Christian Fuchs: “Uma Internet alternativa deve combinar Internet como serviço público e cooperativas de plataforma”

Klassenkämpfe im digitalen Kapitalismus. Die Plattform als neue Fabrik?

 

Christian Fuchs, professor da University of Westminster, é um dos maiores pesquisadores da área de comunicação atualmente. Suas pesquisas têm se dedicado a compreender, a partir de uma perspectiva marxista, questões de mídias sociais, trabalho digital e teoria social. É autor de livros como Social Media: a critical introductionDigital Labour and Karl Marx e Critical Theory of Communication: New Readings of Lukács, Adorno, Marcuse, Honneth and Habermas in the Age of the Internet. Organizou recentemente o livro Digital Objects, Digital Subjects : Interdisciplinary Perspectives on Capitalism, Labour and Politics in the Age of Big Data. Fuchs é editor da revista tripleC e diretor do Instituto de Pesquisa em Comunicação e Mídia em Westminster. Lançará em outubro o livro Nationalism on the Internet: Critical Theory and Ideology in the Age of Social Media and Fake News.

Fuchs conversou com a DigiLabour sobre trabalho digital, cooperativismo de plataforma, socialismo, internet e comunicação alternativa e novos nacionalismos. Confira:

 

DIGILABOUR: Você foi um dos primeiros pesquisadores a escrever sobre trabalho digital. Desde então, apareceram expressões como uberização, capitalismo de plataforma e plataformização. Além disso, houve uma intensificação do trabalho precário, especialmente em países como o Brasil. Para você, qual é hoje a questão crucial para a pesquisa sobre trabalho digital?

CHRISTIAN FUCHS: O trabalho é uma relação social entre a classe dominante e a classe explorada. A questão-chave da pesquisa sobre trabalho digital é entender como as relações de classes estão se transformando no capitalismo contemporâneo, o que inclui o capitalismo digital como uma das várias dimensões que moldam a vida dos seres humanos. A classe é um aspecto objetivo da existência dos seres humanos na sociedade de classes, e também é, como aprendemos com E.P. Thompson, uma experiência de classe. Uma questão importante para a pesquisa é como o trabalho digital é vivenciado por trabalhadores em todo o mundo, quais são os pontos em comum e as diferenças de certas formas de trabalho digital em diferentes países e partes do mundo, e como essas experiências e lutas reais ou potenciais interagem com o capital.

 

DIGILABOUR: Temos observando movimentos em torno de organização coletiva dos trabalhadores das plataformas e a emergência de novas formas de organização do trabalho, como o cooperativismo de plataforma. Como você compreende esses movimentos, incluindo suas contradições, em relação ao seu potencial emancipatório?

FUCHS: As cooperativas têm sido importantes ao longo da história da classe trabalhadora. Marx escreveu que as cooperativas “são, dentro da antiga forma, a primeira ruptura do modelo anterior, apesar de que, em sua organização real, reproduzam e tenham de reproduzir por toda parte, naturalmente, todos os defeitos do sistema existente”. As cooperativas de plataforma, cooperativas digitais e cooperativas culturais são uma expressão do desejo e da tentativa de uma economia cooperativa que vá além do capitalismo. Ao mesmo tempo, elas operam em condições de trabalho assalariado e em contexto competição, o que pode facilmente tornar o trabalho precário e marginal. Além disso, há o perigo, como ressalta Marisol Sandoval, de se transformarem em projetos ligados ao empreendedorismo e ao individualismo. As cooperativas só podem apresentar um potencial progressista se fizerem parte de um movimento socialista rumo a uma sociedade socialista, lutando com outras pessoas contra o capital em campanhas políticas coletivas, ou seja, se são projetos políticos e não apenas econômicos.

 

DIGILABOUR: Você coordenou uma equipe de pesquisadores no projeto netCommons, que mostra que a maioria das pessoas está interessada em alternativas às plataformas comerciais. Como podemos avançar nesta questão?

FUCHS: netCommons foi um projeto financiado pela União Europeia entre 2016 e 2018 com equipes nos seguintes países: França, Grécia, Itália, Espanha, Suíça, Grécia e Reino Unido. A pesquisa estudou o comum em rede, especialmente redes comunitárias, que são projetos alternativos à infraestrutura da rede de computadores. A tarefa da equipe da Universidade de Westminster, que eu liderei, era trazer uma perspectiva ligada à economia política para o projeto. Estávamos interessados em alternativas para a Internet em geral. Tais alternativas que promovem o comum digital são importantes nos níveis de infraestrutura, software e conteúdo. O que descobrimos é que há interesse dos usuários em alternativas. Mas alternativas também são difíceis de organizar. Os usuários temem que, se essas alternativas forem organizadas apenas no nível local, isso resulte em formas de nacionalismo no nível local (um localismo de mente estreita). Com isso, temem não conseguir desafiar o poder das corporações globais monopolistas do capitalismo digital. Como consequência, é importante que a sociedade civil e projetos por uma Internet sem fins lucrativos que tentam promover o comum digital cooperem com o serviço público e as organizações municipais e que as transformações não sejam vistas como uma questão puramente econômica, mas também como uma necessidade de transformar políticas públicas e a legislação de tal maneira que as alternativas sejam melhor apoiadas, que as empresas digitais e de comunicação sejam tributadas adequadamente, etc. Há também o perigo de que as alternativas à Internet se transformem em comunidades de nerds limitadas a eles como insiders, impedindo as pessoas comuns que não são nerds da computação de verem seus interesses nisso. Os projetos autonomistas geralmente enfrentam o mesmo problema quando eles se transformam, como critica Murray Bookchin, em estilos de vida. Portanto, é importante que projetos alternativos sejam baseados em uma cultura inclusiva. Para superar a marginalização econômica (redes pequenas, baixo número de usuários, falta de expansão, falta de recursos) e a marginalização política (falta de voz política), um projeto alternativo pode cooperar com campanhas, grupos de advocacy, sociedade civil, municípios, e instituições públicas. Os projetos ligados ao comum digital devem formar híbridos com projetos sociais, urbanos e outros projetos em torno do comum, para que sejam movimentos híbridos que façam demandas híbridas.

 

 

DIGILABOUR: Você tem defendido a Internet como serviço público e a slow media como alternativas ao cenário atual. Isso parece muito distante da realidade brasileira…

FUCHS: A Internet capitalista domina globalmente, não apenas no Ocidente e não somente no Sul Global. A luta por alternativas é necessária em todas as partes do mundo. Uma Internet alternativa deve ser uma combinação entre plataformas de Internet como serviço público e cooperativas de plataforma. Onde quer que os usuários/cidadãos estejam começando a confrontar a Internet capitalista e o capitalismo, há a possibilidade de mudanças progressistas, com demandas políticas que promovam alternativas, começando a construir alternativas. No final, a luta por uma Internet alternativa e por uma comunicação alternativa só é possível como parte da luta mais ampla pelo socialismo. E o socialismo é necessário em todos os lugares. O socialismo é a luta pela democracia na economia, na política e na cultura. Uma esfera pública democrática faz parte do socialismo como democracia participativa.

 

 

DIGILABOUR: Você está para lançar um livro sobre novos nacionalismos e têm falado sobre capitalismo autoritário. Como compreender isso, em um cenário de Bolsonaro, Trump e Brexit?

FUCHS: Em muitas partes do mundo, experimentamos a ascensão de formas autoritárias de capitalismo. O surgimento de novos nacionalismos é o aspecto mais perturbador e preocupante da política contemporânea. A Internet é um espaço onde o nacionalismo e o autoritarismo são comunicados, experienciados, contestados e confrontados. Ao teorizar criticamente sobre os nacionalismos e autoritarismos contemporâneos, eu estou interessado em desenvolver e atualizar as abordagens de autores como Karl Marx, Rosa Luxemburgo, Eric Hobsbawm, Franz Neumann, C.L.R. James, M.N. Roy, Erich Fromm, Theodor W. Adorno, Max Horkheimer, Herbert Marcuse, Wilhelm Reich, Klaus Theweleit e outros. A História nos diz que o nacionalismo e o autoritarismo não são pacíficos, mas geralmente resultam em guerras. E esse é o verdadeiro perigo dos novos nacionalismos. Eles têm potenciais fascistas. Mais uma vez, como diz Rosa Luxemburgo, estamos na encruzilhada da “transição para o socialismo ou da regressão à barbárie”. As lutas sociais pelo socialismo democrático são o único antídoto ao nacionalismo, ao autoritarismo e ao fascismo.

 

 

O Trabalho dos Moderadores de Conteúdo: entrevista com Sarah Roberts

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Sarah Roberts, professora da University of California, Los Angeles, é uma pioneira na pesquisa sobre o trabalho dos moderadores de conteúdo das mídias sociais. Ela chama atenção especialmente para a moderação realizada por terceirizados de grandes empresas, como Facebook Google. Foi uma das entrevistadas do filme The Cleaners e lançou em junho o livro Behind the Screen: Content Moderation in the Shadows of Social Media, resultado de oito anos de pesquisa nos Estados Unidos e nas Filipinas.

Roberts afirma que a moderação de conteúdo não é algo novo, remontando a algo feito há quatro décadas. Para ela, o novo é a sua escala industrial, sendo um poderoso mecanismo de controle. Como já discutimos na DigiLabour desde o início, é o trabalho humano por trás da chamada “inteligência artificial”. Pessoas que trabalham em lugares como call centers e também em plataformas de microtrabalho como Amazon Mechanical Turk. Passam o dia vendo cerca de 1500 fotos e vídeos para decidir o que manter e o que deletar das plataformas digitais. Para Roberts, o trabalho de moderação comercial de conteúdo reforça a Internet como lugar de controle, vigilância, intervenção e circulação da informação como mercadoria.

Conversamos com Sarah Roberts e você pode conferir os áudios abaixo:

Cobertura midiática sobre os moderadores de conteúdo
Tipologia dos moderadores de conteúdo nas mídias sociais
Mudanças na moderação comercial de conteúdo
Futuro da moderação comercial de conteúdo

Se quiser ler outra entrevista com Sarah Roberts, acompanhe aqui.

Dubal: regulação das plataformas de trabalho

Veena Dubal é professora de Direito da University of California e pesquisa as relações entre Direito, tecnologia e trabalho precário. Alguns de seus artigos:

 

Confira entrevista de Dubal à DigiLabour:

DIGILABOUR: Hoje quais são os principais desafios para regulação do trabalho em plataformas digitais?

VEENA DUBAL: Os principais desafios não são de ordem legal, mas estão enraizados no poder estrutural e instrumental das principais plataformas digitais. Empresas como Uber e Amazon alavancaram seus ativos significativos de forma a impedir a aplicação das leis trabalhistas existentes. Elas fazem de tudo para favorecer seus modelos de negócios exploradores. Grande parte do trabalho realizado por meio de plataformas digitais não é tão diferente para fins regulatórios de outros tipos de trabalho realizados na economia de serviços. De fato, as plataformas poderiam potencialmente dar aos reguladores acesso a segmentos da economia de serviços que têm ficado cada vez mais informais. Mas, em vez de usar tecnologias digitais para reduzir o mercado de trabalho informal, as plataformas de trabalho escolheram a arbitragem regulatória, escondendo-se atrás da fachada da tecnologia para afirmar que o trabalho nas plataformas é, de alguma maneira, novo ou inovador e não deve ser regulamentado da maneira tradicional.

 

 

DIGILABOUR: Você tem analisado em sua pesquisa atual os sentidos da lei para os trabalhadores precários. Como isso tem se dado?

DUBAL: A visão predominante nos Estados Unidos é a de que a maioria dos trabalhadores da gig economy quer ser autônomo/independente porque deseja a flexibilidade associada a esse status legal. Eu tenho feito pesquisa etnográfica por anos com motoristas da Uber e da Lyft em San Francisco, e minhas descobertas são muito diferentes. Acho que, para fins de políticas públicas, as próprias palavras – empregado ou prestador de serviços independente – são uma falácia. Os trabalhadores têm medo de que, se forem considerados “empregados”, as empresas serão ainda mais exploradoras do que já são. Alguns também apreciam o capital cultural associado a ser alguém “independente”. Especialmente em uma força de trabalho sindicalizada com trabalhadores atomizados, ser um “pequeno empresário” oferece um pouco de dignidade a muitas pessoas. Mas, independentemente do que eles possam querer ser chamados, os trabalhadores precários desejam os benefícios que as leis trabalhistas pretendem proporcionar – os direitos a um piso salarial, a negociação coletiva, o seguro-desemprego. Para os formuladores de políticas, esse deve ser o ponto a ser considerado.

DIGILABOUR: Como você tem analisado os movimentos que têm acontecido para enfrentar o atual cenário do trabalho digital, especialmente no campo jurídico?

DUBAL: Os movimentos trabalhistas no mundo digital que me inspiram são de natureza internacionalista. A greve global massiva contra a Uber no dia 8 de maio foi uma delas. Isso refletiu as conexões feitas pelas organizações de base dos motoristas em diferentes continentes. O fato de que esses trabalhadores de aplicativos atomizados foram capazes de coordenar uma ação global direta contra uma multinacional gigante foi incrível e sem precedentes. Acho que isso nunca aconteceu antes. Também fiquei muito impressionada com a Tech Workers’ Coalition nos EUA. Voluntários coordenaram o Google Walkout, que também foi global. Além disso, eles fizeram um trabalho incrível ao ajudar os trabalhadores de tecnologia de “colarinho branco” a perceberem que, se criarem solidariedade uns com os outros e com trabalhadores da área de tecnologia de maneira mais ampla (incluindo os precários), eles terão uma quantidade tremenda de poder. E esses voluntários da Tech Workers’ Coalition visam não apenas reduzir as práticas trabalhistas exploradoras, mas também usar seu poder para conter manifestações perigosas do capitalismo de vigilância. Esta, na minha opinião, é provavelmente a organização mais importante atualmente. Notavelmente, esses dois grupos – os motoristas do Uber e os trabalhadores da tecnologia – conseguiram crescer e se mobilizar, apesar das limitações que a legislação trabalhista dos Estados Unidos impõe sobre suas atividades.

Mosco: Cidades Inteligentes e Internet das Coisas em Visão Crítica

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Vincent Mosco, professor emérito de sociologia da Queen’s University, é um dos principais pesquisadores da economia política da comunicação. Dentre os seus 26 livros, destacamos The Political Economy of CommunicationTo The Cloud: Big Data in a turbulent world Becoming Digital. Os dois últimos fazem parte de uma trilogia sobre os impactos sociais da “Próxima Internet”. O terceiro e último volume será lançado no próximo dia 28 de agosto: The Smart City in a Digital World. Conversamos com Vincent Mosco sobre o lançamento.

DIGILABOUR: Quais são os problemas com a retórica predominante sobre as cidades inteligentes?

VINCENT MOSCO: Meu último livro questiona o que tornaria uma cidade inteligente, descrevendo o cenário e buscando alternativas democráticas à retórica de que a resposta começa e termina com a tecnologia. Na esteira do colapso financeiro global de 2008, as empresas foram às cidades de todo o mundo vender tecnologia, colher dados valiosos e aprofundar a governança privada da vida urbana. Elas se associaram aos governos para promover o que parecem ser benefícios significativos para os moradores. Isso inclui ruas mais seguras, ar mais limpo, transporte mais eficiente, comunicação instantânea para todos e algoritmos que tiram a governança das mãos de seres humanos imperfeitos. Mas há outra história que está abaixo dessa superfície. As cidades inteligentes impulsionadas pela tecnologia aprofundam a vigilância e transferem a governança urbana para executivos corporativos não eleitos e parcerias público-privadas. Isso também encolhe a democracia, cria um paraíso para os hackers e acelera a chegada da mudança climática. Para resolver esses problemas, é essencial entender as tecnologias, as organizações e as mitologias que impulsionam o movimento global das cidades inteligentes. Significa também avaliar a crescente resistência a uma cidade movida pela tecnologia, liderada por cidades como Barcelona, ​​Amsterdam e Oslo. É importante entender que construímos mitos sempre que construímos cidades. Hoje, eles associam a cidade inteligente a narrativas de transcendência tecnológica que fazem dela a melhor, senão a única, esperança para o futuro urbano. Não há dúvida também de que as apostas financeiras são altas. As cidades inteligentes oferecem grandes fontes de receita na venda de tecnologias, incluindo os sensores da Internet das Coisas, que estão localizados nas luzes das ruas, nos veículos, nas câmeras e outros dispositivos nas cidades. O mercado de dispositivos conectados e equipados com sensores está apenas começando a se expandir e é compreensível que empresas de tecnologia como IBM, Alibaba, Siemens e Cisco estejam ansiosas para promover a visão de que a implantação das tecnologias da “Próxima Internet” pode salvar as cidades do mundo de seus problemas aparentemente intratáveis. Outro fluxo de receita  vem dos sistemas que gerenciam e controlam essa vasta gama de dispositivos conectados, permitindo respostas rápidas a mudanças. Os principais exemplos incluem os Centros de Operações que a IBM foi pioneira no Rio de Janeiro e o City Cockpit da Siemens em Singapura. Eles ampliam enormemente as oportunidades de usar todos os dados coletados pelos dispositivos de vigilância e desenvolver novos algoritmos para gerenciar o tráfego, o crime, a coleta de lixo, a iluminação pública e outros serviços da cidade. Além disso, há outro enorme fluxo de receita nos dados coletados sobre os usos de dispositivos conectados. As oportunidades de medir, monitorar, empacotar e vender dados crescem a cada nova cidade inteligente, a cada novo centro de operações e a cada novo dispositivo conectado. Quer as cidades inteligentes funcionem ou não para residentes urbanos, é cada vez mais claro que elas trabalham para as empresas que vendem tecnologias, sistemas e dados. As cidades inteligentes são construídas no imaginário mítico por causa das oportunidades que eles fornecem aos governos para gerenciar e controlar as pessoas. A vigilância em massa detalhada não apenas produz dados comercializáveis, mas também cria o “self quantificado”. Os governos, sejam eles explicitamente autoritários ou não, veem as tecnologias das cidades inteligentes como soluções para o problema de monitorar e gerenciar populações em crescimento, incluindo migrantes recém-chegados. Os algoritmos dinâmicos que mudam a cada nova onda de dados facilitam o trabalho, transferindo a tomada de decisões para um conjunto de regras geradas por computador que também podem servir para eliminar a responsabilidade. Embora as pesquisas estejam mostrando que os algoritmos incorporam discriminações de raça, gênero e classe na sociedade, o que equivale a inscrever a desigualdade no código, a aparência de objetividade, reificada em código, é um meio conveniente para aprofundar e ampliar o controle político.

DIGILABOUR: Quais as possibilidades de alternativas democráticas para este cenário?

MOSCO: Primeiramente, são as pessoas que tornam as cidades inteligentes. Especificamente, a experiência coletiva e a inteligência daqueles que vivem e trabalham nas cidades, juntamente com aqueles que os visitam, são o que tornam as cidades inteligentes. O objetivo dos aplicativos de tecnologia de cidades inteligentes – especialmente os sistemas da “Próxima Internet”, como Internet das Coisas, análise de Big Data e computação em nuvem – deve ser, em primeiro lugar, melhorar a qualidade de vida e as capacidades daqueles que vivem nas cidades. Não é expandir o lucro e o poder das empresas ou o controle do governo sobre seus cidadãos. Cidades genuinamente inteligentes são cidades democráticas. Os cidadãos devem estar envolvidos na tomada de decisões sobre os aplicativos de cidades inteligentes desde o início de cada projeto até a conclusão, como co-participantes de governos, empresas privadas e organizações não-governamentais públicas. Os cidadãos têm o direito de acessar todas as informações, incluindo planos, políticas e debates, sobre o processo de desenvolvimento das cidades. Um índice-chave de um projeto de cidade inteligente de sucesso é a medida que ajuda os cidadãos a expandir a democracia, ou seja, alcançar a participação mais completa possível dos cidadãos nas decisões que afetam suas vidas. Cidades inteligentes também devem valorizar o espaço público. O espaço público é composto de áreas onde indivíduos e grupos sociais são livres para se unirem e se comunicar abertamente. Isso inclui trocar ideias sobre problemas sociais e planejar ações políticas. Deve ser diferenciado do espaço comercial cuja finalidade principal é vender produtos e serviços. Como os espaços públicos são centrais para apoiar o livre fluxo de ideias e a democracia, as cidades inteligentes devem proteger o espaço público, tanto on-line quanto off-line. Isso inclui a comunicação pública por meio do acesso universal sob controle público, serviços públicos essenciais que fornecem energia e água, bem como instituições públicas, como escolas, parques, bibliotecas e locais públicos de reunião. Cidades inteligentes também devem compartilhar dados. Os dados coletados de projetos de cidades inteligentes pertencem às pessoas de quem são coletados. As pessoas têm o direito de reter, remover ou depositar em uma confiança pública controlada pelos cidadãos todos os dados coletados em suas atividades em cidades inteligentes. Os dados coletados sobre os cidadãos não devem pertencer às empresas privadas ou agências governamentais que as coletam. Os cidadãos podem concordar em que as instituições públicas e privadas façam uso de seus dados, mas somente quando todas as partes estiverem plenamente informadas e quando houver uma garantia de que, se alguém optar por não compartilhar dados a qualquer momento no processo, não haverá repercussões . A privacidade é um valor fundamental das cidades inteligentes. As pessoas têm o direito à privacidade pessoal. Isso significa que qualquer sistema de coleta de dados da cidade inteligente deve desidentificar os dados na fonte de coleta e deve assumir total responsabilidade para garantir que os dados pessoais não sejam enviados a terceiros. Cidades inteligentes devem promover a diversidade. Os projetos de cidades inteligentes devem ser realizados sem discriminação de gênero, raça ou classe social. Isso inclui os algoritmos usados ​​nos processos de tomada de decisões. Estes devem estar sujeitos à revisão e supervisão pública, com o objetivo de acabar com a replicação das divisões sociais históricas. Cidades inteligentes devem promover o direito de se comunicar. As pessoas têm o direito de se comunicar, não apenas para receber comunicação. É essencial que as autoridades públicas criem acesso universal e acessível aos cidadãos à comunicação de alta velocidade e ampliem o acesso à informação, especialmente no que diz respeito à operação dos governos municipais e seus parceiros do setor privado. Cidades inteligentes também devem proteger o meio ambiente. As pessoas têm direito a um planeta saudável. Em cada estágio de cada projeto de cidade inteligente, é essencial colocar em primeiro plano as metas de enfrentar o desafio da mudança climática, reduzir e eliminar o uso de recursos energéticos não renováveis ​​e manter uma biosfera saudável. Cidades inteligentes e suas ruas são para pessoas, não carros. O projeto das ruas e calçadas da cidade é inteligente apenas se começar com os pedestres. Calçadas inteligentes são construídas para serem preenchidas com pessoas e forradas de árvores. Uma calçada vazia é como um teatro vazio.  As ruas inteligentes são melhor projetadas para acomodar primeiro as necessidades dos pedestres e daqueles que viajam em veículos não motorizados. Respeitando esses princípios, particularmente o compromisso com o controle do cidadão sobre a tecnologia, é razoável esperar que os aplicativos das cidades inteligentes fortaleçam a gestão e a entrega de todos os serviços municipais, especialmente as operações de emergência. Isso inclui transporte público, sistemas de energia, bem como segurança contra incêndios, policiamento, remoção de resíduos, água e esgotos. Além disso, eles podem ajudar na prestação de serviços de saúde pública, bem como na gestão de habitação pública e educação pública. As cidades inteligentes podem melhorar o gerenciamento de crises, mas somente se forem construídas de modo que o serviço público esteja em primeiro lugar.

DIGILABOUR: Quais são os pontos para uma crítica da indústria de Internet das Coisas?

MOSCO: Três tecnologias – literalmente conectadas por meio de telecomunicações de alta velocidade com e sem fio – proporcionam à infraestrutura de TI o que se prevê ser o salto para as cidades inteligentes. Isso inclui a Internet das Coisas – os sensores conectados a objetos como luzes de rua e sinais de trânsito que podem monitorar e relatar tudo ao alcance de suas capacidades de vigilância. Em geral, a Internet da Coisas refere-se a um sistema que instala sensores e dispositivos de processamento em objetos físicos e organismos vivos do cotidiano, incluindo pessoas. Para a cidade, isso significa incorporar tecnologia de monitoramento e coleta de dados em estradas, calçadas, edifícios, ruas e sua iluminação, bem como em residências, escolas e locais de trabalho. Onde quer que estejam localizados, esses sensores formam uma rede de coisas que acumulam grandes quantidades de dados e os entregam a sistemas de computação em nuvem para armazenamento e processamento com análise de Big Data. O resultado é o monitoramento em tempo real do uso de transporte, comunicação e energia. Os defensores esperam que a Internet das Coisas permita tempos de resposta mais rápidos para problemas cotidianos e grandes desastres. Um dos resultados é o desenvolvimento de algoritmos ou regras de tomada de decisão que permitem a ação autônoma. O software alimenta os sistemas de inteligência artificial (IA) que usam dados para criar regras “se… então” que acionam respostas com base na mudança de dados. Por exemplo, com base em estatísticas criminais e tecnologias de reconhecimento facial, as autoridades policiais desenvolveram algoritmos que seguem algumas variações de “se você identificar um rosto assim, aumente ou diminua seu nível de suspeita”. Como bancos de dados são construções sociais que categorizam e classificam a partir das subjetividades e dos preconceitos encontrados na sociedade, não é de surpreender que os algoritmos incorporem vieses racistas, sexistas e de classe. Consequentemente, os algoritmos precisam ser avaliados criticamente e com um olhar atento sobre as condições estruturais sociais que dão origem a regras de decisão baseadas em IA. Em certo sentido, a Internet das Coisas atualiza uma visão antiga, uma vez veiculada em anúncios de produtos da General Electric, de “dar vida a coisas”, dando-lhes capacidades de inteligência artificial. Esses objetos – o que o filósofo da ciência Bruno Latour chama de actantes – em sua teoria ator-rede, podem formar relacionamentos com outros objetos e com coisas vivas. A Internet que conhecemos há mais de trinta anos conecta principalmente pessoas a outras pessoas. A Internet das Coisas adiciona um universo de coisas à rede de redes. Neste ponto, apenas uma pequena fração de objetos, cerca de 1%, está conectada digitalmente em redes de Internet das Coisas em um mundo onde apenas 50% da população faz uso da Internet tradicional. Consequentemente, à medida que os números sobem inevitavelmente, há grandes expectativas de crescimento enorme, especialmente entre as organizações empresariais. A Internet das Coisas depende dos recursos de computação em nuvem, especialmente dos centros de dados que armazenam e processam o que os sensores monitoram. Então, a análise de Big Data transforma os dados em informações úteis e algoritmos de tomada de decisão. Relatórios sobre as perspectivas econômicas de tecnologias de cidades inteligentes tendem a concordar que esta indústria está prestes a atingir um crescimento explosivo. Um estudo concluiu que o mercado de cidades inteligentes vale cerca de US $ 1,2 trilhão e será avaliado em US $ 2,75 trilhões até 2023. Até 2020, as previsões preveem 600 cidades inteligentes em todo o mundo, metade delas localizadas na China.

DIGILABOUR: E o papel das grandes corporações?

MOSCO:  A indústria já é altamente concentrada e é dominada por empresas americanas. De fato, as cinco principais empresas da Próxima Internet são líderes mundiais em valor de mercado. Isso inclui a Amazon, que controla mais de um terço do mercado de computação em nuvem e tem uma presença formidável em Big Data e na Internet das coisas. A empresa foi uma das primeiras a criar um serviço de nuvem de tamanho único que atraiu indivíduos e organizações com sua simplicidade e preços com muito desconto, que sugerem que os preços predatórios estavam em ação. Google, Microsoft, Facebook e Apple completam a lista de empresas que usam seu controle sobre a Internet original para se tornarem líderes na Próxima Internet. Empresas antigas como IBM, Oracle, HP e Cisco se esforçaram para substituir sua especialização em serviços de TI que agora estão desaparecendo e se voltando para o novo mundo digital. No entanto, a necessidade de canibalizar sistemas antigos e refazer suas organizações fez com que as coisas ficassem lentas. Além disso, há empresas que se especializam em um ou outro sistema constituinte da Próxima Internet, como Rackspace e Salesforce, mas essas são constantemente prejudicadas pela invasão das empresas dominantes. As empresas dominantes estão se beneficiando de seus laços estreitos com as agências militares e de inteligência, proporcionando-lhes os serviços da Próxima Internet e cooperando, na maioria das vezes, com solicitações de informações sobre os usuários. De fato,  os laços estreitos com o Pentágono, bem como para a NSA e a CIA, ajudam a explicar por que não há concorrentes à hegemonia americana sobre a Próxima Internet vindo da Europa, cujas empresas de telecomunicações já lideraram o mundo um dia. A China fornece a única competição séria. Lá, o governo investiu pesadamente nas tecnologias da Próxima Internet, chegando a integrá-las em seus planos de cinco anos. Isso beneficiou empresas líderes como Alibaba, Baidu, Huawei e Tencent, entre outras. Sinalizando que pretende desafiar a liderança dos Estados Unidos, o Alibaba se estabeleceu no Vale do Silício e, como outras empresas chinesas, está se baseando no enorme mercado doméstico para estender seu alcance internacional. Um exame das questões políticas remanescentes revela por que a concentração do poder corporativo é um problema tão significativo e por que é essencial que as sociedades comecem a considerar a necessidade de intervenção pública para regular e controlar a Próxima Internet.

DIGILABOUR: E ainda há quem veja a internet como algo imaterial…

MOSCO: Como o mundo digital é composto de elétrons invisíveis que zunem pelo ar, há uma tendência de vê-lo como imaterial. Nada poderia estar mais longe da verdade e, quanto mais cedo isso for reconhecido, maior será a probabilidade de os problemas ambientais e climáticos associados à Próxima Internet serem abordados. Os centros de dados em nuvem são estruturas muito materiais e, à medida que vão enchendo o mundo, há inúmeras questões de política ambiental. No topo da lista está o consumo de energia nos centro de dados que aumentará conforme o número de sensores se expande exponencialmente. Além disso, a demanda do cliente por serviços 24 horas por dia, 7 dias por semana, requer várias camadas de energia de reserva, incluindo baterias de chumbo-ácido e geradores a diesel que foram considerados cancerígenos. Além disso, muitos centros de dados exigem grandes e contínuos suprimentos de água para seus sistemas de refrigeração, o que levanta sérias questões políticas em lugares como o oeste dos Estados Unidos. Até agora, as operadoras de centros de dados usaram seu poder econômico e o fascínio pelos empregos prometidos para pressionar com sucesso os governos locais a fornecer incentivos fiscais, acordos de corte de energia e alívio dos regulamentos de poluição. As questões de privacidade e segurança se multiplicam na Próxima Internet porque uma conectividade maior aumenta as oportunidades de falhas técnicas e de invasões criminais. Uma vez um jornalista de tecnologia referiu-se à Internet das Coisas como “a maior infra-estrutura de vigilância em massa de todos os tempos”. Mas mesmo nesse nível relativamente baixo, problemas técnicos e hackers criminosos atormentam o sistema. Mas as ameaças mais significativas surgem de empresas e governos com fome de dados. Para eles, a maior atração da computação onipresente são os dados valiosos sobre o comportamento das pessoas e o desempenho dos objetos.

DIGILABOUR: Qual o impacto disso tudo no trabalho digital?

MOSCO: O impacto da Próxima Internet no número de empregos e na natureza do trabalho é uma questão política importante. O impacto da tecnologia nos empregos tem sido discutido por muitos anos, mas especialmente desde o fim da Segunda Guerra Mundial, quando o cientista da computação Norbert Wiener gerou considerável debate público ao levantar o espectro da perda massiva de empregos devido à automação computadorizada. No entanto, a Próxima Internet está criando e provavelmente continuará a criar empregos, incluindo trabalhos de construção tradicionais na construção de redes globais de centro de dados, na nova profissão de ciência de dados e no controle, manutenção e monitoramento de coisas em rede. Mas hoje há muito mais oportunidades para a nova tecnologia eliminar o trabalho humano, especialmente o trabalho de conhecimento profissional. Na verdade, um consultor especializado prefere definir a computação em nuvem como “nada mais do que o próximo passo na terceirização de suas operações de TI”. Isso está de acordo com uma tendência geral que um pesquisador da Gartner Associates resume sucintamente: “A proposta de valor de longo prazo da TI não é apoiar a força de trabalho humana – é substituí-la”. A Próxima Internet também possibilita a racionalização generalizada de praticamente todo o trabalho criativo, porque o trabalho dessas ocupações envolve cada vez mais a produção, o processamento e a distribuição de informações. Agora estamos começando a ver os impactos na educação, na saúde, na lei, na contabilidade, nas finanças, nas vendas e na mídia. Organizações privadas e do setor público são incentivadas a terceirizar todos os seus principais processos de negócios para empresas como a Salesforce, especializada no gerenciamento de vastos bancos de dados de informações de clientes, um trabalho que os departamentos de marketing e atendimento ao cliente normalmente realizam atualmente. Combinada com a promessa de armazéns de produtos cheios de robôs para localizar, embalar e enviar mercadorias e drones para entregá-los, a Amazon é a ponta de lança da Próxima Internet para expandir a intensificação da mão de obra em todo o mundo. Qualquer que seja o impacto no número de empregos, a Próxima Internet já está mudando o processo de trabalho. Por exemplo, a ficção científica tornou-se realidade quando os trabalhadores de uma empresa sueca chegam ao escritório todos os dias com chips implantados sob a pele para melhorar a produtividade e o controle da gestão. A perda de empregos, o trabalho precário e o declínio dos sindicatos contribuem para a crescente crise do trabalho digital em todo o mundo.

 

 

Carelli: Questões Jurídicas no Trabalho Digital

Rodrigo Carelli, professor de Direito do Trabalho da UFRJ e Procurador do Ministério Público do Trabalho, fala à DigiLabour sobre questões jurídicas envolvendo o trabalho digital. Clique nos links para ouvir a entrevista:
Mudanças da CLT e o trabalho via plataformas digitais
Regulação do trabalho nas plataformas: uma questão ideológica
Plataformas de emprego e questões jurídicas
Leia um artigo de Carelli aqui.

Casilli: “A uberização é só um dos aspectos do trabalho de plataforma”

Entrevista com Antonio Casilli sobre microtrabalho, plataformização e alternativas ao cenário do trabalho digital

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Antonio Casilli, professor da ParisTech, lançou em 2019 o livro En Attendant Les Robots: enquete sur le travail du clic, sobre o qual comentamos aqui e aqui e pode ser lido parcialmente em espanhol aqui. Em entrevista à DigiLabour, Casilli comenta sua nova pesquisa sobre microtrabalho na França, já com alguns resultados publicados. O autor prefere falar em “plataformização” em vez de “uberização” do trabalho, por envolver diferentes maneiras de extração do valor a partir das distintas plataformas de trabalho digital (este argumento também pode ser conferido aqui). Além disso, Casilli comenta alternativas ao cenário do trabalho digital. Confira os áudios abaixo:

Plataformização do Trabalho

Microtrabalho na França

Alternativas ao cenário atual do trabalho digital

Responsabilidades do pesquisador em relação ao trabalho digital

Valor de qualificação, valor de monetização e valor de automação

“É simplista definir o trabalho digital exclusivamente como um trabalho de clique”: entrevista com Sebastien Broca

Sebastien Broca é professor da Universidade Paris VIII e autor do livro L’utopie du logiciel libre. É integrante de rede europeia  de estudos sobre trabalho digital e tem se dedicado a escrever sobre commons digitais e a questão do trabalho digital. Confira a entrevista:

 

DIGILABOUR: Quais são as suas críticas às pesquisas sobre trabalho digital e o que propõe como alternativa?

SÉBASTIEN BROCA: Em primeiro lugar, gostaria de dizer que a pesquisa que se ancorou em torno do conceito de trabalho digital é, em minha opinião, interessante e positiva em muitos aspectos. Elas ajudaram a destacar aspectos do capitalismo digital que foram insuficientemente tratados na pesquisa acadêmica e no debate público. Por exemplo, a importância econômica do trabalho não assalariado e do trabalho não pago, a competição e a precarização do trabalho, a indefinição entre trabalho e não trabalho, combinando com a ascensão do modelo de plataforma. No debate francês, os trabalhos de Antonio Casilli permitiram trazer questões importantes, que vão além do problema da “uberização”, sobre o qual o debate público tem se concentrado há muito tempo. Hoje estamos falando cada vez mais sobre o microtrabalho nos programas de inteligência artificial, o trabalho dos moderadores de conteúdo e o trabalho gratuito de produção de conteúdo pelos usuários das redes sociais. Isso deve ser creditado à pesquisa sobre trabalho digital. Minhas reservas dizem respeito à tentação de igualar essas várias atividades dentro de uma categoria falsamente homogênea. Então, eu não acho que temos que ver o trabalho digital como um tipo único de trabalho. É simplista definir o trabalho digital exclusivamente como um “trabalho de clique” repetitivo e fragmentado feito em um computador ou smartphone. Parece-me que esmaga a diversidade e a complexidade das atividades que estão sendo discutidas. Um motorista do Uber faz mais do que apenas um “trabalho de clique”: ele também dirige o carro, coloca e tira a bagagem, conversa com seus passageiros. Outro exemplo: os voluntários que produzem os dados dos jogadores do game Football Manager também realizam uma forma de trabalho digital. Mas seu envolvimento não se reduz ao “trabalho de clique”: consiste em inserir dados em um banco de dados. Antes disso, essas pessoas tiveram que assistir a jogos e treinamentos dos clubes pelos quais são responsáveis, discutir em fóruns para justificar as pontuações dadas a um determinado jogador, entre outras tarefas. Em resumo, eu considero útil a noção de trabalho digital por circunscrever um campo original de pesquisa, mas problemático quando isso leva a apagar as diferenças entre atividades tão diversas quanto dirigir um Uber, trabalhar na Amazon Mechanical Turk, postar um vídeo em uma rede social ou classificar jogadores para um game. Esse problema é tão científico quanto político. As lutas sociais contra o trabalho digital variam em função das atividades em jogo: alguns motoristas da Uber pedem, legitimamente, para serem requalificados como trabalhadores da plataforma, mas seria absurdo que os dois bilhões de usuários que fornecem dados e conteúdos para o Facebook peçam para se tornar trabalhadores de Mark Zuckerberg. Portanto, precisamos fazer distinções específicas dentro do campo dedicado à pesquisa do trabalho digital.

 

DIGILABOUR: Como você vê as críticas liberais e marxistas em relação ao capitalismo digital?

BROCA: Eu acho que a principal diferença entre esses críticos são seus temas preferidos. Os liberais concentram-se em questões de liberdade de expressão, privacidade e acesso ao conhecimento. Sua principal âncora normativa é a defesa da autonomia individual frente o poder do GAFAM (Google, Apple, Facebook, Amazon, Microsoft) e os Estados. Isso pode ser visto em vários defensores das liberdades digitais e em alguns trabalhos recentes, como o de “capitalismo de vigilância”, de Shoshana Zuboff. Podemos dizer que a evolução iliberal da internet tornou essas críticas cada vez mais veementes nos últimos anos. Os críticos da tradição marxista, lato sensu, por sua vez, concentram-se em questões relacionadas à exploração de trabalho, à distribuição desigual do valor econômico e à erosão das formas de proteção social. Aqui, novamente, as recentes dinâmicas do capitalismo digital tendem a acentuar essas críticas e torná-las mais necessárias do que nunca. O desenvolvimento de pesquisas em torno do trabalho digital é uma boa ilustração. Meus interesses de pesquisa estão mais de acordo com os temas da crítica “marxista”. Mas acho que existem certas complementaridades entre esses críticos, que devem ser desenvolvidas. Assim, defender as liberdades online sem analisar o poder econômico do GAFAM e as mudanças no trabalho podem, em minha opinião, apenas tornar o discurso crítico em algo inofensivo, e ação política, inoperante. Como lutar contra as violações de liberdade de expressão das grandes plataformas, sem analisar os desafios enfrentados pelos moradores de conteúdo em uma economia baseada na publicidade? Como criticar essas formas de moderação de conteúdos sem levar em conta o fato de que trata-se de uma parcela terceirizada de trabalhadores precários? Como você deseja preservar a privacidade online sem questionar as estratégias de lucro que tornam a exploração massiva de dados pessoais uma necessidade econômica estrutural?

 

DIGILABOUR: O que você entende por “epistemologia do código”?

BROCA: Quando falei sobre epistemologia do código, estava tentando pensar sobre como as tecnologias digitais estão mudando a produção de conhecimento, especialmente no contexto de humanidades digitais. A ideia geral é dizer que as ferramentas computacionais não são simplesmente instrumentos “neutros”, sem influenciar a orientação epistemológica da pesquisa em desenvolvimento. Essas técnicas trazem consigo uma certa visão de mundo e uma certa representação das exigências específicas para a produção do conhecimento científico. Em outras palavras, há o que se permite ou não se permite fazer “concretamente”. E há também – não devemos esquecer disso – todo o imaginário carregado por essas técnicas. Elas, portanto, tendem a favorecer um regime de cientificidade baseado na agregação de informações, e não no confronto de pontos de vista, a fim de construir o mundo como um conjunto de elementos bem distintos e determinados, para valorizar os grandes projetos colaborativos em detrimento do trabalho solitário do pesquisador. A epistemologia do código é tudo isso

 

DIGILABOUR: Por que, em sua visão, projetos baseados em commons apresentam ambiguidades?

BROCA: Há certas ambiguidades em torno da noção de commons por seu significado ser muito amplo, e também porque, em uma perspectiva de movimentos sociais, a defesa de commons agrega atores bastante heterogêneos. Eu vou dar dois exemplos. O primeiro diz respeito à relação entre os commons digitais, como software livre e Wikipedia e o capitalismo digital. Hoje, sabemos que esses recursos são usados de várias maneiras pelo GAFAM, seja porque sua infraestrutura técnica funciona com software livre, ou porque o Google, por exemplo, aprimora o serviço que fornece aos usuários por meio da Wikipedia. O que os defensores dos commons pensam dessa situação? Alguns acreditam que não é problemático, desde que as empresas cumpram as licenças, como Creative Commons, associadas a este commons e não privatizem. Basicamente, desde que o software permaneça “livre” e a Wikipedia permaneça acessível a todos, não há problema! Outros lamentam que esses commons sejam transformados em commons do capital, e apontam para o fato de que grandes empresas geralmente se comportam como “clandestinas”. Lucram com os recursos comuns, e financiam pouco ou quase nada a produção. Uma segunda ambiguidade diz respeito à relação com o Estado. É prática corrente apresentar os commons como uma espécie de terceira via, à distância tanto do Estado quando do mercado. É claro, além disso, que há uma forte inspiração libertária no movimento dos commons, que foi construído em reação tanto aos becos sem saída do “comunismo real” quanto à excessiva verticalidade do Estado social fordista. Isso não nos diz, no entanto, como esse movimento poderia ou deveria estar articulado ao Estado no futuro. Alguns acreditam que não há nada mais a esperar do Estado e que, irremediavelmente, o neoliberalismo ganhou. Outros, ao contrário, defendem uma “comunalização” dos serviços públicos e do Estado social, e tentam pensar em maneiras pelas quais as políticas públicas poderiam encorajar o desenvolvimento de commons.

 

 

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