conheci Sergio Amadeu, uma referência do movimento brasileiro de software livre, em um evento de lançamento organizado pelo Movimento dos Trabalhadores Sem Teto (MTST) em São Paulo, em novembro de 2025. Participei do evento com uma colega pesquisadora da Finlândia, minha amiga Darina. No início, tivemos dificuldade para encontrar o local, pois o endereço não estava claramente marcado no Google Maps. Quando pedi informações, uma mulher simpática abriu uma porta e nos levou a algo que parecia um campo de refugiados — algo que não esperávamos: um conjunto de pequenas casas e barracas precárias, construídas com alumínio. Embora o espaço parecesse silencioso quando chegamos, era claramente uma comunidade viva, com cozinhas compartilhadas, uma horta e outros espaços coletivos.
Caminhando em direção à borda do terreno, subimos uma rua e descobrimos um telecentro — um laboratório comunitário de informática voltado à inclusão digital, onde moradores da periferia podem acessar serviços essenciais, estudar e aprender tecnologia. Nas paredes, havia frases de Paulo Freire — o pedagogo brasileiro que ficou conhecido por dizer que “a leitura do mundo precede a leitura da palavra”. Ali, o lema havia sido adaptado para a disputa digital: “a leitura do mundo precede a leitura do código”.
Perto dali, um grupo de pessoas havia se reunido para uma conversa organizada sob a sombra de uma árvore. Como éramos as únicas não brasileiras ali — ambos loiros — chamávamos atenção; ouvi cochichos divertidos no público: “Olha, agora temos gringos!”. Sentamos e assistimos à apresentação do livro. Sergio falou com carisma e intensidade. Quando me aproximei dele ao final, ele gentilmente aceitou se encontrar comigo mais tarde em um café na Avenida Paulista, no coração de São Paulo.
O que mais me marcou ao chegar ao Brasil foi o ritmo impressionante de digitalização do país. Em muitos aspectos, o Brasil é muito mais digitalizado do que a Europa — embora nem sempre para melhor. O WhatsApp não é apenas um aplicativo de mensagens aqui; ele é a interface principal para praticamente todas as pessoas e todos os negócios. Isso provavelmente acontece porque serviços “gratuitos”, em países que enfrentam condições estruturais de incerteza econômica, rapidamente se transformam em infraestrutura essencial.
Também me chamou a atenção a ausência de uma cultura amplamente difundida de proteção de dados. Dados pessoais são coletados de forma agressiva por todos, muitas vezes sem necessidade. Uma vez, tentei usar uma lavanderia automática em que o processo de cadastro era guiado pelo avatar de uma mulher negra, mas o sistema exigia tanta informação pessoal que eu acabei desistindo. Além disso, o acesso biométrico se tornou padrão para entrar em prédios nas grandes cidades. Sem um CPF, a vida se torna incrivelmente difícil — desde comprar passagens online até acessar serviços básicos do governo.
Nesta entrevista, discutimos os legados do software livre no Brasil e as visões, disputas e programas concorrentes de soberania digital. Exploramos os desafios de um país dividido entre as concessões dos governos de esquerda e o risco crescente de a extrema direita retomar o poder e usar essas mesmas tecnologias para fins de vigilância — uma tendência já visível nas políticas de diversos governadores de estados brasileiros.
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Qual é a sua trajetória e por que você se interessa por soberania digital?
Eu pesquiso a internet desde a última década do século XX. Fiz meu mestrado em controle e regulamentação da internet e defendi no ano 2000. Acompanho as redes digitais há muito tempo, como pesquisador e como militante do movimento de software livre. De usuário, passei a ser colaborador nas comunidades de software aberto em 2003, coordenei o primeiro comitê de implementação de software livre no governo federal, na primeira gestão do governo Lula. Houve muitos embates com grandes empresas, principalmente com a Microsoft. O governo se dividiu. Parte do governo tinha interesse em fazer alianças com o que hoje chamamos de big techs. Eu defendi a elaboração de um decreto presidencial para a implementação de software livre na administração pública federal, mas isso não foi possível porque descontentava uma parte do governo, incluindo os ministros Palocci e Furlan.
Minha formação é em Ciências Sociais e Políticas Públicas. Não existe política pública sem consolidação em normas, regras, decretos e portarias. Saí do governo, voltei à academia e continuei pesquisando redes digitais. Atualmente pesquiso o que é chamado de inteligência artificial, que eu prefiro chamar de inteligência artificial realmente existente, porque há muita mistificação. Ao discutir a relevância dos dados para a inteligência artificial, passei a colocar a questão da soberania digital a partir da soberania de dados. Minha relação com o tema é como pesquisador e como alguém que vem da comunidade de tecnologias abertas, e que considera que as tecnologias concentram determinações hierárquicas, políticas e econômicas. Essa é a minha vinculação com o tema da soberania.
Quando falamos de soberania digital, do que estamos falando? O Brasil tem uma posição privilegiada no discurso, inclusive na média global. Como esse debate evoluiu nos últimos anos?
O termo soberania digital está em disputa. Quando defendo soberania digital, aproximo a ideia da soberania alimentar, conceito desenvolvido por movimentos populares, principalmente o movimento campesino: a comunidade tem direito de escolher o que plantar e o que comer. Ao usar o conceito de soberania digital, afirmamos a necessidade de autonomia tecnológica mínima para definir que tecnologias desenvolver e utilizar, com que base e com que finalidade. Quando utilizamos apenas plataformas e tecnologias de grandes corporações norte-americanas, perdemos as condições de definir elementos básicos do desenvolvimento e do uso dessas tecnologias. Para ser soberana, a tecnologia precisa ser apropriada por coletivos, pela inteligência coletiva nacional, local, comunitária.
E a soberania digital envolve a soberania de dados. Dados têm alto valor na economia digital e são insumo fundamental da inteligência artificial. Nossa sociedade deveria definir quais dados serão criados, suas finalidades, e, uma vez criados, como deveriam ser usados. Quando vão para os data centers das big techs, perde-se a possibilidade de decisão sobre esses dados. Daí o termo soberania de dados.
Olhando para a trajetória do software livre e código aberto, o que funcionou e o que falhou? O que podemos aprender, especialmente com a chegada do smartphone?
Houve uma mudança no cenário tecnológico que dificultou o uso e o desenvolvimento do software livre. Os celulares criaram dispositivos que impedem que você use qualquer software. Você fica preso a determinado hardware que exige um tipo específico de software. Pouquíssimas pessoas conseguem remover o que vem instalado e colocar outros softwares livres, e estes muitas vezes não se comunicam com as operadoras de telecomunicações. No plano do celular isso ficou complicado. O Google, para enfrentar a Apple, usou o Linux para criar o Android. È atè uma piada: o sistema operacional mais utilizado no mundo dos celulares não é mais livre, porque está sob controle do Google, embora tenha nascido do software livre e do kernel Linux licenciado em GPL.
Outra mudança ocorreu no mundo dos computadores: o paradigma de computação migrou para a nuvem. Houve uma terceirização massiva de infraestrutura de governos, empresas e pessoas para data centers controlados por grandes empresas. Você perde autonomia sobre o software, porque muitos sistemas passam a ser utilizados na nuvem. Curiosamente, as nuvens usam software livre. A maior parte do parque da AWS roda em Linux; hoje, grande parte dos serviços da Microsoft, que é o segundo grande provedor de nuvems no mundo, também. Mas tudo isso foi capturado pelas grandes empresas. Apesar de ter licenças livres nos servidores, eles estão sob o controle de corporações que transformam trabalho coletivo em lucro privado. É preciso libertar o software livre das big techs.
A lição é que precisamos atuar em vários planos para construir soberania digital. No Brasil, o neoliberalismo virou doutrina e razao de gestores públicos, inclusive em parte do atual governo. Não é um Estado mínimo, é um Estado a serviço das empresas. Para implementar infraestruturas digitais soberanas, é preciso fazê-lo gradualmente, e o software livre é fundamental. O software livre volta ao terreno de disputa aliado à luta pela soberania digital. Não adianta dizer que vamos tirar todas as big techs do jogo na administração pública. Não há alternativa imediata. Precisamos construir alternativas concretas, o que envolve infraestruturas caras, política tecnológica, e o uso do poder de compra do Estado em favor da soberania digital e de dados.
As grandes corporações sabem da força dessa pauta e lançaram o produto Sovereign Cloud. Prometem uma “nuvem soberana”, mas na prática instalam data centers no Brasil mantendo controle dos dados, da operação e da receita. Argumenta-se que, ao menos, os dados estariam seguros no Brasil. Não estão. O aparato legal norte-americano dá primazia ao Estado americano para controlar máquinas mesmo fora do território do Brasil. S Em junho de 2025, o Senado da França chamou o consultor jurídico da Microsoft e pergunto se os softwares e dados que rodanvam nos computadores da empresa na França estariam submetidos somente às autoridades francesas. O representante da Microsoft disse: não! O Cloud Act obriga as empresas norte-americanas a cumprir decisões dos Estados Unidos estejam onde estiverem. Se é assim na França, no Brasil não é diferente. Por isso, as nuvems soberana das grandes empresas de tecnologia do Serpro e Dataprev que produtos “soberanos” da Amazon, Microsoft, Google e Oracle não oferecem soberania de fato.
O que você acha do que o governo Federal está fazendo para desenvoler a soberania digital?
O atual governo sucedeu a gestão repleta de neofascistas que estavam destruindo a democracia, falo do governo de Jair Bolsonaro. O governo Lula encontrou uma administração em terra arrasada. Isso gerou uma grande dificuldade. Entretanto, pela primeira vez os documentos de tecnologia do governo federal trouxeram a palavra soberania digital. Mas, ainda há mais discurso do que projetos concretos. Ao mesmo tempo, o Serpro opera como um broker, um revendedor da Amazon, da Oracle e da Microsoft. O discurso parece bom, mas a prática é a mesma de antes. Isso precisa ser alterado. É difícil substituir fornecedores sem projetos concretos. Como não lançam projetos, caem na armadilha do neoliberalismo que tudo tem que ser em tempo real e exige soluções imediatas: “vamos tirar tudo da Amazon, e agora?” Agora é preciso construir infraestruturas e soluções de gestão livres e soberanas aqui. Como não constroem, ficam presos à exigência de tempo real.
Sim, mas acho que tambem as idea dos projectos da União Soviética ou como o Cybersin era melhorar o planejamento com uso de dados em tempo real.
O Cybersyn começou a ser implantado pelo Allende no Chile. O Brasil tem algo que o Chile e a Argentina não têm: empresas públicas estatais de dados, que agora foram desvirtuadas e passaram a funcionar como dealers das big techs. Mas poderíamos inverter isso com uma nova política de gestão. O governo atual poderia ter feito essa inversão se tivesse essa clareza, mas não tem. A maioria dos gestores e líderes do atual governo não compreendem que a tecnologia é um aparato também geopolítico.
Eu falo a partir de uma perspectiva que chamo de colonialismo de dados. Usamos não só a luta anticolonial de Fanon, mas também a visão de decolonialidade da sociologia latino-americana, por exemplo, de Anibal Quijano, sociólogo peruano que afirmou o seguinte: o colonialismo, enquanto estrutura política, já não existe mais. O Brasil é soberano. Mas a colonialidade permanece nas epistemes, no modo de pensar, na cultura. Muitos gestores de esquerda são submetidos à colonialidade, eles se identificam com o colonizador.
Decolonizar o imaginário?
É isso, libertar o imaginario. Não existe uma única forma de fazer sistemas automatizados, chamados de inteligência artificial. Existem várias outras, mas estamos subordinados a um tipo exclusivo de exclusivo pensamento e de abordagem. Mesmo quem não concorda com o conceito de decolonialidade poderia pensar a partir de Marx e observar a profunda alienação que opera na área da tecnologia. Há uma alienação forte entre gestores e direção política. Discutem filosofia, política, geopolítica, culinária, moda, esportes. Mas, quando se trata de tecnologia, compram qualquer coisa que funcione, como se a tecnologia fosse neutra.
É preciso quebrar essa ideia e recolocar a tecnologia no terreno da economia e da cultura. A tecnologia é uma das maiores pressões culturais de uma sociedade. Não é externa, não é apenas técnica. A técnica expressa modos de enfrentar problemas que a sociedade tem. O poder econômico das big techs deriva do domínio tecnológico. O poder econômico-militar norte-americano também. Não há superioridade racial, isso é invenção colonizadora que permanece no imaginário.
Que era mais ou menos o conceito gramsciano da hegemonia. E como você avalia os resultados de movimentos populares como o Movimento Trabalhadores Sem Teto (MTST)? Há especificidades latino-americanas na luta pelos bens comuns?
O Brasil tem muitos movimentos populares. O MTST é um deles. Outro é o Movimento dos Trabalhadores Sem Terra (MST), com grande força no campo e um setor de tecnologia forte. Eles têm uma pauta de soberania e agora avançam na defesa da soberania digital. Junto com o MTST, defendem a soberania digital popular, para diferenciar da falsa ideia de soberania digital das big techs. As tecnologias precisam estar apropriadas e validadas pelas comunidades.
O grupo de tecnologia do MTST decidiu usar tecnologias disponíveis e atrair jovens desenvolvedores, designers de experiência, administradores de sistemas e cientistas de dados. Foram bem-sucedidos. Estão começando a discutir a adoção do software livre. Ainda não usam plenamente, mas caminham nessa direção, e querem trazer mais pessoas para a comunidade de software livre. As comunidades de software livre no Brasil são numerosas. Há, por exemplo, a Casa de Cultura Tainã que articulou digitalmente uma rede de Quilombos. Os Quilombos eram comunidades formadas por escravizados fugidos nos séculos XVII, XVIII e XIX, e seus remanescentes existem até hoje. No Brasil por muito tempo prevaleceu a ideologia da democracia racial, que negava o racismo. Durante anos o movimento negro disse que tinha racismo no Brasil. A Rede Globo, que a principal rede de TV no Brasil, dizia que não tinha racismo no Brasil. A academia não reconhecia o racismo no Brasil. Mas a luta do movimento negro mudou essa realidade.
E aí o que aconteceu? A internet ajudou a ligar essas comunidades quilombolas. A Rede Mocambos, com lideranças quilombolas em Campinas, construiu uma rede em software livre há muito tempo. Muitos quilombos usam software livre. Eles se articulam com grupos como o Coletivo Digital. São Paulo teve a maior rede de telecentros com software livre do planeta: 400 unidades de acesso gratuito à internet nas periferias, todas com software livre. O Coletivo Digital é uma organização não-governamental que nasceu dessa experiência dos telecentros livres da cidade de São Paulo.
Quais são as especificidades da cidade e até que ponto ela se tornou plataformizada? È uma smart city?
Há grupos que defendem smart cities. Nós somos críticos. Na prática, smart city vira conjunto de sensores e câmeras para vigiar a população e interligar alguns serviços. Há movimentos como Tire meu rosto da sua mira, contra a biometria e o reconhecimento facial. Essa é uma disputa intensa. Há governos estaduais ligados ao PT, como Ceará e Bahia, que por alianças políticas entregaram a área de segurança à direita e adotaram biometria e reconhecimento facial há muito tempo. Só que reconhecimento facial não reduz o crime. Alegam prisões de pessoas com mandado, mas isso não aumenta a segurança. O que se vê é mais medo e a possibilidade de mapear pessoas e controlar movimentos indesejados, mapear favelas e periferias.
A questão da privacidade aqui é muito importante por causa do viés e do contexto de violência policial. Dou um exemplo. Moro no Sumaré, bairro de classe média. Se uma câmera der falso positivo, virá muita polícia, mas por ser um homem mais velho, branco no contexto local, provavelmente nada acontecerá. Na periferia, o desfecho pode ser fatal. A polícia mata muitos negros por dia no Brasil.
Ao sair de casa, passo por vários totens com câmeras. Podem controlar meus passos pela cidade. É uma sociedade de vigilância distribuída, totalitária, inaceitável em qualquer regime democrático. Não quero ser vigiado por inimigos que possam estar no poder. Aqui no Brasil há grupos perigosos como bolsonaristas, extrema direita, neofascistas. O governo de São Paulo é do Tarcísio, alinhado ao bolsonarismo. Em geral se ligam a setores evangélicos para obter votos e querem câmeras nas escolas. No Paraná, o governador diz que os professores são pessoas não confiáveis. Ele implantou um aplicativo – que deveria ser um escândalo mundial – que obriga professores a tirar fotos de crianças para registro de presença por biometria facial. Biometria é dado sensível. Em vez de chamada, o sistema reconhece quem estava presente. Isso revela uma visão autoritária e tecnocrática. O neofascismo não é só regime, é um processo. E no Brasil há uma junção de ruralismo e capital financeiro por trás disso, embora se apresentem como “contra o sistema”, eles são o que existe de pior no sistema.
Vamos a um exemplo mais positivo: o PIX. Você vê o PIX como um caso virtuoso de infraestrutura pública. Por que o PIX aconteceu no Brasil?
O PIX já vinha sendo estudado, mas a decisão de lançar se acelerou por um contexto específico. E a minha dúvida sempre foi por que os banqueiros concordaram com o PIX, uma vez que eles ganhavam nas transações de transferência entre bancos? É porque existiu uma coisa no Brasil muito interessante. O Brasil talvez seja o primeiro ou o segundo em número relativo de usuários de WhatsApp. Isso se deve, entre outros fatores, ao franquia zeroou zero rating. O que é isso? A maior parte dos brasileiros pobres não tem planos de telefonia pagos mensalmente. Eles têm planos pré-pagos, eles compram 20, 30, 50 reais de conexão. Facebook fez acordos com operadoras para que o uso do WhatsApp não consumisse a franquia de dados dos usuários pré-pagos. Facebook paga para voce.
O WhatsApp é onipresente: mais de 90% dos brasileiros usam. Se você quer contratar pintor de parede, trabalhador de serviços você faz pelo WhatsApp, todo mundo te dá o WhatsApp. Assim, o Grupo Meta, dono do WhatsApp pensou: agora que eu tenho todos os pequenos negócios na minha mão, vou dominar a moeda. A tendência era o WhatsApp integrar pagamentos e moeda dentro do app. Mas o Banco Central lancou o PIX.
Entao foi contra WhatsApp?
Na verdade isso não é falado. Mas, essa é uma hipótese. O WhatsApp estava prestes a lançar o seu próprio meio de pagamento e aí os banqueiros que estavam estudando o PIX o aceitaram. Os banqueiros aceitaram o PIX também porque as transferências bancárias tradicionais eram menos usadas por pessoas mais pobres. Ainda assim, muita gente hoje usa PIX para grandes transferências, o que impacta receitas. Quem mais se irritou com o PIX? Nao foi Visa ou Mastercard, mas o grupo Meta, que foi pedir a Trump para atacar o PIX porque Zuckemberg perdeu a mina dos ovos de ouro aqui.
Mas a ideia do PIX nao nasceu dentro dos bancos, nasceu no Banco Central para agilizar transações, e desta vez saiu do papel. O PIX virou infraestrutura pública, amplamente adotada. É impensável reverter. O Lula não acabaria com o PIX; pelo contrário, o apoio decidido de Lula ao PIX diante de Trump aumentaram a popularidade do governo brasileiro.
Quais passos pragmáticos a América Latina pode dar nos próximos cinco anos?
É preciso aproximar estruturas, entidades, movimentos e governos democraticamente eleitos para construir infraestruturas digitais públicas soberanas, começando pelas universidades. As universidades brasileiras e latino-americanas têm seus dados nas big techs. Precisamos começar pelo começo: criar infraestruturas públicas soberanas digitais, apoiar provedores comunitários, e arranjos tecnológicos entre entidades públicas, não só federais, para desenvolver soluções regionais. Isso é possível apesar da instabilidade política da região. Hoje, por exemplo, sob o governo Javier Milei na Argentina, há grande dificuldade de participação em projetos coletivos, pois se destrói a infraestrutura pública. Esse projeto ideológico da extrema direita, inspirado em autores como Nick Land e Curtis Arvin, visa implodir o Estado por dentro e substituí-lo por uma tecnogestão privatizada, sem espaço para a democracia. Eles querem monarca empresarial, um CEO, e o Estado deve ser uma cota por ações como é uma empresa. Nesse contexto, a cooperação regional na América do Sul fica abalada pelo avanço da extrema direita, mas essa cooperação é fundamental para construirmos infraestruturas tecnológicas colaborativas, compartilhadas, distribuídas, federadas, livres e independentes das big techs.
Imagem: Carlotta Artioli.
